Excepcionalmente nesta quarta-feira, o estudante Leonardo Dahi comenta os erros de arbitragem na final do Campeonato Carioca e também as demais decisões dos Estaduais pelo Brasil.

O grande astro

No último domingo, o Flamengo foi campeão carioca de 2014. O gol do título, mais um conquistado sobre o grande rival Vasco, foi marcado aos 45 do segundo tempo. Foi chorado. A primeira cabeçada acertou a trave e Márcio Araújo esticou o pé para mandar para as redes e fazer a alegria de metade dos mais de 40 mil presentes no Maracanã, além dos milhões de rubro-negros espalhados pelo Brasil.

Legal, né? Então… Mais ou menos. É que, em meio a esse cenário, temos que lembrar que o tal Márcio Araújo estava impedido e nem bandeira, nem assistente-inútil-que-fica-atrás-do-gol perceberam. Há quem diga que foi um lance difícil (nem foi dos mais difíceis e se bandeira só tivesse que acertar nos lances fáceis, poderiam colocar qualquer um lá), que nem o time do Vasco reclamou (estavam todos embasbacados com a própria sina, ficaram sem reação), mas, sem mais delongas, foi vergonhoso.

Falando em termos de arbitragem, foi um ponto fora da curva. Roubo ou erro, foi um lance que mudou os rumos do campeonato e que servirá para eternizar um campeonato ridículo em termos técnicos. Sim, porque torcedor do Vasco nenhum vai esquecer esse jogo e fará questão de lembrar eternamente esse título perdido no apito – ou na falta dele. Nesse caso, não tem como não dizer que o árbitro mudou os rumos da partida e até entendo teorias de favorecimentos, esquemas, etc.

Mas, em geral, tenho notado um fenômeno triste que ocorre em todo o Brasil, mas que tem se acentuado de forma lamentável no Rio de Janeiro. Toda e qualquer derrota, em toda e qualquer circunstância, é colocada na conta do árbitro. Não importa que seu time seja fraco, ruim, péssimo, horroroso, tenebroso, sofrível, lamentável ou o Vasco. Não importa que nenhum dos gols tenham tido influência direta da arbitragem e que a mesma não tenha evitado nenhum deles. Você, torcedor, vai encontrar um cartão não dado, um escanteio que virou tiro de meta, um lateral invertido ou apelar para o manjado “ele trocou falta o jogo inteiro”.

flavasco2014As vezes, até é verdade que a arbitragem influiu no resultado. Mas quase nunca, pra não dizer nunca, ela foi decisiva. Por trás de uma derrota com influência do árbitro, há uma falha na zaga, um gol feito perdido, um frango do goleiro ou o puro e simples fato do seu time ser horroroso e/ou pior que o vencedor. No caso de domingo, mesmo, tudo isso poderia ter sido evitado se o zagueiro vascaíno Rodrigo não tivesse a brilhante ideia de sair para receber atendimento médico no último lance do jogo (não estou justificando nada, que fique claro).

O problema do torcedor começar a esconder os problemas do seu time para reclamar do juiz é óbvio: jogadores, técnicos e dirigentes começam a fazer o mesmo. Incentivados pela imprensa, diga-se. Ah, meu amigo, aí é mole. Camarada erra no esquema, na escalação, nas substituições, chega na coletiva e ouve 15 perguntas sobre a falta não marcada no meio de campo que gerou a arrancada de onde saiu o cruzamento afastado pela zaga causando o escanteio que deu início a jogada do gol.

O cara vai, disserta longos minutos sobre a arbitragem, fala que o nível é muito baixo (o que é verdade), faz aquela média com a torcida… Aí vem um jornalista com um raro ataque de bom senso e pergunta por quê o treinador optou por tirar o melhor jogador do time na partida. Ele justifica com uma dessas respostas prontas e volta a lembrar da falta não marcada no meio de campo que…

A coisa chegou a níveis tão absurdos que já tem gente reclamando da arbitragem antes do jogo começar. Essa semana mesmo, vi inúmeros torcedores do Vasco falando que teriam que ganhar do árbitro. Com todo o respeito, se você acha que há um esquema contra o seu time e assiste ao jogo mesmo assim, ou você é masoquista, ou é burro mesmo.

O jogo fica muito mais chato com esse pensamento. É um vício irritante discutir a arbitragem e deixar a partida de lado. Até porque é inútil, já que ninguém vai voltar atrás. Análise da arbitragem tem que se limitar a: “acertou, parabéns” ou “errou” e, a partir desse errou, ver o nível do erro e discutir uma possível punição ao árbitro. Pronto, acabou.

