Há exatos vinte anos, eu estava sentado com meu saudoso avô para assistir à Fórmula 1 pela TV. Era um hábito cultivado desde 1985, 1986… Sempre gostei de automobilismo e esporte em geral desde que comecei a entender as coisas. E naquele domingo um dos meus ídolos de infância se foi – os outros dois, Zico e Magic Johnson já haviam parado – e fiquei definitivamente órfão…
Evidentemente fiquei muito triste pois sabia que as coisas não seriam mais a mesma coisa. Mas, ao contrário da maioria dos meus amigos, duas semanas depois eu estava ligado na TV para assistir ao GP de Mônaco e curtir um bom espetáculo, além de dar “apoio moral” a Christian Fittipaldi e Rubens Barrichello, que, afinal de contas, estavam representando o Brasil.
Em resumo, para mim a fila andou… Como sempre acontece quando perdemos alguém querido, sentimos saudades. Mas a vida continua.
Nessas duas décadas que se passaram, virei jornalista e, além de me abastecer com mais informações sobre a carreira de Ayrton, passei a ter um discernimento maior sobre quem foi realmente a pessoa. E cheguei à conclusão de que ele realmente foi um gênio das pistas, mas, acima de tudo um ser humano de carne e osso. Com virtudes e defeitos, como todos nós.
Só que infelizmente nesses anos todos, o assunto Ayrton enveredou para um lado totalmente inadequado. Os fãs mais fervorosos de Senna elevaram o piloto a uma condição de semideus, imortal, sem defeitos, etc etc… Do outro lado, os detratores (principalmente parte dos fãs de Nelson Piquet) exageraram em algumas críticas infundadas e/ou distorcidas.
Já escrevi sobre isso no Ouro de Tolo e vemos os dois lados da moeda sempre: basta aparecer algo de Senna na televisão, ou jornais, revistas, etc, que os fãs e críticos de Ayrton ficam em polvorosa. É uma coisa doentia de parte a parte. Será fruto das redes sociais? Também. Mas penso que é muito de uma (falta de) cultura esportiva do nosso povo.
Em vez de exaltarmos nossos dois ídolos, fica essa picuinha que não leva a lugar algum e desperdiçamos energia em discussões absolutamente inúteis. E, nesta data redonda de 20 anos sem Senna, será mais uma maratona de besteiras escritas nas redes sociais.
Todos sabemos que Ayrton era uma pessoa muito dedicada ao que fazia e que, por isso, não curtia a vida como poderia (e deveria). E também que apenas nos últimos anos antes do acidente fatal ele estava menos tenso, mais descontraído.
Por isso mesmo, de fato, em vida ele pouco pôde respirar e lamentavelmente chego à conclusão de que nem morto ele conseguiu descansar…
Diante disso, amigos, a você que bate em Ayrton de bobeira e tem ciúme dele, ou você que o vê como acima de qualquer coisa na face da Terra, fica um apelo em caixa alta e negrito, que também é do Migão, como os leitores viram mais cedo:
DEIXEM AYRTON EM PAZ! ELE MORREU HÁ VINTE ANOS! ELE NÃO PRECISA DESSAS DISCUSSÕES IDIOTAS!
P.S.: no sábado, leiam neste espaço uma outra coluna sobre as verdades e mentiras ditas sobre Ayrton Senna.