A Alemanha recém-unificada chegou à Copa dos EUA como uma das grandes favoritas, ao lado do Brasil. O momento do país era de otimismo, e a geração era uma das mais brilhantes já produzidas. Não só defendiam o título como traziam a base que conquistara a Copa da Itália. E esta vinha reforçada de craques como Matthias Sammer, que quatro anos antes ainda tinha passaporte da Alemanha Oriental. A equipe era, com efeito, melhor que a que batera a Argentina em 90.

E a formação que iniciou a Copa era surpreendentemente ofensiva, com apenas um zagueiro de área, o excelente Kohler. O ala Berthold, sempre perigoso no apoio, vinha improvisado no miolo da zaga, e o líbero era o capitão Matthäus, meia de origem e herói da conquista de 90. Na lateral esquerda, o veterano Brehme; na meia esquerda, o hábil Möller; no lado direito do campo, dois meias criativos se revezavam em funções ofensivas e de marcação: Hässler e Effenberg. No ataque, Klinsmann e Riedle, que dois anos antes fora artilheiro da Eurocopa; no gol, Bodo Illgner.

Este time, possivelmente um dos melhores a jogar uma Copa do Mundo, não passou de 1×0 contra a Bolívia na estreia, de um empate em 1×1 com a Espanha (então uma força média) e de um suado 3×2 na Coreia do Sul. A torcida alemã não ficou satisfeita, e o jogo com a Coreia terminou com o temperamental Effenberg mostrando o dedo médio a torcedores que o vaiavam. O técnico Berti Vogts não apenas o sacou do time como decretou que a carreira do jogador pela seleção estava encerrada.

Vogts aproveitou a mudança forçada para tornar o time mais sólido na defesa: para as Oitavas de Final contra a Bélgica, Brehme deu lugar ao reserva Wagner, mais jovem porém menos talentoso que o titular; Buchwald já havia retomado sua vaga na defesa, permitindo a Berthold voltar à lateral direita; Helmer assumiu a função de volante, permitindo a Matthäus jogar com mais liberdade; e o artilheiro Völler substituiu Riedle com folgas, fazendo dois gols e dando o passe para o terceiro, de Klinsmann. Foi um ótimo jogo, que os alemães venceram por 3×2.

A Bulgária chegou à Copa com a melhor seleção da sua história, na qual se destacava o ídolo do Barcelona Stoichkov, maior jogador búlgaro de todos os tempos; na meia, o segundo maior, Balakov; no gol, seu maior arqueiro, Mikhailov; na frente, o bom Kostadinov, companheiro de ataque de Bebeto no La Coruña; o motor do time era o calvo e incansável Letchkov; Ivanov, Tsvetanov, Kiriakov, Yankov e Sirakov mantinham a qualidade do elenco.

Na primeira fase, caiu numa chave difícil, e após uma derrota para a Nigéria e uma vitória frente à Grécia, teria um grande desafio na terceira rodada, decisivo para suas pretensões de classificação: a Argentina de Maradona. Acontece que, após um início devastador, uma bomba caiu sobre os argentinos: Maradona havia testado positivo para efedrina, e estava fora da Copa. A Bulgária se aproveitou da crise e venceu por 2×0, classificando-se em segundo no grupo. Nas Oitavas, um jogo nervoso que terminou em 1×1 com o México, e uma disputa de pênaltis ainda mais nervosa, na qual os mexicanos perderam as três primeiras cobranças e jogaram fora suas chances de seguir na Copa.

Como quer que fosse, os búlgaros chegaram àquelas Quartas de Final no Giants Stadium como azarões. Nunca fui de torcer para o mais fraco. Pelo contrário, gosto de “justiça”, e justiça no futebol, para mim, é a superioridade técnica converter-se em resultado. Além disso, sempre fui fã do futebol alemão. Mas naquele ano a autossuficiência e o futebol burocrático dos campeões estava me irritando (exceção feita ao sempre vibrante Jürgen Klinsmann). E uma entrevista de Franz Beckenbauer tinha doído nos meus ouvidos…

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No início do torneio, o Kaiser, que se desligara do cargo de treinador após seis anos e duas finais de Copa do Mundo, com um título, assegurara que os alemães eram favoritos porque tinham “mentalidade superior”. É difícil traduzir a palavra alemã Mentalität. Não se trata do que nós chamaríamos de “inteligência”, mas de um suposto “estado mental”. A aplicação do conceito ao futebol não era, obviamente, uma invenção de Beckenbauer, mas um clichê repetido há décadas pelos entendidos do Fussball. Às vezes toma a forma mais simpática de “mentalidade vencedora”.

