Na segunda parte do meu artigo sobre Democracia (6 de junho) chamei atenção para o fato de o debate político brasileiro ter sido tomado por uma escalada de insultos, acusações e desqualificação do adversário. Um exemplo de como os ânimos estão acirrados foi dado na abertura da Copa do Mundo, com o “esculacho” sofrido pela presidenta Dilma Rousseff.

Não me interessa aqui debater os méritos e deméritos do Governo Dilma, que são discutíveis, nem o direito do público de se manifestar, que é indiscutível. As questões relevantes são o estado de espírito dos atores políticos e as consequências disso para a democracia e as instituições.

A cena foi catártica para alguns e incômoda para outros: a Presidenta da República, uma senhora de 66 anos de idade, estava na Tribuna acompanhada da filha, cercada por uma plateia previsivelmente hostil. Os presentes foram um tanto além da vaia que já tinha “premiado” Dilma na abertura da Copa das Confederações. Agrediram verbalmente a Chefe de Estado da forma mais grosseira, não menos de quatro vezes.

O primeiro dever é um desagravo a Cesar Maia. Quando Lula foi vaiado na Abertura dos Jogos Pan-Americanos, em junho de 2007, os apupos foram atribuídos a uma claque organizada pelo ex-prefeito do Rio. Diante do comportamento reiterado das plateias em espetáculos do gênero, cada vez mais parece improvável a teoria conspiratória. Segundo pesquisas da época, Lula tinha a aprovação de dois terços do eleitorado. O número só aumentou até o fim de seu governo.

dilma2013Dilma tinha, segundo o Ibope, 70% de aprovação popular quando foi ainda mais vaiada no evento da FIFA de 2013. Tem caído desde então. Segundo as últimas consultas, um terço do povo considera o desempenho de Dilma “ótimo ou bom”, outro terço o julga “regular”, e outro o descreve como “ruim ou péssimo”. Mas a apupada de Itaquera foi quase uníssona. Parece que há, independente da popularidade dos políticos, um sentimento cada vez maior de revolta e de falta de limites.

Toda vez que esse tipo de coisa volta a acontecer, repetem-se alguns chavões, como “brasileiro vaia até minuto de silêncio”. Pode ser, mas nem sempre houve tal agressividade contra os governantes. Sarney e Collor eram odiados na parte final de seus respectivos mandatos, nem por isso passaram por coisa semelhante.

Outro bordão de Nelson Rodrigues parece mais útil para descrever o atual estado de coisas: “No Brasil, grita-se a crítica e sussurra-se o elogio”. Senão, onde foi parar o terço do povo que ainda se diz satisfeito com Dilma? Claro, o público do Itaquerão não era representativo da população brasileira: basta dizer que a maioria havia sido convidada para o evento, graças às suas relações pessoais. Mas talvez haja mais a se dizer a respeito.

Primeiro, o clima de estádio de futebol não justifica a baixaria. Abertura de Copa do Mundo não é Fla-Flu. É uma festa, para a qual, repita-se, a maior parte dos que estavam ali não pagou ingresso. Além disso, Dilma estava cumprindo um protocolo, não tinha nada a ver com a partida. E a situação peculiar da mandatária, que não tinha como se defender nem se retirar do recinto, tornou o bullying ainda mais feio.

Goste-se ou não de Dilma, ela foi eleita pela maioria do povo numa eleição direta; nunca esteve diretamente envolvida em episódios de corrupção; sempre se mostrou em público de forma séria e respeitável; e ainda é favorita para ser reeleita em outubro segundo todas as pesquisas realizadas até agora. Ou seja, tem plena legitimidade para representar o Brasil. Não é alguém, como Collor em 92, a quem o país virou as costas antes do fim do mandato.

