Completo minha rotina matinal ao pegar o jornal na soleira da porta de meu apartamento. Sento-me na espreguiçadeira ao lado da janela ávido pelas notícias. Mas minha atenção é despertada por estilhaços de sol sobre a folha dos esportes. Assusto-me. Deixo o jornal cair ao chão e desvio os olhos para a janela. Toda luz que há lá fora parece espremer-se para penetrar através do pequeno e irregular orifício no vidro. Ofusca-me. Um facho fino, como o de um refletor de teatro, risca em linha reta o espaço da sala, por sobre minha cabeça.
Esqueço o jornal estendido no chão, inerte, abatido. Troquei as manchetes do presente por um mergulho nas páginas do passado. Mil gavetas da memória abriram-se a um só tempo com imagens de um Rio de Janeiro bem mais tranquilo. Em instantes, remexi naqueles arquivos e selecionei uma imagem de um outro julho, de minha velha “seção de esportes”. Surgiu ainda nítida, tão colorida como memória de criança: meu pai, na mesa de café daquele domingo, brincava com a caneca e com os talheres com mãos de menino travesso. Estava excitado, tenso, preocupado e alegre. Tudo a um só tempo.
-“Cuidado para não entornar café na tolha, Abelardo”– disse mamãe. Ele respondeu com um sorriso treloso. Afinal, pela primeira vez na história, o Brasil era pleno favorito para tornar-se campeão mundial de futebol.
–“Barbosa, Augusto e Juvenal. Bauer, Danilo e Bigode. Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico.”– papai repetia a escalação como que nomeando os campeões mundiais.
–“Friaça, papai?”– perguntei. – “’E, meu filho. O Maneca está com indisposição intestinal e foi barrado.”
Papai era jornalista e, apesar de não trabalhar na editoria de esportes, estava a par das últimas notícias. Em 1950, a substituição de jogadores durante as partidas oficiais era proibida pela regra e Flávio Costa, nosso técnico, não queria correr riscos com atletas que não estivessem em plenas condições de jogo. Com a credencial de jornalista de papai, assistiríamos ao jogo na Tribuna de Imprensa do Maracanã. E assim, entre sol presente e encoberto, a manhã se foi. Chegou a hora do almoço, mas não veio com ela o apetite. Em vez de mastigar, beliscamos a comida. Mamãe ainda falou:
“Vocês não comeram nada. Vou preparar uns sanduíches de carne assada para levarem”. –“Não precisa, Ciatinha, podemos lanchar nos bares do estádio” – argumentou, papai. – “Pra que gastar dinheiro com porcarias, se podem se alimentar melhor e fazer economia?” Ali estava a razão personificada, bem distante da emoção que já nos dominava. E a razão venceu. Levamos os sanduíches embrulhados em papel pardo, disfarçados dentro de uma sacola de couro. Papai só não conseguiu disfarçar seu constrangimento. Fomos de bonde. Dois bondes, pois tivemos que fazer baldeação.
Oficialmente, o estádio do Maracanã fora construído para comportar 200 mil pessoas. “Ora, 200 mil pessoas deveria ser para jogo comum, nunca para uma final de campeonato mundial” – diziam alguns.
A frieza dos dados oficiais não considerava as milhares de almas e corações que, irmanados e espremidos, ultrapassaram a lotação e jamais foram contabilizados com exatidão. Desta vez a emoção superou a razão e o bom senso. Mas se Deus não é brasileiro, como dizem, por certo é um turista por demais apaixonado pelo Rio, e o estádio suportou mais de 400 mil pés pulando sobre seu dorso sem tremer, envergar ou ruir.
Naquela tarde a engenharia nacional, com alguma ajuda Divina, foi a primeira a tornar-se campeã mundial. A partir daquela tarde, o estádio Municipal do Maracanã, ou Mário Filho, como queiram, passou a ser o maior templo oficial dos penetras. Principalmente em grandes clássicos, nunca e jamais saberemos o número exato de espectadores. Se contarmos os ingressos falsos e os que, recolhidos, voltam às bilheterias para serem revendidos, os “parentes e amigos” de porteiros, bilheteiros e fiscais, as “autoridades fajutas”, os militares, crianças, idosos e o assustador contingente de ambulantes não oficializados, ficaríamos abismados com a diferença entre o público contabilizado e o não contabilizado.
