Excepcionalmente neste sábado, o jornalista esportivo Fred Sabino analisa a confusão de ordens na equipe Williams no último Grande Prêmio da Malásia, no qual Felipe Massa se recusou a ceder posição ao companheiro Valteri Bottas.

Território demarcado

Quando deixou a Ferrari, Felipe Massa esperava tudo: adaptação a um novo time (a Williams), possíveis dificuldades com o novo carro, desconfiança da torcida devido à mudança. Mas duvido que ele esperasse uma ordem de equipe logo na segunda corrida, na Malásia.

“Valteri is faster than you” (Valteri está mais rápido do que você) ecoou no ouvido de Felipe, que, ao contrário dos tempos na Casa de Maranello, quando era “parceiro” de Fernando Alonso, desta vez não cedeu e acabou a prova na sétima colocação, uma à frente do piloto finlandês.

Antes da análise propriamente dita, vamos contextualizar. Pensou a Williams que Bottas, ao ter um ritmo melhor do que Massa, poderia atacar Jenson Button, que estava logo à frente. A ideia era a de que Bottas passasse Button e, desta forma, a Williams marcasse mais pontos.

No fundo, foi uma grande confusão causada por dois fatores: uma tradição da Williams de permitir os pilotos brigarem na pista e uma direção de time que passa por transformações. Em resumo: falta uma voz de comando ao time. Um Jean Todt, um Ron Dennis, um Ross Brawn. Uma voz que liberasse ou contivesse seus pilotos claramente.

A nova chefe geral do time, Claire Williams, é uma administradora e meio que conduz a parte burocrática/comercial, já que Frank Williams não tem mais forças para comandar o time para valer. O novo chefe de engenharia, Pat Symonds, não lida diretamente com a área esportiva. E Rob Smedley, novo chefe de desempenho, estreia no GP do Bahrein.

Em meio a essa falta de comando, houve ordens truncadas: de que Massa não deveria dificultar a ultrapassagem de Bottas, depois, que deveria ceder passagem e, por fim, que as posições deveriam ser mantidas, com o brasileiro à frente.

Na verdade, o grande erro em tudo isso é que o finlandês não estava tão mais rápido como o time imaginava, já que os pneus já estavam se desgastando. Ou seja, não havia nada que justificasse qualquer ordem. Tanto que em nenhum momento Bottas ameaçou efetivamente uma ultrapassagem ou Massa fechou para valer a porta.

Sabendo bem do que estava acontecendo realmente, Felipe manteve seu ritmo e não deu chances a um eventual ataque de Bottas. E, dessa forma, as posições permaneceram daquela forma. Nas reuniões pós-corrida, Massa expôs tudo isso, demarcou seu território no time, e recebeu um pedido de desculpas já na Malásia.

Felipe sempre foi o que se chama de “team player”, ou seja, ajudou a Ferrari em todas as oportunidades em que realmente foi necessário – e até foi ajudado por Kimi Raikkonen em 2008. Sabe o que é andar entre os primeiros colocados e jamais faria algo que prejudicasse Bottas. Caso fosse realmente necessário, ou se Massa estivesse com os pneus em frangalhos, ele teria cedido passagem.

Depois que a poeira baixou, a cúpula da Williams acertou os ponteiros e, num fato inédito na Fórmula 1, distribuiu um comunicado, o tradicional press release, no qual pede desculpas formalmente ao piloto brasileiro pela situação constrangedora causada logo no começo do casamento.

O que vai acontecer daqui para a frente? Obviamente não dá para cravar com precisão, mas, pelo menos aparentemente, Massa saiu extremamente fortalecido dessa situação, tanto com a mídia e torcida brasileira, como com o próprio time, que entendeu o erro cometido.

Sobre o episódio, Massa disse no Bahrein que riu quando lhe deram a ordem para permitir a ultrapassagem de Bottas. Fato é que, para continuar sorrindo, Massa vai ter de mostrar na pista quem é o piloto número 1 da Williams. A conferir.

Foto: divulgação