Primeiro de maio de 1994. Já no começo daquela manhã, tal dia ficaria muito mais triste do que apenas pelo fato de ser um feriado que caíra num domingo. Eu tinha dois anos, fato que me faz não ter memória da época. O que eu sei é que meu irmão, recém-nascido, seria batizado naquela manhã, e meu pai – sennista fanático – assistia o que dava da corrida, antes de toda a família se dirigir à Igreja, o que já foi tempo suficiente para que ele e todos que estavam em casa pudessem ver a violenta batida do Williams #2 e todo o drama subsequente do socorro na pista.
Eu fui me interessar por Fórmula 1, com seis anos, num GP da Bélgica – foi o primeiro esporte que realmente me conquistou, antes do futebol. Aquela corrida contaria com o típico clima das Ardennes, ou seja, chuva, hora sim, hora não. Aconteceu um acidente com 13 carros, Schumacher batendo em um Coulthard retardatário e indo no box da McLaren para tirar satisfações. Foi o suficiente para fascinar um garoto de seis anos que não tinha noção do perigo desses grandes acidentes e vivia assistindo “Corrida Maluca”.
Com isso, algum tempo depois, fui apresentado pelo meu pai a sua coleção de livros, documentários, programas e corridas gravados – no bom e velho VHS – da Era Senna. Assim e com a ajuda do YouTube e do SporTV pude conhecer como foram as disputas daquela época, tal como as transmissões globais da Fórmula 1.
E que diferença para os tempos atuais… Transmissões mais técnicas, comentários pertinentes, tudo para explanar ao telespectador as nuances das pistas e carros, fora a emoção da narração de Galvão Bueno. Ele já dava seus palpites aleatórios e cortava a fala dos companheiros de transmissão, mas a emoção impregnada na narração suplantava tudo isso.
Nisso, entra Senna, um dos caras que mais soube ser midiático, marqueteiro, bom moço, patriota e tudo que meus colegas já relataram nessa série. Só que Senna também tinha uma grande qualidade apreciada pelas multidões: ele era um showman, ganhava de formas surreais e incomuns. Ou você acha que qualquer um leva uma Toleman a um segundo lugar num dilúvio em Mônaco, cai para sétimo e no fim da mesma volta ultrapassa todo mundo e surge em primeiro? O público ama estes roteiros. Vende bem mais que o estilo metódico e regular, por exemplo, de Prost.
Some tudo isso aos tons épicos e ufanistas que Galvão botava e pronto: eis o grande herói do povo. São raros os casos que se comparam ao de Senna, em termos de idolatria nacional. Temos Fausto Coppi, ciclista italiano do pós-guerra, Roberto Clemente, jogador de beisebol de Porto Rico nos anos 60 – ambos também mortos precocemente e no meio da carreira, e os boxeadores Roberto Durán (Panamá) e Manny Pacquiao (Filipinas), e ainda acho que não vencem a paixão brasileira por Senna.
Galvão era amigo próximo de Senna e, apesar de ser um narrador, fazia um trabalho jornalístico, que era contar o que se passava. Não é muito indicado para um jornalista se tornar amigo da sua fonte/personagem. Com isto, Galvão aproximou o amigo Senna do público, louvando-o incessantemente. O público pegou isso e fez a mesma coisa. Somou a boa imagem, patriotismo, heroísmo e, claro, excelência em pilotagem, pondo Senna no patamar de herói nacional.
Com o falecimento, não só os brasileiros, mas a mídia ficou órfã de um ídolo para ser vendido, para reconquistar o público decepcionado. Sobrou para Rubens Barrichello. Até ele ir para Ferrari, tudo ia relativamente bem. Uma pole pela então emergente Jordan, pódio no GP da Europa de 1999 pela mediana Stewart. A partir de 2000, a maré virou. Na Ferrari, era a hora da promessa desabrochar. No fim, decepção. Barrichello sofreria com Schumacher, demoraria a ganhar sua primeira corrida (um heroico triunfo na Alemanha, diga-se de passagem), além de ver o companheiro de equipe abocanhar títulos seguidamente.
Na Áustria, em 2002, tudo veio abaixo, como o colunista Leonardo Dahi explicou – numa histórica narração de Cléber Machado. Com isso, as próprias transmissões globais ficaram alopradas. Era necessário ainda louvar os brasileiros. Com os resultados adversos, eram necessárias explicações. Enfim, algum jeito para segurar a audiência órfã de um herói. Desta maneira, começaram as desculpas, as lorotas, tudo para minimizar as falhas brasileiras na Fórmula 1. Toda aquela transmissão técnica foi para o espaço.
Claro que não é o único motivo. A queda da audiência, graças à TV a cabo e internet, fez a Globo, especificamente, mudar seu estilo. Não só na Fórmula 1 a transmissão ficou mais superficial, mais oba-oba. Isso acontece no futebol, carnaval, telejornais, e assim por diante.
O próprio Galvão precisa de um novo ídolo máximo para exaltar. Tente achar uma única corrida, nos últimos 20 anos, na qual ele não tenha mencionado Senna uma só vez. Com a fomentação do mito, a Globo se colocou na situação de ter outro para manter seu público. Como sabemos, esportistas de excelência não nascem a qualquer hora.
A morte de Senna enforcou o jeito de transmitir Fórmula 1 da Globo, com ela se foram boa parte do público, e o campo para que alguém se interesse pelo esporte a motor e queira trilhar esta carreira ficou mais escasso – não é a única causa, que fique claro. Ufanistas todos são: britânicos, americanos, dinamarqueses, franceses, italianos, espanhóis, todos se esgoelam com triunfos de compatriotas e os elevam, mas no caso de Senna, isso foi tão exagerado e feito de forma tão passional que, se a Globo ganhou em audiência por seis anos, perdeu por causa deste mesmo estilo por outros 20.
(Há o GP de San Marino 1994 completo no Youtube. Curiosidade é que Galvão descreve todas as curvas de Ímola na volta de apresentação, algo inexistente atualmente. Se interessar assista logo, antes que a FIA – extremamente “patrulhadora” de vídeos da F1, sem ter um canal próprio – o retire do ar).