Meu coração menino pôde sentir a primeira grande emoção daquela tarde, na voz do locutor do estádio, ao dar a escalação da seleção brasileira. Em sua voz, bem empostada, ritmada e melódica, denotava-se o sabor de um samba-exaltação. Não, não estavam ali na boca do gramado apenas os onze jogadores que iriam participar daquela final. Estavam os futuros campeões do mundo! Emoção ainda maior foi a de ouvir os mais de 200 mil presentes a entoar o hino nacional, magistralmente executado pela Banda dos Fuzileiros Navais. Foi de arrepiar! Afinal, nossos jogadores perfilados no gramado representavam a “pátria de chuteiras”.
O jogo começou nervoso, como era de se esperar e mais nervoso acabou o primeiro tempo, com o placar em branco, como branca era a cor do nosso uniforme. Branca é a cor da paz, e paz nunca faltou. Nem nos momentos de euforia, nem nos de expectativa. Tampouco nos instantes de desespero mudo de uma massa espremida que – hoje sabemos – estariam por vir.
Não há anestésico mais poderoso do que uma grande catástrofe. Mas, com o empate, ainda seríamos campeões. Papai pareceu prever a tragédia. Acendia um cigarro na guimba do outro e mastigava nervosamente, o fósforo queimado. Veio o segundo tempo e, com ele, o gol de Friaça. Logo dele, do reserva. Parecia ser um prenúncio de sorte, e com sorte não se deve brincar. Nós brincamos. Se há uma coisa que o destino vive a se indispor, essa coisa se chama lógica em futebol. A lógica dos números frios. O jogador de futebol é feito de nervos, um feixe de nervos capaz de, levado pela emoção, superar a razão.
Com o primeiro gol do Uruguai, ouviu-se exclamação em uníssono; depois do segundo, nada mais se ouviu. As lágrimas despencavam em silêncio e os soluços não tinham som. A multidão desceu as rampas do estádio pisando nas nuvens negras do destino. Ao invés de cimento, flocos de nuvens, pois não se ouvia o solar dos sapatos sobre o concreto frio. Os bondes passavam lotados e em respeitoso silêncio, como se dirigissem ao mais dramático dos funerais. Não sentimos a distância entre o Maracanã e a nossa casa. Voltamos a pé, com almas entorpecidas e bocas emudecidas. O embrulho com os sanduíches foi largado nas cadeiras especiais do estádio. Papai deixou para desabar o choro ao chegar em casa. Aquela foi a primeira vez que o vi chorar, não pude esquecer. A imagem me foi mais emocionante que a perda do título de campeão mundial.
Outras Copas estariam por vir; choro igual, eu jamais veria.
A imagem desapareceu de meus olhos como a tela do computador em que escrevo irá desaparecer irá se apagar assim que eu o desligar. O Maracanã resistiu à euforia da multidão após o gol de Friaça mas, pela primeira vez, eu temi por sua estrutura diante do peso do silêncio e da imobilização da massa. E cruzou os anos, como eu, como a cidade. Presenciou a despedida de tantos de seus craques sem nunca, ele mesmo, se despedir.
Volto à minha rotina, ao meu jornal de hoje. Já falaram em demolir o velho estádio. Estava ultrapassado, encolhido, inútil. Agora reinauguram pela terceira vez, depois de demolirem e deixarem só a casca. Uns dizem que, modificado ou não, é obsoleto. Mas, mesmo obsoleto, tal qual uma Torre de Pizza tropical, sua sombra inclina-se sobre o espírito do Rio, sobre a História do Brasil, com o peso de 400 mil pés, com a força daquela derrota e com a esperança renovada em cada vitória que presenciou. Nenhuma assinatura de político mudará isto.
O Maracanã estará erguido para sempre na minha memória, plantado naquela tarde de 1950 e regado pelas lágrimas de meu saudoso pai.
(por Ângelo Romero, pai do colunista Affonso Romero e e que estava presente naquela tarde de 16 de julho de 1950)
Imagina a Copa de 50 nos padrões FIFA atuais? 200 mil no Maracanã e o Valcke teria um infarto fulminante ao ver a cena.
E a foto com o estádio inacabado durante a competição? iriam tentar o impeachment do presidente… risos
Que texto sensacional!!!