Eu era louco por Fórmula 1. Era daqueles que colocava o relógio para despertar nas provas da madrugada – que, verdade seja dita, eram em menor número naqueles tempos. Hoje continuo fã, mas nem tão fanático.

Eu não era fã de Ayrton Senna. Continuo não sendo. Sempre fui piquetista, a ponto de ter muita esperança atualmente no desenvolvimento da carreira do jovem Pedro. Vou mais além: em 1993 torci por Prost contra Senna e acho o francês mais completo – logo, melhor.

Isto posto, conto duas histórias daquele 1º de maio de 1994 e sobre aquele dia fatídico.

Naquele domingo, estava em São Paulo. O Solo Sagrado de Guarapiranga, maior templo a céu aberto do Brasil, estava em fase final de construção. Então saiu uma caravana daqui do Rio com dois objetivos: assistir o Culto Mensal de Agradecimento, realizado então na Sede Central da Vila Mariana (foto ao alto). E visitar as obras do Solo Sagrado de Guarapiranga.

WalkmanAquela época o Culto Mensal era às 10 da manhã e a caravana teve um problema para chegar a São Paulo (não me lembro qual), de forma que chegamos à Sede Central em cima da hora. Ou seja, ouvi o início daquele fatídico grande prêmio ainda dentro do ônibus, pela Rádio Bandeirantes AM em um walkman da Sony – o leitor ainda se lembra do que era?

Me lembro que a hora do acidente dei meio que um grito dentro do veículo e algumas pessoas me perguntaram o que havia acontecido, mas naquele momento o narrador não passou para os ouvintes a gravidade do que havia acontecido. Ele chegou a dizer que Senna tentara sair do carro – o que, olhando posteriormente as imagens, soa quase como uma impropriedade.

Solo+Sagrado+01_05_2010+0051Assistimos ao Culto e fizemos a visitação às obras do Solo Sagrado do Brasil (ao lado, em foto de 2010). Aproveitei para ouvir o rádio no percurso entre um local e outro – que não é nada pequeno – esperando e ouvindo o final da prova, mas já estava claro que não havia sido algo simples. Havia também um burburinho e as pessoas começavam a me perguntar o que estava acontecendo – lembrem-se os leitores, não havia smartphones e nem internet em 1994, esta ao menos não para o grande público.

Quando entramos novamente no ônibus – devia ser por volta de uma da tarde, um pouco mais talvez – para mim já estava claro que Senna talvez não sobrevivesse à curva Tamburello. Os guias dos outros dois ônibus, antes de embarcarmos, vieram me perguntar as últimas notícias de Ímola, prova da importância do piloto no imaginário popular.

Se não me falha a memória, foi pouco antes de pararmos para almoçar na estrada que a morte de Senna foi confirmada. E me coube dar a notícia às pessoas, daquela forma sem noção que Pedro Migão tinha aos 19 anos de idade:

– Pessoal, confirmado: Ayrton Senna morreu.

A comoção foi muito grande. Algumas pessoas choravam, outras gritavam e vieram uns dez à minha poltrona saber detalhes. Quando paramos, correu todo mundo para a televisão para tentar ver algo – ou quase: optei por almoçar e continuar ouvindo rádio.

Àquela época, somente a televisão trazia imagens, e praticamente só havia TV aberta: a Globosat engatinhava mas era privilégio das famílias mais abastadas. Cheguei em casa exatamente a tempo de ver o “boa noite” final do Fantástico, com as imagens do acidente. Na hora cravei para minha mãe:

– Quebrou a barra de direção.

Também ali ficou claro para mim que não havia o que fazer quando o carro parou após o choque. Ainda tomei um esporro dela, que dizia que eu tinha “ficado feliz” com o acontecido: estava chocado, mas muito mais pela sequência de acidentes fatais e quase fatais daquele final de semana (não esqueçamos que Roland Ratzemberger perdera a vida no sábado e Barrichello escapara por milagre de um grave acidente na sexta). Estava triste pelas mortes, que são inaceitáveis, mas Senna estava no mesmo patamar de Ratzenberger: uma vida que se perdera cedo demais.

Anos depois, mais precisamente em 1999, eu colaborava com aquele que considero o primeiro blog brasileiro, o do jornalista especializado Celso Itiberê (que estava em Ímola naquele dia), e fizemos o primeiro encontro de leitores, em uma ilha pertencente então ao Iate Clube do Rio de janeiro em frente à Pedra da Onça, na Ilha do Governador.