A final do Campeonato Carioca ainda teve um outro capítulo à parte. A mulher do árbitro Marcelo de Lima Henrique, num surto impressionante de genialidade, escreveu no Facebook que o Vasco iria ser “vice de novo”. Pronto, aí foi instaurado o caos. Torcedores vascaínos se rebelaram, falaram em armação e tal. Agora acompanhe comigo.

Deixemos de lado a burrice da senhora Lima Henrique e admitamos todos que ela é vascaína. Qual o problema? Aliás, qual o problema do próprio Marcelo de Lima Henrique supostamente ser flamenguista? O que os torcedores precisam entender é que árbitros (o mesmo vale para jornalistas e comentaristas esportivos) só são árbitros porque gostam de futebol. E que, como qualquer um de nós, começou a gostar de futebol porque tem um time do coração. Ninguém nasce árbitro. Se há provas de que ele favorece o clube do coração, que não apite mais. É tão simples.

Eu entendo que o Vasco perdeu um título por um erro da arbitragem e que isso é terrível para o torcedor. Mas entendo também que não podemos reduzir qualquer decisão de 180 minutos a um lance. O futebol, principalmente em termos técnicos, é muito mais do que isso. Insisto que os erros não podem passar em branco e muito menos serem relevados. Só peço para que não sejam tudo.

O que o Presidente do Atlético Mineiro fez, por exemplo, é patético. Alexandre Kalil, por causa de um impedimento bem marcado que culminou na não marcação de um pênalti, disse que o Galo só ganhou a Libertadores “porque essa gangue não estava lá”. Nem que não estivesse impedido um Presidente poderia dizer algo assim.

Por fim, gostaria de perguntar: por que ainda há algum empecilho para a utilização de tecnologia para ajudar os árbitros como na maioria dos esportes? Que? Vai tirar a graça do futebol? Vai ficar chato? Meu amigo, chato é essa coluna falar de arbitragem e não das finais Estaduais jogadas, vencidas, perdidas e protagonizadas pelos 22 jogadores e não pelo árbitro, o grande astro que tem decidido jogos e campeonatos.

Algumas notas sobre os Estaduais

– em São Paulo, um Campeonato Paulista que foi bom desde o início, apesar do fraco desempenho de Corinthians e São Paulo. Santos e Ituano fizeram uma final excelente, a única que eu vi, bem disputada e bem jogada. O Santos fez um campeonato maravilhoso, mas o Ituano foi gigantesco na final e mereceu demais o título, conquistado nos pênaltis, onde o Galo de Itu apresentou frieza impressionante. Segunda vez na história que um pequeno é campeão sobre um grande (a outra foi em 1986, quando a Inter de Limeira venceu o Palmeiras). Santos parece ser o único paulista pronto pro Brasileirão.

– no Rio, um Estadual fraquíssimo, boicotado pelos grandes e pela Federação local, que faz a Federação Paulista parecer um exemplo de organização. Flamengo e Vasco parecem ter feito dois jogos ruins e o final foi, como dito, lamentável. Alguém precisa fazer alguma coisa para salvar o outrora melhor Estadual do país. Nenhum dos quatro grandes tem time para fazer um bom Brasileirão.

– em Minas, a final mais badalada parece ter sido um porre. 180 minutos sem gols fizeram do Cruzeiro o campeão mineiro, sobre um Atlético Mineiro que não me agrada nem um pouco, deve cair logo na Libertadores, mas briga pelo título brasileiro. Gosto desse Cruzeiro, que é o time que mais me agrada no Brasil hoje.

– no Rio Grande do Sul, o Grêmio, que faz ótima Libertadores, levou um 6 a 2 de dar dó do Inter no agregado. Acho que o Tricolor é o brasileiro com mais chances na Libertadores, mas não vejo um time para vencer nos pontos corridos. Ainda assim, a dupla Gre-Nal fecha o G-4 do Brasil atualmente.

– no Paraná, final interiorana que consagrou o Londrina contra o Grêmio Maringá, deixando evidente a fragilidade de Coritiba e Paraná. O Atlético deu de ombros para o torneio e jogou com o Sub-23. Para quem só ganhou um título de expressão fora do Paraná, jogar dois títulos fora em dois anos não me parece inteligente.

– em um Estadual que cresce a cada ano, o Figueirense se sagrou campeão catarinense ao fazer uma grande final com o Joinville. Com três times na Série A e mais dois na Série B (50% do torneio), esse é um campeonato que merece mais atenção.

– na Bahia, a dupla Ba-Vi não vive grandes momentos, mas o Tricolor de Aço levou a melhor sobre o maior rival. Acho que os dois podem fazer um Brasileirão tranquilo, mas precisam, especialmente o Vitória, ficar atentos para não se complicarem.