Por outro lado, seria mesmo válido o argumento de que Dilma merecia consideração especial só por ser mulher, ainda mais uma avó? Quem está na chuva é para se molhar, e Dilma não só se candidatou ao cargo como é candidata a reeleição (sabendo que tem uma Olimpíada pela frente). Cada um tem sua opinião. Pessoalmente, não aprecio nenhum gesto que se valha do escudo da multidão. Se alguém odeia tanto a presidenta que esteja disposto a dirigir-lhe impropérios face a face, que o faça e arque com as consequências. O que se viu na Arena Corinthians foi covardia. O mesmo se diga dos que fazem a mesma coisa com a cobertura do anonimato na internet.

É irônico que o alvo de tanta fúria seja uma Chefe de Estado atenta à “liturgia do cargo”, e que procurou distender o clima político, já quente quando ela foi eleita. Ao contrário de Lula, adepto do “bateu, levou”, Dilma tentou recompor sua relação com a imprensa (não funcionou) e procurou convidar todos os ex-ocupantes do cargo, inclusive FHC, para as cerimônias de Estado mais importantes. Foi a primeira presidente brasileira com essa preocupação.

Por sinal, Dilma foi bem suave na resposta à ofensa, dizendo que não se intimidaria com isso, e que o povo brasileiro é “civilizado e extremamente generoso e bem educado” (hã?). Já Lula não fez por menos: chamou as pessoas que hostilizaram sua sucessora de “moleques sem vergonha e sem educação”, e assegurou que ele próprio “jamais faltou com respeito à instituição Presidência da Republica” (se tivesse boa memória, Lula se lembraria de ter xingado a mãe de Itamar Franco, então uma anciã de mais de 90 anos, quando o mineiro era presidente).

Com ar de tia-avó, Dilma disse ainda que os xingamentos que ela recebeu não podem ser sequer escutados pelas crianças e pelas famílias”. É triste, mas os vídeos mostram que os tais xingamentos foram entoados, não exclusivamente, por crianças e famílias. Como chegamos a esse ponto?

dilma2014cComo eu comentei no último artigo, há um acirramento das posições políticas que vem desde 2006, e que tem se intensificado com a popularização da internet. A temperatura sempre oscila para cima em época de campanha eleitoral, mas a tendência é de radicalização cada vez maior a cada ciclo. Há um estranho ódio dos privilegiados pelos de baixo que lembra os anos Thatcher na Inglaterra. Como se recorda, os inimigos (aqui a palavra cai com o uma luva) da Baronesa só se sentiram vingados ao brindar sua morte com champagne nas ruas de Londres.

Este acirramento, insuflado lepidamente pelos black blocs da mídia, produziu um público padrão VEJA que naturalizou o insulto como se argumento fosse. A impressão de quem lê colunas de opinião, navega na internet ou simplesmente tenta debater um assunto qualquer hoje em dia é a de que estamos na Belfast dos anos 70.

Quem mais tem a perder são as instituições. Se Dilma for reeleita em outubro, o inconformismo de seus adversários só tende a aumentar. Quanta paciência ainda terão antes de tentar um Golpe de Estado? O que podemos esperar de pessoas que há muito perderam qualquer resquício de comedimento? E a própria Dilma, como reagirá? Em que grupos buscará apoio na sociedade? Por certo, não só nos mais centristas. Há alguns sinais na campanha de que talvez já estejamos assistindo a um realinhamento mais polarizado.

Se o vencedor for Aécio, que se prepare para viver quatro anos sob tempestade. Talvez não seja vaiado em estádios padrão FIFA. Mas o que ele pode esperar dos sindicatos, dos estudantes, dos sem-terra? Estes grupos só estão mais ou menos pacificados por terem chegado a termos com o governo. Ele imagina que os black blocs, porque atacam Dilma, irão poupá-lo? E como reagirá à instabilidade política? Trata-se de um político moderado e habilidoso, mas muitas pessoas que o apoiam hoje não são nada disso.

A campanha presidencial será para estômagos capazes de processar um cachorro quente daqueles incrementados com um pouco de tudo nas esquinas do centro da cidade. Mas pior deve ser o que virá depois. Todos que não querem pagar para ver têm o dever de contar até cem antes de jogar ainda mais gasolina na fogueira.