Eis que chegamos à fase eliminatória da competição. Nos primeiros quatro jogos da fase de oitavas de final (escrevo antes das partidas desta segunda feira), três com muita emoção e decisões ou nos pênaltis, ou nos acréscimos.
E um jogo em que o favorito colocou o chicote na mão e venceu sem sustos, em partida sem muitas emoções. Obviamente, este tinha de ser o jogo do Rio de Janeiro…
Mas rebobinemos a fita e voltemos ao início da história. Com o jogo do Brasil acontecendo antes e expectativa de 40 mil colombianos e uruguaios no estádio, os portadores de ingressos tinham um dilema: ver o jogo em casa até o final e enfrentar um previsível tumulto para chegar ao estádio ou chegar muito cedo e ver Brasil e Chile no telão do estádio, conforme disponibilizado pela organização da competição?
Escaldado com os jogos anteriores, optei pela alternativa 2. Entretanto, acabei me atrasando e somente cheguei ao Maracanã quando a peleja do Mineirão já estava no início de seu segundo tempo. Tanto o trajeto no metrô como o próprio acesso ao estádio – este um pouco menos – estavam absolutamente desertos, pelo fato de meu deslocamento ter sido feito durante o primeiro tempo da partida.
Já no acesso ao estádio se percebia a ampla superioridade numérica dos colombianos vis a vis os uruguaios, o que se confirmaria mais tarde. Passei pelo detector de metais, rápida olhada na loja oficial, cerveja comprada – estava mais de 30 graus em uma tarde de “inverno” carioca – e toca para meu lugar a fim de ver o restante do jogo.
Um parêntese: tanto a loja oficial do acesso como os quiosques do meu setor estavam bastante desabastecidos: não havia camisetas e bonés infantis, obviamente também não camisas oficiais das equipes e mesmo outros itens estavam em falta. Vale lembrar que em outras sedes venderam-se camisas oficiais de outras fornecedoras que não a Adidas, mas nem aqui nem em Brasília vi isso – aliás, aqui no Rio nem as oficiais da Adidas se encontram disponíveis após o jogo da Espanha.
É uma experiência interessante ver o jogo no telão de outro estádio: além de não ter narração – apenas o som ambiente do Mineirão, o que achei ótimo – o público muitas vezes interage como se a partida estivesse sido disputada ali, e não a 400 quilômetros de distância. Grita, torce, aplaude, vaia, incentiva e xinga como se os jogadores conseguissem ouvir o que ocorria.
Na hora dos pênaltis, juntaram-se os brasileiros e colombianos para torcer pelo Brasil, enquanto os uruguaios (poucos então) torceram pelo Chile. Ao final a catarse da vitória nos pênaltis, como a foto ao lado mostra.
Tivemos aí a primeira confusão da tarde: um grupo de brasileiros se juntou a outro de colombianos e foram lá no alto do setor dar uns cascudos em alguns uruguaios após o final do jogo. Os seguranças privados contornaram a situação, mas tivemos uma razoável pancadaria entre as partes.
Aliás, meu lugar, embora fosse “Categoria 1” – a mais cara das disponíveis ao público – estava praticamente atrás do gol à esquerda das cabines, próximo à bandeirinha de escanteio. Como estava no setor inferior, ficou bem complicado de ver o outro lado do campo em alguns momentos.
O público brasileiro, por conta disso, adotou os colombianos para torcer desde o início. Até porque os uruguaios, com raras exceções como os da foto, demonstraram uma antipatia extrema durante todo o jogo. Acredito que, se houvesse um número maior de cisplatinos – estimo algo como 10 mil uruguaios, contra cerca de 25 mil colombianos – poderiam ter havido problemas semelhantes aos ocorridos na partida da Argentina que já relatei aqui. Ressalto, também, a beleza quase unânime das colombianas.
Algo que melhorou muito, não sei se por estar no setor inferior, foi a venda de bebidas. Ao contrário dos outros jogos havia ambulantes vendendo cerveja, refrigerantes e água na área das cadeiras, o que aliviou bastante o fluxo sobre os bares.
Por conta dos pênaltis em Belo Horizonte, muita gente chegou ao Maracanã em cima da hora, ou ainda com a partida já iniciada. Segundo o colunista desta revista eletrônica Gustavo Vaz, que assistiu ao jogo comigo, houve certo tumulto nas catracas por conta do fluxo de pessoas e isso gerou alguma demora.
Assisti à partida em um local onde se concentravam muitos colombianos e foi bastante divertido acompanhar os cânticos de sua torcida. Desde o “esta noche temos que ganar”, espécie de versão sul americana do nosso “com muito orgulho, com muito amor”, até um cântico que era algo como “olê olá, a Colômbia vai ganhar”. Até para mim, que não falo o espanhol, estava tranquilo para acompanhar os gritos de guerra.
Além disso, alguns brasileiros ensaiaram um “um, dois, três, quatro cinco mil, que o Fantasma de 50 vá pra puta que o pariu”, em óbvia alusão aos uruguaios. Mas não “pegou”.
A partida foi inteiramente dominada pelo time colombiano, muito bem armado e com alguns jogadores bastante habilidosos, em especial o camisa 10 James Rodriguez (meia armador clássico), a meu juízo o craque da Copa do Mundo até agora junto a Messi e Neymar. O Uruguai se ressentiu da ausência do atacante Suárez, mas em nenhum momento pôde estabelecer uma resistência real.
Após o lindo primeiro gol – que só pude ver direito no telão, porque foi do outro lado – o time colombiano continuou mantendo sua proposta de jogo ofensiva, o que culminou no segundo gol logo no início da etapa complementar. Depois os “cafeteros” se retraíram e permitiram aos uruguaios criarem algumas boas chances, mas esbarraram no bom goleiro Ospina. Ou seja: um bom jogo, agradável de se ver, mas sem a emoção característica de partidas eliminatórias de uma Copa do Mundo.
É um time que dará muito trabalho ao Brasil na partida da próxima sexta feira em Fortaleza. Não sou um especialista em tática de jogo, mas a seleção canarinho tem de bloquear o jogo do camisa 10 e encurtar os espaços do time colombiano. Em termos de ataque, tentar explorar o espaço entre os volantes e os zagueiros, que é um senão colombiano. Óbvio que em Copa do Mundo a camisa pesa, mas fiquei muito bem impressionado com o próximo adversário do Brasil e teremos de jogar muito mais que o nível demonstrado contra o Chile para lograr êxito.
Fim de jogo e, embora tenha havido vários relatos de brigas na saída do Maracanã, meu retorno para casa foi até bem tranquilo. E com a musiquinha da torcida da Colômbia ironizando a eliminação do Uruguai na cabeça: “e ya se van, e ya se van, los uruguayos ya se van…” Algo como “e lá vão embora os uruguaios”, em tradução aproximada.
Com isso “fechei” os sul americanos na Copa do Mundo – assisti a todos – e, a não ser que consiga um improvável ingresso para a semifinal de Belo Horizonte ou a final, sexta feira encerro minha participação “in loco” na competição com o jogo das quartas de final aqui no Rio de Janeiro – espero que com uma grande partida. Mas teremos durante a semana outros relatos de partidas neste Ouro de Tolo.
P.S. – eu havia trocado um dos ingressos que tinha para este jogo pelo de Bélgica e Rússia, que não consegui pelo site da Fifa. Pois a pessoa que trocou comigo revendeu por R$1,2 mil a entrada – quase 200% de ágio sobre o preço na bilheteria de R$440.
Abaixo, os hinos nacionais dos dois países no Maracanã.
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