A competição realizada em terras brasileiras se encaminha a seu final, com a entrada amanhã da fase de quartas de final. Esta revista eletrônica ainda fará um balanço geral da competição ao seu término, mas queria dividir com os leitores algumas impressões.
1) O nível técnico é excelente;
Sem dúvida alguma, o nível da atual competição tem sido o melhor de suas últimas edições. Seleções jogando para o ataque, alta média de gols – total já superou o da última Copa, embora faltem oito jogos – e uma coleção de golaços e de boas defesas.
2) As arbitragens, nem tanto;
O nível melhorou nesta fase das oitavas de final, mas o número de erros grosseiros dos sopradores de apito está bem acima do que seria aceitável. A ponto de mudar classificados nos grupos.
Especialmente nos casos de impedimento, onde os erros geraram tal celeuma que a Fifa já fala em adotar algum tipo de auxílio eletrônico. Vale lembrar que, pelas próprias características da arbitragem, acabam nem sempre indo os melhores para a Copa – e sim os mais políticos. Ou algum leitor acha Sandro Meira Ricci o melhor árbitro brasileiro, por exemplo?
3) A formação de base brasileira tem problemas
A orientação de muitos clubes de gerar jogadores que sejam altos e fortes a fim de ganhar competições de base – e no caso dos empresários, propiciar uma venda rápida – acaba a meu ver prejudicando o desenvolvimento futuro. A habilidade está sendo posta em segundo plano pelos treinadores pela necessidade de vitórias para se manter nos cargos.
Lembro que meninos habilidosos, mas franzinos, podem ter seu físico desenvolvido – mas o oposto não.
4) Os técnicos brasileiros estão desatualizados
Campanhas como a da Costa Rica (especialmente), da Colômbia, do Chile e da Argélia, entre outras, mostram como os treinadores brasileiros estão desatualizados. Cláudio Coutinho, campeão brasileiro em 1980 pelo Flamengo, seria moderno ainda hoje no futebol brasileiro.
Já defendo há algum tempo um técnico estrangeiro na Seleção, mas após esta Copa vejo como imprescindível isso também em clubes nacionais. Decididamente, nossos treinadores não valem a fábula que ganham.
5) Os aeroportos estão funcionando
Utilizei-me dos aeroportos do Rio e de Brasília, ambos funcionando bem apesar do excesso de tráfego aéreo que resultou em atraso no retorno da Capital Federal. Os relatos de outros aeroportos também foram nesta linha, de que suportaram bem o fluxo.
Obviamente, problemas como o ocorrido devido à neblina no Rio de Janeiro em um dos dias da primeira fase acabam ocorrendo, mas são ocorrências pontuais.
6) Novas Arenas: aprovadas
Pode-se discutir o preço das arenas construídas, embora em artigo anterior esta revista eletrônica tenha derrubado o mito de que os estádios custaram caro. Mas o parque brasileiro precisava ser renovado e talvez este seja o principal legado físico do evento propriamente dito.
Além disso, estão funcionando a contento, além de terem sido concluídas em tempo hábil. Manaus e Cuiabá estão alavancando turistas posteriores para a Amazônia e o Pantanal, respectivamente.
7) Ajustes necessários foram feitos
Algo a se elogiar na organização da competição é que não houve medo de se realizar ajustes a fim de melhorar a experiência de se ir a um estádio. Um bom exemplo é a questão da segurança e do trânsito no Rio de Janeiro, que receberam ajustes após as partidas de Argentina e Chile.
Pelo menos aqui no Rio de Janeiro a venda de bebidas foi também se acertando à medida que passavam os jogos. Das grandes filas no jogo da “albiceleste” tivemos um movimento tranquilo na partida das oitavas de final.
8) O povo abraçou a competição
Apesar da campanha contrária por parte de setores partidarizados da imprensa (ver próximo item), a população abraçou a Copa, se divertiu e especialmente buscou receber bem os turistas. Já está ficando um gostinho de “quero mais”.
9) A grande mídia é a grande derrotada
Após passar todo o período pré-competição fazendo campanha ostensiva (e quase terrorista) contra o evento por razões eleitorais e partidárias, a grande imprensa teve de fazer um imenso contorcionismo para mudar de opinião.
Ao contrário do apocalipse apregoado, a Copa do Mundo do Brasil, apesar de pequenas – e normais – falhas, é um sucesso. A cobertura mostrou ao grande público esta faceta partidária de setores de mídia.
Notem os leitores que até órgãos de imprensa internacionais criticaram o “excessivo pessimismo” de nossa imprensa.