Papo vai, papo vem, Celso começa a nos contar suas reminiscências daquela tarde italiana e sobre o piloto em si. Não me lembro de todos os detalhes – lá se vão quinze anos – mas duas coisas que ele disse me chamaram bastante a atenção.

A primeira é que precisaram retirar o capacete do piloto com muito cuidado para que a cabeça de Senna simplesmente “não se desmanchasse” na retirada. Celso, que foi um dos únicos jornalistas a correr para a Tamburello na tentativa de ver Senna no carro – após driblar Polícia, comissários e o escambau até certo ponto onde não pôde mais avançar – nos disse à ocasião que provavelmente só fizeram esforços para manter o coração dele batendo até chegar a Bolonha porque uma lei italiana impediria o reinício da corrida em caso de óbito na pista.

ratzenberger_HA_Pol_299536bVale lembrar que Ratzenberger, no dia anterior, “morreu” oficialmente no helicóptero que o transportava ao hospital, apesar das evidências. Caso ele fosse declarado morto no autódromo, este seria fechado e não haveria corrida no dia seguinte – o que salvaria a vida de Ayrton Senna. Mas a mancha no capacete dele dentro do carro (foto) deixa claro que não havia o que fazer.

O segundo ponto era uma confissão do jornalista: a de que ele e outros que acompanhavam Fórmula 1 temiam/achavam que ele morreria dirigindo sim, mas na rua. Segundo o relato, Senna era “bastante imprudente, temerário até” ao volante de um carro de passeio.

Na verdade um terceiro ponto também me chamou a atenção, um fato ocorrido entre o piloto e seus familiares na véspera envolvendo a então namorada Adriane Galisteu, mas opto por não entrar em detalhes.

senna globo f3Escrevendo vinte anos depois, para mim fica claro que Ayrton Senna foi o precursor de algo a que assistimos muito hoje: os fenômenos midiáticos. Não necessariamente fabricados pela mídia, publicidade ou formadores de opinião, mas cujo desenvolvimento foi pensado levando-se em conta estas ferramentas. Desde antes de chegar à Fórmula 1 Senna tinha uma assessoria de imprensa com grande entrada especialmente na TV Globo, a ponto de sua temporada na Fórmula 3 inglesa ter tido destaque na emissora quase igual ao de Piquet disputando – e vencendo – o título da categoria máxima (foto).

Depois sua carreira foi construída de forma meticulosa, sempre alinhada com os interesses da imprensa e seu próprio. O Senna que emergia nas páginas de jornais e imagens de televisão era um semi Deus, sem defeitos, campeão da filantropia e das boas práticas e virtudes. Obviamente, coube a Piquet – e depois a Prost, e a Schumacher – o papel de anti Cristo, o mal, o antagonista.

senna galvãoUma construção que teve muito sucesso, obviamente. Ainda mais em um momento de profunda crise econômica e onde o herói perfeito e impoluto era o Brasil que dava certo, era o Brasil vitorioso. A identidade criada foi perfeita: Senna ERA o Brasil.

O desempenho nas pistas ajudou bastante, embora a meu juízo esteja longe de ser o melhor da história – embora esteja entre os melhores: não foi campeão desenvolvendo uma nova tecnologia ou contra toda a equipe como Piquet, não soube remontar uma equipe perdedora e transformá-la em uma máquina de vitórias como Schumacher, não foi rápido e ao mesmo tempo extremamente preciso  e tático como Prost.

Senna era o gênio da velocidade pura. O negócio era sentar e acelerar. Nisso era um monstro. Fica claro também neste aspecto o poder da construção apologética do ídolo: aos olhos da população era o melhor em todos estes aspectos que citei – talvez com leve ressalva quanto ao acerto de carros, característica já “apropriada” anteriormente por Piquet neste jogo de construção de imagem.

Dentro deste processo – hoje visto em seres tão díspares como Luan Santana ou mesmo Ronaldo Fenômeno, embora em proporção inferior – até pequenos deslizes como se declarar malufista, desejar que jornalistas especializados não participassem de transmissões por não serem adesistas ou a canalhice de bater em Prost de propósito a mais de 200 por hora para ser campeão (podendo causar consequências sérias aos dois) não são consideradas. A culpa é sempre do outro, nunca do Deus humano.