Se você pensou em pseudociência protonazista, acertou – ou pelo menos chegou bem perto. A seleção alemã tem uma tradição de manter treinadores por um longo período, e de procurar seguir uma linha ininterrupta de trabalho. Otto Nerz, nazista de primeira hora, foi o Trainer de 1926 a 1936, quando foi substituído pelo legendário Sepp Herberger, seu auxiliar desde 1932. Herberger também era nazista, mas depois da guerra convenceu o novo governo de que se filiara ao partido de Hitler por mera formalidade. Com isso, evitou terminar seus dias na prisão, como Nerz, e seguiu no comando do selecionado até 1964 (ano em que Beckenbauer estreou como jogador na seleção).

Herberger foi o criador da mitologia da “mentalidade superior”, que seria reforçada pelo Milagre de Berna. Ao derrotar a fortíssima seleção húngara em 54, os alemães convenceram a si mesmos que, ainda que a técnica não estivesse a seu lado, uma “mentalidade” adequada fatalmente conduziria o time a vitórias. Naturalmente, tal mentalidade era própria de um povo como o alemão, não de húngaros, búlgaros e outros. Pura mistificação, porque a Alemanha sempre teve ótimos times, e algumas vezes, como todo mundo, perdeu para adversários mais fracos.

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Herberger foi substituído por outro treinador lendário, Helmut Schön (seu auxiliar desde 1956), que conduziria a seleção alemã a outra grande façanha, a conquista da Copa de 74 derrotando outro favorito da vez, a Holanda de Cruyff. Schön passou o comando em 1978 a seu auxiliar (desde 70) Jupp Derwall, que sairia em 1984 para dar lugar a Beckenbauer. E assim, em três parágrafos, traçamos uma linha de 70 anos, de Nerz a Vogts (que antes fora auxiliar de Beckenbauer), de Weimar à reunificação, passando pelo Terceiro Reich e a queda do muro.

A Bulgária tinha uma história bem mais modesta, inclusive no futebol, e começou na defesa. Mas a Alemanha não criou nenhuma chance clara de gol nos primeiros minutos, e o jogo logo se equilibrou. Com uma infiltração perigosa de Kostadinov e uma bola na trave de Balakov, a Bulgária mostrou que podia competir. Os alemães responderam com um peixinho à queima-roupa de Klinsmann, que Mikhailov defendeu em cima da linha. Em passes de Hässler, que neste jogo atuou pela esquerda e foi o grande criador de jogadas, Möller esteve livre para concluir dentro da área, e Klinsmann finalizou com um belo sem-pulo pelo lado direito do ataque. Os alemães tiveram ligeira superioridade, mas o primeiro tempo terminou em 0x0.

Logo no primeiro lance do segundo tempo, Letchkov levantou demais a perna para desarmar Klinsmann, e o árbitro marcou erradamente um pênalti que Matthäus converteu com categoria. Depois, durante a primeira metade do segundo tempo a Alemanha afirmou sua superioridade e teve chances de decidir a partida com Hässler (belo chute de fora da área que Mikhailov salvou com a ponta dos dedos), Helmer (toque colocado rente à trave, após passe de calcanhar de Rudi Völler), Möller (bomba na trave) e Völler (gol de rebote bem anulado).

Como “quem não faz, leva” é um ditado tão válido em Botafogo quanto em Nova York, aos 25 minutos Stoichkov teve a chance do jogo, numa cobrança de falta que ele mesmo cavou, e não desperdiçou. Toque limpo, por cima da barreira, no canto do gol. Illgner nem se mexeu. Três minutos depois, após lançamento preciso de Yankov, Letchkov aproveitou que estava sendo marcado pelo baixinho Hässler e deu longo salto em diagonal para finalizar com um antológico gol de cabeça, encobrindo Illgner. 2×1, placar final. Nem um elenco mais técnico nem a tal “mentalidade superior” foram suficientes para levar a Alemanha às Semifinais.

A mãe de Stoichkov teve um princípio de infarto ao assistir, pela TV, ao filho mudar a história do jogo. Letchkov, que jogava na Alemanha, recebeu ameaças de morte. Mas aquele foi o ponto culminante da maior geração do futebol búlgaro. Na Semifinal, foram eliminados pela Itália; na disputa pelo terceiro lugar, foram goleados pela Suécia.

Quatro anos depois, Berti Vogts levou à Copa da França uma seleção envelhecida, que tinha como protagonistas os mesmos nomes de 94, mas a grande chance daquele grupo havia sido perdida no antigo estádio dos Giants. No início da Copa, Matthäus, ainda titular aos 37 anos, tentou relembrar a lenda da mentalidade superior. Quando sua seleção foi eliminada pela Croácia, de novo nas Quartas, mas dessa vez com uma acachapante derrota por 3×0, o capitão confessou que sentiu vergonha pela forma como o time atuou. Como treinador, teve uma carreira apagada, e seu último trabalho, curiosamente à frente da seleção da Bulgária, foi desastroso. Restaram, para todos, lembranças daquela tarde em New Jersey.