10) Imprensa esportiva aprovada, com ressalvas
Em geral, os canais fechados de televisão trouxeram aos espectadores uma cobertura bastante satisfatória do evento. Destaco a iniciativa do SporTV de fazer uma mesa redonda com capitães campeões do mundo e a enorme quantidade de entradas ao vivo dos repórteres espalhados pelas 12 sedes, Granja Comary e diversos países do mundo. Vale elogiar também a sóbria e objetiva cobertura da Fox Sports (além do espetacular time de apresentadoras) e a ótima dupla formada por Everaldo Marques e Alê Oliveira na ESPN, entre outros.
Como pontos negativos, a cobertura das partidas pelo rádio, talvez limitada pela falta de recursos, e o excessivo “pachequismo” de alguns e excesso de críticas de outros.
Ressalto também que a competição mostrou que o SporTV, salvo três exceções (Lédio Carmona, Raphael Rezende e Maurício Noriega) tem a pior equipe de comentaristas dos canais fechados, além de alguns narradores claramente sem estar à altura do porte do evento. Talvez o virtual monopólio que a emissora detém dos eventos nacionais a tenha deixado um pouco “acomodada”.
11) O 1% mais rico é hipócrita
Os mesmos que gritavam “não vai ter Copa” e xingaram a Presidenta Dilma não perderam uma partida da competição, especialmente nos camarotes e “áreas de hospitalidade” das arenas. E voltavam a falar mal assim que as partidas acabavam.
Aliás, o efeito dos xingamentos sobre a população parece ter sido o inverso do pretendido pelos orquestradores.
12) Fifa vs Polícia Civil carioca, clássico surpreendente
Está engraçado ver a Fifa claramente incomodada com o fato de a Polícia Civil carioca ter desbaratado um dos esquemas de “cambistas” oficiais de venda de ingressos. Segundo o jornalista inglês Andrew Jennings, 40% dos ingressos da competição são desviados para estes esquemas paralelos, semi oficiais.
13) Ingressos de patrocinadores, para onde foram?
Os melhores lugares dos estádios foram reservados para os patrocinadores, em alguns jogos deixando alguns claros. Enquanto isso, entradas “Categoria 1” foram colocadas em lugares longe de serem nobres – basta o leitor ler o texto sobre Colômbia e Uruguai para entender o que estou dizendo.
14) Os jogadores estrangeiros se sentiram em casa
Podolski, da Alemanha, hoje escreveu “É Tudo Nosso” em sua conta em uma rede social. É um bom exemplo de como as características do Brasil agradaram aos jogadores de outras seleções.
15) Interação com os turistas foi excelente
Já tem gente em tom de brincadeira dizendo que no carnaval do ano que vem teremos um “baby boom” de crianças com dupla nacionalidade, tal o calor com que os (e as) turistas foram recebidos aqui. Brincadeiras à parte, o congraçamento e a alegria inerente ao nosso povo criaram um clima bastante amigável para os forasteiros.
Obviamente, ocorreram pequenos problemas, envolvendo especialmente os argentinos – e, em menor escala, os uruguaios.
16) Torcida brasileira aprovada? Sim e Não
Já foi exaustivamente debatido o comportamento de nossa torcida nos jogos da Seleção Brasileira, torcida esta formada em sua esmagadora maioria por pessoas que não têm hábito de ir a estádios. Com ligeira ressalva ao jogo de Brasília, onde talvez o bom número de cariocas presentes tenha atenuado um pouco a questão.
A comparação fica ainda mais vexatória quando se percebe que algumas partidas de seleções sul americanas (especialmente) tiveram clima de “Copa Libertadores” em termos de comportamento do público. A meu juízo fica claro que o direcionamento claramente político dado para se definir os locais onde o Brasil jogaria prejudicou o lado esportivo.
Por outro lado, o lado galhofeiro se manifestou de forma ampla, tendo como exemplos o “Segunda Divisão” dos curitibanos para Irã e Nigéria e o “Vergonha, time sem Vergonha!” que Bélgica e Rússia (merecidamente) ouviram aqui no Rio. O comportamento nas partidas de outras seleções foi adequado, em média.
17) Fizemos a “Copa das Copas”?
Este slogan, tomado como chacota no início, acabou se transformando em algo bem próximo do correto. Há problemas, naturais em uma competição deste porte – e vários deles, responsabilidade da Fifa, como as brigas dentro dos estádios e as filas nos bares. Mas a competição se desenvolve a contento.
Mas a não ser que haja alguma grande tragédia nos dias que restam, no imaginário dos amantes do futebol a imagem que residirá será que, sim, fizemos a “Copa das Copas”. Isso não significa perfeição, que fique claro.
E vamos aproveitar o que falta.
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