Sem dúvida, com muito sucesso: eu me recordo que no dia de seu cortejo fúnebre tive de ir buscar o meu cheque de bolsista na UFRJ e parecia feriado: o país inteiro parou diante da televisão. Construção da mídia sim, mas com extrema competência, tanto no processo em si como no que fazia nas pistas. Um pioneiro sob este aspecto.

Finalizo com um pedido aos fãs do piloto: o deixem em paz. Relembrar a sua história com saudade, sem fanatismo, é a melhor lembrança que podemos ter nestes 20 anos de sua trágica passagem. Gritar ou xingar quem não comunga da mesma Fé, infelizmente, não vai trazer o piloto de volta.

Até porque ídolos não morrem em suas eternidades.

8 Replies to “Semana Senna – E não atiraram no Mensageiro…”

  1. Não concordo com o texto, mas vou compartilhar por respeitar sua opinião. Rss……. Senna era o cara, exemplo de não aceitar a ser segundo em hipótese alguma. Acredito que além de um excelente piloto, foi importantíssimo para a mudança de cultura de nosso País, do tal “complexo de vira-lata”. Para ele ou era primeiro ou nada. Quem ainda tem alguma memória daquele ano, mesmo com o melhor carro, saiu da pista nas duas corridas anteriores por não aceitar terminar em segundo, atrás do até então jovem, e calculista Schumacher.

  2. Também não concordo com o texto e bater de propósito pelo menos ele bateu em benefício próprio, não por ordem de equipe para ajudar companheiro como fez filho do Nelson do qual sou fã, evidente que fã do Nelson.

    Senna é um fenômeno mundial, idolatrado no Japão e até onde sei a Globo não tem muito poder lá.

    Vc pede pros fãs dele o deixarem em paz e eles podem pedir tb para que os deixem chorar em paz até pq o que eles tem é amor,um amor que faz mal a ninguém

    E pra finalizar, Senna tem tanto poder que um blog comandado por fãs do Piquet abriu espaço uma semana pra ele e aposto que teve ótima audiência rs

    abs

    1. Não é questão de não gostar, apenas não sou fã. Quanto às viúvas, há histeria sim – ontem mesmo tinha jornalista me xingando no Twitter.

      Audiência foi boa sim rs

  3. Não chego a ser tão radical quanto o Migão no texto (hehehehehe…), mas não concordo com essa imagem de “Biper Perfeito” criada pela mídia.

    Tivemos três grandíssimos pilotos campeões mundiais, mas só um é perfeito? Necas de pitibiriba!

    Um fato deve ser vangloriado, porém: Ayrton Senna, assim como Sebastian Vettel e Fernando Alonso não aceitam ser segundo piloto em hipótese nenhuma; querem vencer a todo custo e se indignam quando isso não acontece.

    Isso ninguém tira dele. Nem para o bem e nem para o mal.

    E a bem da verdade: todo piloto joga sujo!

    1. Aliás, Alonso elevou o conceito de “filho da puta” na Fórmula 1 a um novo patamar

  4. Pô, você pede pra “deixar Senna em paz” e o critica de várias maneiras! rs… aí é complicado!

    Enfim, você tem todo o direito do mundo de não gostar dele. Mas discordo muito dessas suas críticas! Assim como Piquet, correu em um carro infinitamente inferior (20 cavalos a menos que o motor de primeira linha Ford da Benetton e 90 que os Willians) e quase foi campeão (em 93), quase venceu com uma lata velha (84)… coisas que não são um título, mas tem um valor absurdo.

    Sobre Schumacher, não acredito que tenha sido mérito dele. Tanto que mesmo com um carro inferior, em 93 Senna ficou na frente. E em 94, como ficou provado nas corridas a frente, a Benetton tinha várias irregularidades. E mesmo assim continuo achando que pouco tinha a ver com o alemão. Era um momento de transformação da F1. De qualquer maneira, a “dobradinha tripla”, por assim dizer, de Senna, McLaren e Honda foi tão ou mais vitoriosa que Schumacher/Ferrari. O que aconteceu foi uma junção de fatores que permitiu que se perpetuasse por mais tempo, como a tecnologia, por exemplo.

    E a comparação com o Prost, não acho que cabe. São simplesmente estilos diferentes. Realmente o francês era mais frio. Ficar em segundo lugar tb ganha pontos. A diferença é que se Senna estivesse em segundo (ou em primeiro, como aquela histórica corrida em Mônaco), ele não iria sossegar. Ele era muito mais coração. É estilo.

    Claro que são todos grandes pilotos, embora odeie o Piquet por ser caráter.

    Abs!

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