A presença de franceses no litoral brasileiro, ao longo do período colonial, foi constante. De todos os episódios envolvendo a francesada e o Brasil, o meu predileto é a “Festa Brasileira em Rouen”, que reputo ter sido o primeiro desfile de uma escola de samba da história; a macumba pra turistas primordial.
A coisa foi tão quente que, mais de 400 anos depois, o fuzuê virou mesmo enredo da Imperatriz Leopoldinense e do Império Serrano.
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Os armadores e comerciantes de Rouen estavam de olho nas expedições ao Brasil, sobretudo em virtude do tráfico de madeiras e aves tropicais. Para convencer o rei Henrique II e a rainha Catarina de Médici a investir nas expedições ao litoral brasileiro, os homens de negócio organizaram uma festa monumental, no dia 1 de outubro de 1550.
Às margens do rio Sena, os franceses montaram um cenário de fazer Joãosinho Trinta parecer diretor de teatro infantil sem recursos. As árvores foram enfeitadas com frutos e flores tropicais; micos, araras, papagaios e tatus foram trazidos do Brasil e soltos no local. Em malocas indígenas construídas para o evento, circulavam trezentos e tantos tupinambás peladões, recrutados aqui especialmente para o furdunço. Marinheiros normandos circulavam fantasiados de colonos nos trópicos. Prostitutas foram recrutadas nos lupanares locais para simular danças sensuais e namorar os nativos.
O mais impressionante é que a coisa foi coreografada. Os índios e os figurantes colhiam frutas, carregavam madeira, conversavam com papagaios, deitavam nas redes, simulavam pescarias, tocavam maracas, faziam fogueiras e o escambau. Alguns mais assanhados apalpavam as mulheres e balançavam os cacetes para a plateia assombrada.
No momento mais desvairado do teatro, a aldeia foi atacada por um grupo representando os tabajaras, inimigos dos tupinambás. O couro comeu: árvores foram derrubadas, canoas viradas, figurantes simularam cenas de canibalismo e, no climax absoluto, o cenário foi incendiado. Apesar de simulado, o combate foi violentíssimo e senhoras da plateia chegaram a desmaiar. A quizumba terminou com a celebração da vitória tupinambá sobre os inimigos.
Além dos reis, de nobres, cardeais, prelados e príncipes, estava presente no evento o capitão Nicolas Villegagnon, que pouco tempo depois lideraria a tentativa de fundar no Rio de Janeiro a colônia da França Antártica. Os monarcas se declararam entusiasmados com as emoções fortíssimas da vida nos trópicos e prometeram o auxílio do estado às investidas no Brasil.
A rainha, que só conseguia chamar os índios de tupinambô, declarou-se particularmente impressionada com dois nativos imensos, bronzeadíssimos, pelados e musculosos. Ambos permaneceram na França empregados como serviçais (paus para toda obra) do cerimonial da soberana.
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