Neste domingo, o compositor Aloísio Villar comenta a reta final dos Campeonatos Estaduais, com ênfase ao clássico entre Flamengo e Vasco pela final do Carioca.
O clássico dos milhões
Nesse domingo chegam ao fim os Campeonatos Estaduais do país. Houve uma época que foram os principais campeonatos de futebol do Brasil. Principalmente na época que as distâncias eram ainda maiores, já que somos um país de dimensão continental e era muito difícil fazer esse trajeto.
Alguns dos principais jogos da história do futebol saíram dos Estaduais, os maiores públicos também – só lembrar que o maior público entre clubes da história do futebol mundial foi em um Fla x Flu do carioca de 1969. Grandes jogadores saíram desses certames e o Estadual entrou em definitivo no coração do torcedor.
Mas o tempo passou, as distâncias foram vencidas e o futebol se tornou algo nacional. A Libertadores se tornou um grande atrativo, a Lei Pelé ajudou os empresários e prejudicou os times pequenos. Com isso, o futebol dos Estaduais entrou em decadência.
Falta de competitividade, regulamentos esdrúxulos, estádios caindo aos pedaços e falta de boa vontade dos clubes foram pouco a pouco transformando os torneios que, até os anos 80, eram tão importantes quanto os Brasileiros e mais do que a Libertadores no que são hoje.
Um fardo, uma pré-temporada, algo que não desperta interesse, uma pena.
Em Minas tem final com os dois times pensando na Libertadores, no Rio Grande, Grenal com o Grêmio também pensando na competição. No Paraná, final com times do interior. Sobram Centro-Oeste, Nordeste e Norte, que sempre tiveram estaduais como forças, mas o Nordeste começa a se interessar mais por sua Copa do que Estadual.
São Paulo, que teve estaduais históricos como a conquista do Corinthians de 1977, teve um sem graça em 2014, cuja única atração é saber se o Ituano será campeão. Isso num ano que nenhum paulista disputou a Libertadores porque todos fracassaram em 2013.
Restou o do Rio de Janeiro.
O Rio de Janeiro, que teve um dos piores campeonatos de sua história, com o agravante de não ter o Maracanã fechado como os péssimos de 1992 e 2013, não teve WOs como de 1998 nem foi chamado de “Caixão” como de 2002, no ano em que teve Rio-SP e os times se dedicaram a ele.
O de 2014 teve a volta do Maracanã lindo, reformado, o povo morrendo de saudades dele e mesmo assim fracassou.
Fracassou por causa de um regulamento inacreditável, porque tinha 16 clubes, sendo a maioria sem as mínimas condições de disputar uma Série A. Fracassou devido os estádios.
E, na minha opinião, principalmente por causa dos clubes e um possível campeão é o principal responsável.
Com o perdão da má palavra, mas Fluminense, Botafogo e Flamengo “cagaram” para o campeonato carioca. Fluminense mais uma vez mostrou grande incompetência e mesmo tendo bons jogadores e patrocinador forte caiu no campo para a Segunda Divisão do Brasileiro, o quarto rebaixamento em 17 anos. Conseguiu permanecer devido à incompetência administrativa de Portuguesa e Flamengo.
Mesmo assim “cagou” pro Estadual. Começou com time reserva e com os titulares não melhorou muita coisa. Tirando a vitória em cima do Flamengo, pareciam “milionários entediados”. Em nenhum momento mostrou que poderia disputar o título e não o disputou.
O Botafogo, desacostumado com Libertadores, se viu diante da competição e não soube o que fazer. Não conseguiu se planejar. Botou reservas no Carioca, quando teria a chance de bicampeonato, abrindo mão do torneio.
Por castigo de Deus, ou do Papa, ficou sem os dois.
O Flamengo foi quem mais maltratou o carioca. Soube se planejar melhor que o Botafogo, botou reservas em boa parte da competição e foi mais bem sucedido.
Mas sua direção e torcida, que anda deslumbrada com essa direção, se achou maior que a competição e a tratou como fardo, como “carioquinha” ou “carioqueta” como definiram ídolos da “Fla Twitter”, esquecendo que o Flamengo é desse tamanho muito por causa do Estadual e, se não fosse por ele, teria comemorado apenas quatro títulos em 22 anos.
Já que o Flamengo se acha grande demais pro Carioca devia desistir de disputar Libertadores porque é pequeno demais pra ela.
Pra piorar tudo, a bem intencionada, trabalhadora e elitizada direção do clube colocou preços dos ingressos na estratosfera. Ingressos mínimos a 80, 100 reais, em horários ruins, estádios acanhados, times reservas e transmissão da TV, expondo o Flamengo e o campeonato ao ridículo com vários públicos de menos de mil pagantes e, pasmem, chegando a ter jogo com 300 testemunhas.
O clube mais popular do país, o mais querido, com 300 pagantes em um jogo.
A impressão que me deu é de que o Flamengo quis avacalhar o campeonato de propósito, por briga com a federação e pior que é bem possível que seja campeão.
Porque seu oponente, o Vasco, foi o único a respeitar o campeonato, até porque vai disputar o Brasileiro da Série B e anda carente de títulos. O Vasco tem um elenco voluntarioso, mas limitado, e tem de vencer a partida, fora a escrita de sempre perder finais para o Flamengo.
O Vasco tem a seu favor o desgaste do time do Flamengo, seus desfalques e o desânimo que tomou conta de sua torcida com a eliminação da Libertadores. É capaz de ter mais vascaínos que rubro-negros no Maracanã, fato raro.
As lembranças de grandes Flamengo x Vasco como as conquistas vascaínas de 1982 ganhando do Flamengo campeão do mundo, o bi de 1987/88 com o histórico gol do Cocada e as conquistas rubro negras de 1978 que marcou o começo do grande Flamengo e o tricampeonato de 1099/2000/01 finalizado com o lendário gol do Pet é que motivam esse jogo e esse fim de campeonato, alem da tentativa vascaína de quebrar a escrita. Eu, mesmo como rubro-negro, hoje estou desanimado, mas até a bola rolar isso pode mudar.
Se existe justiça no futebol esse título será do Vasco, mas, como futebol e justiça não andam juntos, meu lado rubro-negro aflora esperando ouvir de novo ecoar no Maracanã o “vice de novo”.
Só a rivalidade é capaz de salvar os Estaduais, só a zoação da segunda-feira.
E isso só o Estadual é capaz de fazer.