Nesta terça-feira, o historiador Luiz Antonio Simas começa a relembrar a história das Copas do Mundo. No primeiro texto, o Mundial de 1930, vencido pelos anfitriões uruguaios

A primeira Copa do Mundo

Só uma boa dose de megalomania, temperada pela paixão que o futebol desperta, poderia justificar a construção de um estádio para 100 mil pessoas, em 1930, no Uruguai – pequeno país do extremo sul da América. Um cartesiano de carteirinha diria que um estádio nessas proporções, em um país com a baixa densidade demográfica do Uruguai, justificaria anos de tratamento psiquiátrico para seus entusiastas.

Às favas com a racionalidade! Foi essa megalomania apaixonada que proporcionou a construção do Estádio Centenário, em Montevidéu, capital do país. Imponente, verdadeiro monumento de cimento e grama, o Centenário foi erguido, às margens do Rio da Prata, para ser o palco principal da primeira Copa do Mundo da história. O nome do estádio homenageava os 100 anos da Constituição de 1830, promulgada pouco depois da independência do Uruguai. Ela, a constituição, já foi para a cucuia faz tempo. O estádio continua de pé.

A Copa em questão contou com apenas 13 seleções participantes. A maioria dos países europeus, alegando a distância e os efeitos da crise econômica mundial (a bolsa de valores de Nova York quebrara em 1929), fez forfait. Apenas três seleções do Velho Mundo atravessaram o Atlântico para bater bola e entrar para a história do futebol – Iugoslávia, Romênia e França.

Se os europeus preferiram ficar em casa, o mesmo não pode ser dito dos americanos de norte a sul. Até os Estados Unidos, com a histórica dificuldade de convencer o público interno de que também se pode jogar bola com os pés, mandaram um time para o certame. Os jornalistas, impressionados com os músculos dos jogadores do Tio Sam, apelidaram o selecionado de “Os Arremessadores de Peso”.

A intimidade dos fortões dos EUA com a bola, segundo testemunhas, era similar a que um vampiro tem com alhos e crucifixos. Como o futebol, porém, é uma caixinha de surpresas – e de clichês como este – a seleção norte-americana chegou às semifinais, com gols espíritas e uma defesa que batia mais do que os exércitos do Norte na Guerra de Secessão. Os EUA acabaram eliminados pela Argentina, mas voltaram para casa com a terceira colocação – a Iugoslávia, que perdera a outra semifinal para o Uruguai, simplesmente voltou para casa e não disputou o terceiro lugar.

Dentre os jogos épicos dessa primeira edição do Mundial, há que se destacar o embate entre Argentina e França e a final entre Uruguai e Argentina; duas partidas que não ficam nada a dever aos maiores clássicos cinematográficos da história do Velho Oeste, com heróis, bandidos, árbitros bancando os xerifes e mocinhas desmaiando no saloon.

A refrega entre argentinos e franceses foi marcada por gols perdidos, expulsão, invasão de campo da torcida local – que apoiou a França – e pela maluquice do juiz brasileiro Almeida Rego, que resolveu acabar o jogo aos 38 minutos do segundo tempo, sem qualquer motivo aparente. Depois de ser ameaçado até pelos fantasmas de Robespierre, Napoleão e Joana D´Arc, Almeida Rego reconsiderou a decisão e deu prosseguimento ao embate. A Argentina levou a melhor pela vantagem mínima (1 a 0).

A final, entre uruguaios e argentinos, entrou para a história como a “Batalha do Rio da Prata” e foi disputada em ritmo de tango. Carlos Gardel, o maior artista da história do gênero, visitou ambas as concentrações na véspera da disputa e cantou alguns sucessos. Como ídolo dos dois países, Gardel, que não era besta de meter a mão em cumbuca, temia perder fãs se manifestasse aberta torcida por uma das seleções e preferiu, prudentemente, acompanhar o fuzuê encima do muro.

Argentinos e uruguaios quase brigaram antes mesmo de começar a partida final, para definir qual seria a nacionalidade da pelota usada no jogo. Para evitar problemas, o juiz belga John Langenus achou por bem fazer um sorteio. A bola argentina foi escolhida na moedinha. Os juízes à época, diga-se, apitavam trajando sapatos, calça comprida, camisa, casaco e boina. A elegância dos árbitros era visível, a mobilidade em campo é que não era lá essas coisas.

O jogo, disputadíssimo, terminou com o placar de 4 a 2 para os uruguaios, escore que os mais de 500 jornalistas presentes ao embate consideraram exagerado, em virtude do equilíbrio que marcou a partida. O capitão da “Celeste Olímpica”, José Nazassi, recebeu das mãos de Jules Rimet, presidente da FIFA, a “Deusa de Asas de Ouro”, uma taça feita em mármore e ouro, esculpida pelo francês Abel Lafleur.

Fora do estádio, a pancadaria comeu solta. Milhares de argentinos que tinham atravessado o Prata para ver a partida (centenas não conseguiram ingressos para entrar no Centenário), resolveram vingar a derrota promovendo memorável furdunço nas ruas de Montevidéu.

brasil1930O BRASIL NA COPA

Treinado por Píndaro de Carvalho, o time brasileiro passou longe de fazer bonito no primeiro Mundial. O Brasil perdeu na estreia para a Iugoslávia, 2 a 1 para os gringos, e goleou a fraquíssima seleção da Bolívia (4 a 0) no segundo jogo. A despeito da vitória contra os bolivianos, a seleção foi eliminada na primeira fase.

Alguns jogadores culparam o frio uruguaio pelo fracasso e pintaram, com tintas dramáticas de fazer Montevidéu parecer a Sibéria no inverno, um quadro que, a ser verdade, teria congelado o elenco inteiro em cinco minutos.

Deixando de lado o frio, que afinal não pode se defender, é melhor procurar as razões para o fiasco brasileiro na crise interna que marcava, naquele tempo, o nosso futebol. Os clubes paulistas se negaram a ceder atletas para o escrete. Havia divergências entre os próprios paulistas (divididos em duas federações), e entre estes e a CBD. Apenas Araken Patuska, que brigou com seu clube (Santos FC), foi. Ficaram de fora craques como Feitiço e o melhor jogador brasileiro à época, Arthur Friedenreich.

Salvaram-se do pífio desempenho do Brasil no certame, Fausto (CR Vasco da Gama), mais conhecido como “A Maravilha Negra” – que os jornalistas presentes afirmam ter sido o único que jogou o futebol que estava acostumado a praticar – e o atacante Preguinho. O atleta do Fluminense, filho do escritor Coelho Neto, marcou o primeiro gol brasileiro na história das Copas.