E lá estava ela … Com seu chinelinho, com aquele jeitinho amoroso a nos esperar… subíamos alegremente a rua… Pela calçada gritava ela, com o sotaque inconfundível da terrinha.. Vigia dos netos, da filha e do genro…. Era a hora marcada… dispensados mais cedo para ver o jogo do Brasil… minha vó já tinha os quitutes preparados. Tradição de Copas em nossa casa até os dias de hoje… Saudade da minha vó Ana!

Era um dia especial e o jogo dessa vez seria à noite. No jornal diziam que seria a decisão antecipada. Videla, o ditador sanguinário argentino estaria lá ao lado de Havelange. A Copa de 1978 na Argentina chegava ao seu grande momento. Uma Copa que se desenvolveu de uma forma diferente aos exigentes europeus. No rigoroso inverno na região da Prata encontraram situações muito adversas ás de costume. Gramados muito ruins e com muita lama são vistas nas imagens.

O Brasil em 1974 já não tinha agradado muito aos críticos e em 78 continuou nessa mesma linha. A dificuldade de encontrar um time ideal levou a CBD trocar o comando do time meses antes da Copa e para felicidade dos generais de Brasília alguém aliado ao regime assumiu. Mais do que isso. Na época, com o Inter dando as cartas em nosso futebol doméstico, a seleção continuava um combinado Rio-São Paulo, o que levava a muitas reclamações por parte dos gaúchos e mineiros.

Osvaldo Brandão foi demitido na Bolívia em série de amistosos e o time para o Mundial foi montado de uma forma que nada tinha a ver com nossas tradições de futebol arte. Inegavelmente uma gama de ótimos jogadores foi chamada, mas a ausência de Falcão foi mais comentada do que muitas presenças.

brasilargentina1978118 de julho de 1978. O mundo do futebol se reuniu em Rosário.

O Brasil alinhava com Leão, Toninho, Oscar, Amaral e Rodrigues Neto. Batista, Chicão e Jorge Mendonça. Gil, Dinamite e Dirceu. Coutinho armou um meio de campo com dois volantes brutos. Chicão tinha sido chamado para essas ocasiões. Volante de técnica discutível, mas de força descomunal. Num campo pesado e com promessa de violência de parte a parte seria imprescindível segundo o treinador. Dirceu e Mendonça fariam a dupla que acionaria Gil e Dinamite , mas isso tudo foi contestado , pois com Zico e Rivelino , mesmo com fracas participações, até então o time era bem mais técnico.

Os argentinos vinham a campo com Fillol, Olguín, Galván, Passarela e Tarantini. Gallego, Ardiles e Luque. Bertoni, Kempes e Ortiz. Um grande time, treinado por Cesar Menotti. Defesa sólida, Luque como motor no meio e Kempes fazendo os gols. Menotti foi vítima da corneta argentina. Deixou de fora um jovem promissor… Tal Diego Maradona. Disse depois que se arrependeu, mas Diego nunca o perdoou…

Grandes matérias nos jornais – essenciais em 1978 – levaram as provocações ao máximo. Jogadores também entraram nessa. Toninho Cerezo, sacado, foi acusado de ter medo do jogo. Zico também.

Times em campo, hinos nacionais tocados. Luciano do Valle era a voz da TV Globo para a Copa de 78.

Conforme noticiado pelos jornais da época nos dias anteriores, o juiz escolhido era meio frouxo. E assim começou o jogo. Em dez segundos a primeira falta.  Daí para frente, um festival de entradas criminosas, pontapés, cotoveladas e empurrões. O jogo , até os 15 minutos foi mais que uma falta por minuto e  com um futebol pífio apenas com lances de antijogo. Leão fazia cera, Loque tentava apitar.

Foi uma guerra o que se seguiu.

brasilargentina19783O Brasil, na opinião de muitos, foi covarde. Mas mesmo assim manteve o controle do jogo o tempo todo. Com posse de bola e alguns ataques. Dinamite teve duas boas chances. A Argentina uma apenas no primeiro tempo. Na primeira parte, Brasil bem melhor, mas respeitando demais o adversário. Vitma da escolha de Coutinho que preferiu Chicão a Zico.

Este entraria no segundo tempo no lugar de Jorge Mendonça e acordaria o time. Duas boas chances, daquelas que Roberto não perdia no Vasco e num jogo como esse, de xadrez, não deveria ser desperdiçadas. O Brasil deveria ter sido mais astuto, a vitória punha o time em mais uma final. Medroso, Coutinho preferiu jogar na última rodada e sabemos o que se passou. A Argentina, com um belo esquadrão, mas que fez bem o trivial até ali e também não quis muito saber de jogar.

Lances capitais, futebol-arte? Nada disso. Resolvi falar sobre a maior rivalidade do futebol. E  nesse dia talvez tenha tido seu primeiro grande momento em Copa do Mundo.

Um festival de bordoadas, com técnica deixada de lado. Muito do que vemos hoje nos jogos sul-americanos. O jogo da minha vida certamente foi Brasil e Itália em 1982.  A única lágrima que derrubei pelo time amarelo e verde… Mas esse é muito especial… É o primeiro que lembro em Copa. E me remete à Dona Ana Rosa…

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