O jogo das Quartas de Final em que a Alemanha derrotou a França foi o único “clássico do futebol mundial” da fase eliminatória desta Copa antes das Semifinais. Foi também a única partida a que assisti no Maracanã, após excelentes experiências no Beira-Rio e no Mineirão.

Que a logística no Estádio Mario Filho seria a menos eficiente, até porque é o maior estádio da Copa, já era previsto. Que os voluntários seriam menos preparados, e o público, em geral, menos educado, também. Que os roubos de ingressos seriam muito mais frequentes, a despeito das cinco barreiras policiais que o espectador tinha de atravessar até a arena, era um fato da vida com o qual eu estava preparado para lidar, e tive sorte.

WP_20140704_008Torci pela Alemanha vestindo uma camisa do Flamengo – que não é o meu time. Infelizmente, eles jogaram com o uniforme tradicional, todo branco. Como se sabe, o segundo kit dos alemães nesta Copa, com listras horizontais pretas e vermelhas, emula o uniforme do Flamengo. A Adidas, que também veste o rubro-negro carioca, assegura que a homenagem foi consciente.

Podemos assumir que isso tenha entrado na conta, e de fato os alemães estão fazendo, desde o início da competição, tudo que podem para ganhar a torcida brasileira. Não tiveram sucesso, diga-se, e não será na Semifinal que o conseguirão.

Mas também não devemos superestimar o gesto. Mesmo intencional, a homenagem não poderia ter-se consumado se a cor predominante do Flamengo fosse, digamos, o azul. Vermelho e preto são cores usadas pela equipe germânica há tempos. A bandeira do Império Alemão tinha faixas horizontais nessas duas cores, mais o branco. O uniforme que se tornou tradicional no futebol usou apenas o branco e o preto, que eram as cores da Prússia (região dominante do Império) e da casa imperial dos Hohenzollern.

Usei a combinação de gosto discutível como que aceitando a simpática deferência dos alemães. Como comento em outro artigo publicado esta semana, os clubes brasileiros estão, no momento, totalmente desacreditados, e a referência a um deles por uma seleção como a alemã serve, no mínimo, para lembrar que o futebol tem uma história prévia ao atual formato da Champions League, e que naquela época longínqua acontecia de os grandes clubes do Brasil terem algum reconhecimento internacional por sua tradição. Já chegamos ao ponto em que é necessário lembrar isso até a nós mesmos.

WP_20140704_035Em campo, a Alemanha foi superior, embora não tenha repetido, como não repetiu nos três jogos anteriores, o desempenho da estreia contra Portugal. Na verdade, a média de gols e o nível de espetáculo da Copa caíram desde as duas primeiras rodadas, embora não o de emoção. Já previa isso, pois na fase decisiva todas as seleções jogam mais fechadas, e obviamente é mais difícil dar show contra equipes de qualidade semelhante.

O caso é que, se havia uma seleção capaz de dar espetáculo este ano, era a alemã. Mas eles estão, com bons motivos, mais interessados em ganhar o campeonato que em criar um novo paradigma de jogo. Esta talvez seja a última chance de jogadores como Klose, Lahm, Podolski, Schweinsteiger e Mertesacker. Por outro lado, Özil, Müller, Kroos, Götze, Neuer, Schürrle, Boateng e o cortado Reus ainda terão outra oportunidade, mas é difícil dizer se estarão no mesmo nível técnico em que se encontram hoje. O próprio técnico Joachim Löw enfrenta resistência ao prosseguimento do seu trabalho.

WP_20140704_028Como resultado, o jogo foi morno desde que, logo no início, o contestado Hummels fez o único gol da partida. Foi um padrão nas Quartas de Final: Se alguma equipe superior faz um gol no começo do primeiro tempo, o adversário em geral segura o jogo, com medo de ter o placar ampliado, deixando para tentar o empate nos quinze minutos finais. Foi assim em Argentina x Bélgica, e teria sido assim em Brasil x Colômbia se o Brasil não tivesse chegado ao segundo gol na metade do segundo tempo.

Dessa vez, Benzema parou na mão direita de Neuer no último minuto dos acréscimos, mas os franceses não saíram desesperados. Com exceção do decadente Evra – além do astro Ribéry, cortado por contusão na véspera do torneio –, quase todos os demais protagonistas podem chegar em melhor forma ao próximo Mundial.

WP_20140704_023A torcida alemã era maior, mas eu estava mais perto dos franceses. Um bloco se estendia à minha esquerda, até o último nível de arquibancadas. Todos cantaram de pé do início ao fim do jogo. À minha direita havia apenas uma faixa horizontal de bleus, que também tentou ficar em pé, mas recebeu as reclamações de brasileiros “coxinhas” nas cadeiras superiores. Os gauleses ignoraram solenemente as reclamações.

Na sequência, chegaram os stewards da FIFA, para tentar convencê-los a sentar-se. Em vão. Um supervisor de segurança passou ao meu lado falando no walkie-talkie: “Não tem jeito, eles não querem sentar, não vão sentar, não tem o que fazer.” A essa altura, ninguém mais via o jogo: nem os franceses, nem incomodados das fileiras de trás, nem qualquer pessoa que estivesse em volta.

A fim de fazer prevalecer o padrão FIFA, foi então chamada… a PM do Rio! Havia alguns negros na torcida da França, o que pode ter sido a senha para que a polícia chegasse ao seu melhor estilo: descendo o cassetete. Em poucos segundos, abriram a cabeça de um torcedor, espirrando sangue num raio de cinco filas de cadeiras. Os franceses, atônitos, finalmente se sentaram.

WP_20140704_034O episódio sugere uma questão relevante, já que, com a Copa, os estádios brasileiros efetivamente mudaram de padrão, assim como os preços dos ingressos, e, consequentemente, também o frequentador habitual. Os torcedores devem ter a prerrogativa de assistir ao jogo de pé, como convém aos ansiosos, ou cabe respeitar o direito dos vizinhos que querem assistir à exibição como se estivessem no cinema?

O problema está relacionado a outro, a saber, a insatisfação do público que acompanha futebol o ano inteiro com o predomínio, nos estádios desta Copa, de uma plateia “padrão FIFA”, formada por celebridades e donas-de-casa da “elite branca”, que de futebol só conhece o Flamengo e o Neymar, depois de algum tempo recorda o Cristiano Ronaldo, e se lembra vagamente do David Luiz como “aquele do cabelo encaracolado”.

O primeiro dever é lembrar que o tal público mais fiel do futebol hoje em dia dificilmente conseguiria lotar sequer o Maracanãzinho. Em nenhum ano desta década a média de pagantes no Campeonato Brasileiro chegou a quinze mil. Do ponto de vista normativo, sinto informar que quem compra um ingresso para a Copa aceita tacitamente as condições do Código de Conduta da FIFA, que diz ser proibido: ficar de pé nos assentos nas áreas de espectadores ou obstruir a visão de outros espectadores de forma não razoável”.

Novos tempos, novos hábitos.