Esta tem sido uma Copa muito mais “sul-americana” do que os analistas esperavam. Pela primeira vez na história o número de latino-americanos nas Oitavas de Final superou o de europeus: 7×6. Também foi a primeira vez desde 1970 que o número de seleções latinas igualou o de europeias nas Quartas de Final (4×4) e na Semifinal (2×2). Se tivermos uma final entre dois sul-americanos, terá sido a primeira vez desde 1950.
Antes do Mundial, o português José Mourinho, tido como um mago do futebol europeu, arriscou publicamente seus favoritos para as Oitavas, e errou feio. Apostou em 11 seleções europeias, contra 3 latino-americanas.
É verdade que Mourinho brincou(?) que precisava incluir a Inglaterra entre os 16 porque em caso contrário não conseguiria um emprego na próxima temporada. E deixou entrever wishful thinking ao prognosticar favoravelmente a seu próprio país: ressalvou que temia os Estados Unidos.
Mas sem dúvida havia muito eurocentrismo na previsão. Basta dizer que, desde que o sistema de play-offs foi introduzido, em 1986, nunca houve 11 europeus nas Oitavas de Final – e naquela época o futebol ainda engatinhava em boa parte do mundo. Na última Copa houve empate entre a Europa e a Latino-América (6×6), mas então a maioria das seleções americanas classificadas não inspirava tanta confiança quanto hoje.
Copa à parte, o eurocentrismo fica cada dia mais forte, à medida que a concentração de craques do mundo inteiro na Europa só aumenta. Os mercados relativamente novos do esporte (EUA, Ásia, Austrália) acompanham a Champions League e a Premier League, mas ignoram totalmente os outrora orgulhosos clubes do cone sul da América.
Sintomaticamente, tornou-se comum europeus e mesmo argentinos de menos de trinta anos desconfiarem que Pelé possa ter sido tão bom quanto dizem, já que ele “nunca jogou na Europa”. Isso é tão anacrônico quanto afirmar que Maradona também não pode ser considerado um dos grandes porque nunca venceu uma Liga dos Campeões.
Um clichê repetido à exaustão nos três anos anteriores à ida de Neymar para o Barcelona garantia que ele jamais atingiria seu pleno potencial enquanto não jogasse na Europa. Todas as suas falhas eram automaticamente atribuídas ao fato de ainda perder tempo jogando no Brasil. Os espanhóis, que engrossavam este coro, foram os primeiros a ficar boquiabertos com o desempenho do brasileiro na Copa das Confederações, pois imaginavam que o então jogador do Santos só conseguia fazer seus malabarismos contra as bisonhas defesas brasileiras.
A conquista da Copa das Confederações, com vitórias inquestionáveis sobre as duas finalistas da última Eurocopa, foi embaraçosa para os europeístas, porque os três melhores jogadores do Brasil – o próprio Neymar, Paulinho e Fred – jogavam aqui. De lá para cá, tanto Fred (que continuou jogando no Brasil) quanto Paulinho (que foi para a Europa) involuíram.
Em relação a Neymar, as opiniões divergem, havendo os que acham que ele melhorou no Barcelona, e outros que pensam o contrário. Como quer que seja, ele continua jogando bem, como era de se prever, e só tende a crescer. É natural que os jogadores de futebol evoluam tecnicamente enquanto ainda são jovens. Como a maioria dos bons jogadores brasileiros é contratada por clubes da Europa quando curva da carreira é ascendente, nos acostumamos a deduzir que seu aperfeiçoamento é atribuível ao fato de jogarem na Europa.
Na realidade, a melhora é uma tendência que nem sempre se confirma, como nos casos pouco lembrados de jogadores que fracassaram no Velho Continente e retornaram, desvalorizados, ao Brasil. Paulinho é um exemplo óbvio, mas podemos colher vários outros em diferentes épocas: Robinho, Edmundo, Renato Gaúcho, Sócrates… Sou dos que acham que, a despeito de ter sido escolhido o melhor do mundo em 1999, a melhor temporada de Rivaldo foi a de 96, ainda no Palmeiras. Mas aqui ele não chamava atenção.
A primeira razão para o apogeu sul-americano nesta Copa do Mundo é, obviamente, o fato de o torneio estar sendo realizado na América Latina. A segunda é econômica. A melhora relativa na renda dos ibero-americanos na última década, aliada à proximidade relativa do Brasil, fez afluir aos estádios a “nova classe média latino-americana”, na expressão do correspondente da BBC Tim Vickery.
A torcida barulhenta dos hispânicos, à qual os brasileiros aderiram, parece ter feito diferença para as seleções dos nossos vizinhos. E é inegável que países como Chile e Colômbia trouxeram uma geração notável de jogadores formada recentemente.
Além disso, vários times europeus chegaram em má forma física e técnica, principalmente Portugal e Espanha. Não creio que o desgaste da temporada europeia tenha algo a ver com isso, pois a maioria dos jogadores de quase todas as seleções joga na Europa. Simplesmente, algumas equipes se prepararam melhor que as outras.
Também não vejo razão para os europeus reclamarem do clima, nem atribuo a isso o sucesso dos latinos. Primeiro, porque as temperaturas médias ao longo do ano em Santiago, Bogotá e Buenos Aires não são superiores às de Roma, Madri e Lisboa. São bem mais altas que em Berlim, Amsterdã e Bruxelas, e no entanto os países do norte da Europa vão bem no torneio.
Segundo, como já dito, a maioria dos jogadores meridionais atua nas ligas europeias, e vários deles moram lá há muitos anos. Os argelinos surpreenderam positivamente nesta Copa, mas isto não pode ser atribuído a terem sido criados no calor africano: 70% da seleção da Argélia não só joga como nasceu na França.
Por fim, em poucas partidas o termômetro marcou acima de 30°. A diferença entre o inverno brasileiro e o verão europeu não é tão grande assim. As enormes distâncias percorridas pelas seleções nesta Copa sem dúvida pesaram, mas todos sofreram com isso, e os mais prejudicados não tiveram os piores desempenhos.
Por fim, poder-se-ia alegar que as altas temperaturas, mesmo que não prejudiquem seleções específicas, comprometem a qualidade do espetáculo. Mas esta sugestão se chocaria frontalmente com o que se tem visto na cancha, havendo mesmo comentaristas sugerindo que esta Copa pode ser a melhor de todos os tempos, superando a que até então se considerava a mais brilhante, a de 1970.
Isto é assunto para outro comentário.
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