Saudamos Daniel Alves, comemos bananas, tiramos fotos com elas e até vendemos camisas delas (né, menino Huck?). Preconceito há muito tempo é o tema da moda. Por onde quer que andemos a nos aventurar na obtenção de informações cotidianas, seja em jornais, revistas, televisão ou internet, pode ter certeza de que o assunto sempre estará em vigor. Com a propagação em massa de tudo atualmente, por milhares de vezes ao dia, em milésimos de segundo, a conclusão lógica é que essa abordagem caiu na mesmice do “lugar comum”.
Por isso, peço muita calma nessa hora ao amigo leitor do Ouro de Tolo. Não vamos falar hoje exatamente de termos essencialmente jurídicos, tampouco faremos uma tese de mestrado em cima do que aconteceu com o lateral da seleção brasileira. Muita gente já fez isso e até de forma maçante. Se somos macacos, humanos, se expandiu o preconceito, se o encerrou – talvez pra sempre (risos), se foi oportunista, se não foi, etc etc. Não desista de ler esse texto achando que se trata de mais uma dessas entediantes dissertações antropológicas sobre a origem, os males e a consequência dos estereótipos, como se fosse mais um Globo Repórter a respeito. Não, não é.
O fato é que, certa vez, me peguei numa situação, no mínimo, curiosa, pra não dizer alarmante, do ponto de vista prático. Resolvi compartilhar com vocês, porque julgo ser contraponto interessante.
Como está descrito no meu perfil, sou advogado; portanto, nas Condições Normais de Temperatura e Pressão, eu uso terno e gravata para exercer esse ofício. Até aí, tudo bem. Fora o fato de que, durante o verão, isso se torna uma razão imensa para odiar o calor e se arrepender de ter feito Direito, sem problemas.
Ocorre que, como a maioria dos seres humanos normais, volta e meia preciso ir ao banco. Bom, a questão é que duas situações completamente irrelevantes na vida de qualquer pessoa (inclusive na minha) e, aparentemente, totalmente indiferentes entre si me fizeram ter a ideia de realizar um teste e, assim, abrir os olhos para questões práticas, inseridas na nossa sociedade, mesmo sem que percebamos de cara.
O que acabei fazendo? Passei a notar quantas vezes, num espaço de duas semanas, eu seria barrado pela porta-giratória de diferentes bancos, quando estava trajado de terno e gravata. Fui pela curiosidade mesmo. Aliás, curioso é o resultado.
Pois bem, em quatro ocasiões, fui barrado nada mais nada menos do que NENHUMA vez. Com o detalhe: em todas elas eu estava munido de dois celulares e um molho de chaves, tudo mantido dentro do paletó. Sorte a deles que não faço ideia de como se maneja uma arma.
Me empolguei nessa leiga e divertida “análise sociológica” e resolvi mudar o parâmetro. Um belo dia fui trabalhar casualmente. Apenas de calça jeans e camisa social. Na primeira oportunidade que surgiu, fui ao banco para ver o que aconteceria. Bingo! Fui barrado, é claro. Após tirar um dos celulares e as chaves, finalmente consegui adentrar ao recinto.
Não fiz mais testes desde então, mas comecei a refletir e a perceber com maior profundidade. De verdade, sou olhado de forma diferente pela sociedade quando estou de terno. É fato consumado que, por exemplo, sou melhor atendido em restaurantes se eu estiver vestido dessa forma. É uma modalidade pouco explorada do preconceito: o preconceito ‘bom’.
Não que seja legal ter preconceito, de forma alguma. Porém, não deixa de ser interessante pensar (e vivenciar) de modo que pelo simples ato de me vestir de maneira formal já me torna automaticamente confiável (no caso do banco) e importante (no caso dos restaurantes e nos milhares de “doutor” que ouço ao longo do dia, mesmo não tendo qualquer doutorado). Apesar de ser ‘bom’, particularmente gostaria de ser bem tratado independentemente da minha aparência; logo, não fico muito confortável com essa disparidade de tratamento.
Alguns diriam que se vestir bem é “marketing pessoal” e, por isso, há a boa receptividade das pessoas. Discordo desse ponto de vista. Somos pessoas, não produtos. A aparência pode abrir portas, facilitar algum tipo de contato, mas jamais deve ser a única via de proporcionar esse tipo de coisa. Uma abordagem inteligente e carismática, a meu ver, deveria contar muito mais pontos do que o terno italiano ou o sapato francês. Eu posso perfeitamente me vestir bem e ser um grande idiota. Aliás, isso é bastante comum; pelo menos no mundo jurídico eu posso garantir isso.
É um caso a se pensar. O gordo não teria relevância perto do magro. O alto e o baixo também se relativizam entre si. Com o bom e o mau não poderia ser diferente. O problema é que, se o preconceito ‘bom’ está enraizado no nosso cotidiano, mesmo com condutas simples, o mau também está lá. Inevitável e perigoso.
Como controlar isso, nas duas extremidades, é o desafio de cada um de nós. Isso se a pessoa quiser controlar, é claro. Porque de gente (e não macacos) com ego inflado ou com a maldade no coração o mundo está cheio.
Sem preconceito. Sem bananas.