Meu jogo inesquecível foi Brasil e Holanda pela Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994. E a vitória nessa partida, começou no Dia da Independência americana, assim como o caminho para título da seleção brasileira, após vinte e quatro anos.

Não, o escriba não está maluco. O jogo de 4 de julho foi sim, Brasil 1×0 Estados Unidos. Mas se Leonardo não desferisse aquela cotovelada no uruguaio naturalizado americano Tab Ramos, no dia citado, nada do que aconteceu posteriormente, em Dallas, seria possível.

Está tudo conectado. A falta do lateral americano no brasileiro. A cotovelada. Os olhos franzidos de Leonardo com dificuldade de ver a cor do cartão que o francês Joel Quiniou lhe aplicara, devido ao sol escaldante do Texas. A reação de frustração ao perceber que estava fora do jogo. Estava fora da Copa! O Brasil estava chocado! O ultrapassado e contestado Branco jogaria contra a mais difícil adversária que a seleção brasileira enfrentaria naquele Mundial.

Graças a Deus!

leonardo 94Era 9 de julho de 1994 e Brasil e Holanda se enfrentariam pelas quartas de final daquela Copa do Mundo no Estádio Cotton Bowl, antigo lar do Dallas Cowboys, meu time na NFL.

Estava na casa de minha tia, no Leblon. Havia feito doze anos de idade nove dias antes mas nem sei se tive festa de aniversário. Mas do jogo eu lembro! Primeiro tempo tenso: as duas equipes se estudando. Chato demais para uma criança. Estava decepcionado com o jogo. Adorava aquela seleção holandesa. Tinha o goleirão De Goelj, o xerifão Koeman, os craques Rijkaard (que não jogou bem aquela tarde) e Bergkamp, um dos maiores que vi jogar.

E aos seis minutos do segundo tempo, aquela jogada onde o craque faz a diferença com um toque. Aldair corta lançamento de Rijkaard, lança Bebeto na esquerda que cruza pro meio da área. Gol de Romário. Gol de genial bate-pronto!

E ele conseguiu se superar. Saiu de um claro impedimento para não participar da jogada deixando Bebeto na cara do gol. O atacante dribla De Goelj e sai pra eternizar uma comemoração.

2 a 0, Acabou! Jurava que tinha acabado. Logo mudei de opinião.

A pane da defesa brasileira e o gol de Dennis Bergkamp, me fizeram bradar à família: “A Holanda vai empatar. Se empatar vai virar”. Continuo achando até hoje que se demora um pouco mais para o terceiro gol brasileiro sair, eles virariam. Um jogador que eu gostava muito, Aron Winter, testa Taffarel com um belo chute de fora da área. Escanteio, gol dele de cabeça, 2 a 2.

Agora babou! Bem, não existia ‘babou’ na época, mas é o que dá pra escrever aqui. Porém, três minutos depois, Branco parte sozinho com a bola pela esquerda. Deveria ter tocado, mas ao invés disso, dá uma mãozada no rosto de Overmars. Lembrei de Leonardo…

Ai Deus, de novo? Hoje não, hoje não!

Não, o narrador não falou essa frase e nem eu errei de esporte. A verdade é que o árbitro costa-riquenho Rodrigo Badilla Siqueira, não só não mostrou cartão como mandou o lance seguir. Problema dele e da Holanda. Agora toca a bola, Branco.

Não deu tempo. Koeman fez falta por trás. Bem, pra mim ele cavou, mas enfim… Branco pega a bola pra cobrar. Não tinha mais uma unha pra roer. Dois dedos já sangravam. Minha mãe me perturbava pra tirar a mão da boca. Tinham se passado apenas quatro minutos do gol de empate da Holanda. Todos os jogadores saem de perto da bola.

Ele vai bater direto. Tenho certeza, é gol!

Gol! 3 a 2.dunga1994_get30

Uma cobrança de falta magistral! Uma patada de esquerda com uma curva pra deixar o goleiro holandês sem nenhuma chance! A bola ainda toca caprichosamente o pé da trave. Menção honrosa para a bunda do Romário! Baladas, faltas a treinos e noites mal dormidas dançando em boates, proporcionaram ao atacante aquele gingado, aquele jogo de cintura que evitou um desvio fatal à cobrança do herói.

O herói Branco. Da água batizada por Maradona em 90, na Itália, a protagonista da classificação brasileira para as semifinais, quatro anos depois.

Parreira foi criticado por diversos motivos naquela passagem pela seleção. Uma das maiores críticas, era a presença de Branco entre os convocados. O lateral esquerdo estava acima do peso e já havia completado 30 anos. Voltou da Itália no fim de 1993, passando rapidamente pelo Grêmio. Já no ano da Copa teve uma passagem relâmpago pelo Fluminense até acertar com o Corinthians.

O preferido de público e mídia era o até então inexperiente Roberto Carlos, que estava “voando” no Palmeiras. Estavam todos errados, menos Parreira. Graças à Branco, não acertei minha catastrófica previsão da virada da Holanda para aquele jogo. Que bom! Após essa partida, já tinha certeza do título canarinho, ainda que o adversário da final viesse a ser a temida Itália. Essa segunda previsão deu certo, embora não precisasse ter sido nos pênaltis, né?

Mas isso com certeza é jogo inesquecível de outro convidado. Aquele Abraço

Brasil 3 x 2 Holanda
Data: 9 de julho de 1994
Local: Estádio Cotton Bowl, Dallas, Texas.
Público: 63.500
Arbitro: Rodrigo Badilla Siqueira (Costa Rica)
Auxiliar 1: Yousif Al-Ghattan (Bahrein)
Auxiliar 2:  Mohammed Fanaei (Irã)

 

(Alex Cardoso, 31 anos, é jornalista e Coordenador de Produção do SporTV)

Imagens: Uol e Globoesporte.com