A Copa se aproximava e o mundo travava o site em busca de ingressos. Queria ver o puto na Fonte Nova contra os Alemães. Tudo preto. De repete, tudo verde para Brasília. Ligo e ele meio ressabiado me pergunta contra quem. Desconfiado como todo conterrâneo, me perguntou como e quando iríamos.
Meu pai, Antonio, tem 77 anos. É Português de uma pequena aldeia, como lá às chamam, chamada Edroso, perto de Macedo de Cavaleiros, em Trás os Montes. Nordeste da Terrinha. Está no Brasil há 45 anos e sempre me levou a estádios. Ultimamente inverti essa lógica e nunca imaginamos ir à Copa do Mundo. E lá fomos nós à Capital Federal. Ele com uma camisa que comprei ano passado com o nome da nossa família atrás e os tradicionais cachecóis usados pela torcida da seleção das quinas.
Portugal, afora 1966, nunca teve grandes participações em Copa, até que em 2002 na geração de Figo e cia, emplacou presenças constantes nas competições europeias e na Copa do Mundo. Esse ano, depois de uma suada eliminatória, trazia o puto citado acima (puto é menino lá).
Cristiano Ronaldo. O melhor de 2013 e do primeiro semestre de 2014. Vinham cheios de expectativas. Com o treinador abraçado até a morte com os semifinalistas do Euro 2012 (derrotado nos pênaltis pela Espanha), incorreu em erros graves. Com CR7 à meia bomba, não seria fácil a estada lusitana em nossas terras, ainda mais em grupo forte com Alemanha, Gana e Estados Unidos.
Na fria manhã do dia 26 de junho lá fomos nós rumo à capital do país. Muitas perguntas e respostas nos jornais. Centenas de camisas vermelhas no aeroporto. Piada presente, dissemos entre os adeptos, que no Canindé faz tempo que não víamos tantas. O nome Ronaldo nas costas de muitas. O rapaz é idolatrado, não duvide.
Descemos em Brasília com aquele tradicional calor seco e todos rumando ao Estádio Nacional. O aeroporto, que tenho frequentado umas três vezes ao ano desde 2006 ficou muito bom. Enorme, padrão de cidades grandes do mundo. Inacabado ainda, mas de ótimo legado à Capital. Um sistema de ônibus expresso ao estádio era a opção ao sempre caro táxi local. Como a fila era grande e queríamos dar uma voltinha, fomos num. O estádio Mané Garrincha é otimamente bem localizado. No centro do plano piloto, perto do setor hoteleiro. Sempre afirmei que Brasília era a alternativa a São Paulo para a abertura, devido ao estádio que funcionou bem na Copa das Confederações e o entorno.
Os bloqueios foram feitos no Eixão, o que nos levou a uma caminhada de cerca de 1,5 km até o Estádio. Com enormes lounges dos patrocinadores Brasília recebeu muito bem, ao meu conceito, os torcedores dessa Copa. As entradas são amplas, bem orientadas e que facilmente o levam a seu lugar. Achei os voluntários de São Paulo mais animados com o trabalho, mas nada que seja a criticar.
O estádio é espetacular. Gigante e alto. Numa comparação com o outro estádio que fui (Itaquera), este é mais luxuoso e melhor acabado. O da capital é todo rústico e com detalhes simplórios. A parte superior, onde eu e meu pai ficamos é muito inclinada, como já escreveu o Migão no jogo do Brasil. Isso dá uma gostosa sensação de que estamos em cima do campo, como em monumentos da bola como a Bombonera e a Vila Belmiro. Conversando com um ou outro, num paralelo ao Estádio da Luz que abrigou a final da Champions League recentemente, é no luxo que o Mané Garrincha perde feio, mas nada deve como estádio.
Ao entrar para o aquecimento Cristiano puxa a equipe das quinas numa estabanada carreira e dá um bicão na bola se aproximando das arquibancadas. Milhares de gritos femininos são ouvidos. Ele tem a noção exata do que representa e de sua fama. Sabe que faz parte importante de um sistema e o faz de forma presente.
O telão anuncia as equipes se perfilando, CR e Pepe abraçando crianças e toca a musica da FIFA. É o momento que cai a ficha da maioria. Filhos abraçando os pais, Pais beijando os filhos. O sonho realizado. É um belo pontapé inicial na emoção.
O alto falante anuncia o Hino Nacional. Orgulhoso, Sr Braz ergue seu cachecol que estava em cima da bandeira da Portuguesa. Repito o gesto e filmo. Nos versos “As armas, as armas.” o estádio vem abaixo… Lágrimas me remetem a todos os meus queridos que vieram no embalo de Cabral. Pompeu, Ana, Maria Alice, Zeca são as minhas lágrimas… Momento sublime…
E vamos ao jogo, Portugal desesperado, precisando descontar os quatro gols do jogo da Alemanha e tantos outros que não marcou contra os Estados Unidos. Gana e seus problemas internos foram notícia na manhã do dia do jogo, com seu presidente mandando um jato cheio de dinheiro e desfilando por Brasília com proteção e os jogadores beijando os maços de dinheiro no hotel. Bizarro.
Com ataques rápidos, Portugal domina a partida, mas como em todos os jogos dessa Copa deixa uma imensidão no meio campo. Além de mal povoado, cheio de jogadores de classe duvidosa. Mesmo assim, com ataques puxados pelo esforçado Nani, CR7 perde dois gols na cara do gol no primeiro tempo. Mesmo assim, “viramos” com vitória lusa por 1×0, com gol contra ganês.
Logo no começo do segundo tempo Gana empata e tem uma pressão que se é transformada em gols poderia dar esperanças aos africanos devido à vitória alemã no Recife.
Cristiano procura muito o jogo. Recebe cada passe que dá a impressão que ele quer nacionalizar Di Maria e Bale. Sai muitas vezes na diagonal, tenta dribles. Enfim, uma apresentação muito melhor que nos outros jogos. Mais dois gols perdidos inacreditáveis dele e finalmente sai o gol. O pai palmeirense à nossa frente, vira pro filho e diz: eu te disse que você ia ver um gol do melhor do mundo!
Essa é a síntese.
Andar dois mil quilômetros com o meu pai, desde as cinco e meia da manhã e chegar à casa a meia noite, sem parar de falar e realizar um sonho. Levar meu pai num jogo de Portugal, com o puto em campo. Estamos quites Braz!
Imagens: Arquivos Pessoais do Autor e do Editor (foto 3)