Nesta terça-feira, o estudante Leonardo Dahi aborda o cinquentenário do golpe militar de 1964 e propõe que o acontecimento jamais seja esquecido para que não ocorra novamente.
Relembrar para não repetir. Será?
Nesta terça-feira, foram completados 50 anos do Golpe Militar de 1964, que deu início ao período negro que chamamos de Ditadura no Brasil. Oficialmente, ele se encerrou em 1985, embora tenha entrado em declínio algum tempo antes e seus últimos dias tenham sido apenas para “preparar o terreno” para a volta de democracia.
A Ditadura é um tema muito polêmico, infelizmente. Digo infelizmente porque existem certas coisas que deveriam ser unanimidade. O fato de que a Ditadura foi a pior coisa que já nos aconteceu desde 1500, por exemplo, é um deles.
Não existe, repito, não existe argumento nenhum que faça qualquer pessoa com cérebro acreditar que o Regime Militar foi uma coisa boa para o país. Além da óbvia falta de liberdade de expressão e de opinião, a economia foi de mal a pior – basta lembrar que a gravíssima crise econômica dos anos 80 e 90 se deu por causa dos militares -, havia, sim, corrupção e tanto o povo quanto o país em geral ficaram atrasados em relação ao resto do mundo.
Foram, portanto, duas décadas que praticamente paralisaram o Brasil. E, mesmo após quase três décadas de seu fim, ainda deixou algumas marcas na sociedade brasileira. Chega até a ser engraçado, mas tem gente que até hoje ainda repete o discurso dos milicos de afastar o “perigo comunista”, mesmo com os candidatos do PCB não chegando nem a 0,01% dos votos nas Eleições.
É de fundamental importância relembrar a Ditadura Militar. Cada brasileiro tem de lembrar todos os dias a tragédia que isso foi para o país por um só motivo: jamais pensar em repetir algo assim. A história deve ser estudada como ela de fato foi, sem vícios e sem o olhar de 2014.
Sim, porque se você for estudar a Ditadura através de um defensor da mesma, a menos que pense como se estivesse em 1970, corre o risco de acabar achando legal. O cidadão vai fazer você acreditar (eles são ótimos nisso) que não havia corrupção – claro, quando saía um escândalo do tipo o jornal não podia colocar na capa -, que o país era seguro – óbvio, ninguém podia andar na rua depois de certo horário – e que não é verdade que o povo era contra o Regime – com certeza, afinal, quem era contra, era preso ou morria.
Aí ele vai te transportar ao Brasil de 2014. Violência, falta de saúde, de educação, corrupção, tudo isso que “não acontecia” em tempos de Médicis e Castellos Brancos. Na “data cheia” do golpe militar, os apoiadores da Ditadura, que antes só apareciam depois da quinta latinha de cerveja no churrasco de domingo, ganharam maior voz.
Eles voltaram para a mídia, tomaram as redes sociais, adotaram com orgulho inacreditável o termo “Revolução de 64” e até organizaram uma nova Marcha da Família com Deus pela Liberdade, série de manifestações ocorridas 50 anos atrás contra a tal “ameaça comunista” representada por um discurso do então Presidente João Goulart, que, aliás, foi um enorme injustiçado, talvez o maior deles nesse país até hoje.
O discurso desse pessoal é inacreditável. Outro dia um deles, embalado pelo clamor pseudo-popular do “não vai ter Copa”, relembrou que o Presidente Figueiredo, o último dos ditadores, recusou a realização da Copa de 1986 no Brasil, após a Fifa retirar o Mundial da Colômbia.
Isso até é verdade. De fato, antes do México, o Brasil foi cogitado como sede e, de fato, Figueiredo recusou. Mas, ao contrário do que se diz, não foi porque ele teria dito ao então Presidente da Fifa João Havelange, que o país tinha outras prioridades como saúde, educação e combate à seca no Nordeste, mas sim porque o próprio Havelange queria outra Copa no México (que havia sido sede do torneio em 1970) devido à amizade com o chefão da Televisa e homem-forte do futebol local. Assim, devido ao pouco tempo para construção e reforma dos estádios, Figueiredo preferiu deixar essa para outro dia.
E assim são construídas novas falácias, aproveitando-se do momento longe da perfeição vivido pelo nosso país. Confesso que até outro dia achava isso bem engraçado. Velhos saudosistas ou jovens alienados repetindo mentiras absurdas de uma extrema-direita que cheira a mofo. Só que, de uns tempos pra cá, eu tenho ficado preocupado.
Estou vendo cada vez mais velhos saudosistas e cada vez mais jovens alienados repetindo essas histórias – e antes da primeira latinha. Os velhos saudosistas não me tiram o sono porque não estão mais em condições de fazer nada. Os jovens alienados, esses sim, me preocupam. Me preocupam porque estão dando recados cada vez mais claros ao pessoal que vive nos quartéis: sim, vocês podem.
Acredito que, hoje, o Exército Brasileiro não tenha condições de tomar o poder. Mas não dá para saber como a coisa vai estar daqui a cinco, dez, quinze anos. Não acho, de verdade, que os Militares estejam com muita pressa. Acho que há uma possibilidade, pequena, por enquanto, de eles começarem a articular uma volta ao poder.
Enquanto a gente fica aqui relembrando esse período negro para que ele não se repita, tem quem o distorça para que ele volte. Acho que, infelizmente, chegou a hora de trocar as risadas por uma maior cautela. Cuidado com o seu voto e, principalmente, com a audiência que você dá para certas pessoas.
Eles querem falar. Como isso felizmente é uma democracia, deixe que falem. Mas, por favor, deixe que falem sozinhos.
Concordo, mas tem um porém: o atual Governo se encaminha para isso! Basta ver a quantidade de crimes contra a imprensa que acontecem!
Basta ver o desejo ardente do Governo controlar a Internet.
Basta ver o medo da imprensa de noticiar a verdade. O SBT está penando na mão do PT: ou nos obedece ou fica sem a concessão.
Infelizmente, quem lutou contra a Ditadura não queria um país melhor, e sim, queria tomar o poder. E fazer igualzinho.
Em tempo: não sou a favor da Ditadura. Nem a de antes, nem a de hoje!
Rodrigo, se o Brasil fosse uma ditadura, você não poderia ter escrito este comentário. Simples assim.