O Carnaval de 1994 traria uma novidade que provocava calafrios nas escolas de samba, especialmente nas menores. Com o intuito de reduzir o número de agremiações do Grupo Especial de 12 para dez, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo decidiu que as quatro últimas colocadas seriam rebaixadas para o Grupo 1, que continuaria levando duas agremiações para o primeiro grupo.

anhembi1994Com o intuito de “criar uma identidade própria” para o Carnaval de São Paulo, foram realizadas reformas no Sambódromo do Anhembi – ampliado de 12 para 33 mil lugares – visando  a aproximar a Passarela do Samba do projeto original do arquiteto Oscar Niemeyer (pelo menos até segunda ordem pois, pouco antes de morrer, ele negou a autoria).

A afirmação da Gaviões da Fiel no Grupo Especial havia aumentado consideravelmente a popularidade do Carnaval paulistano. A torcida do Corinthians, que já se identificava com a Vai-Vai por conta das cores e da própria torcida da escola, aderiu à escola do Bom Retiro, que passava a possuir uma das maiores torcidas da cidade. Quem também ganhou com tudo isso foi o Camisa Verde e Branco, que acabou ganhando o apreço de alguns torcedores do Palmeiras. Embora a agremiação da Barra Funda não tenha qualquer ligação com o Verdão, o nome levava o Camisa a ser uma escolha natural de alguns palmeirenses para não ficarem “órfãos” nessa briga.

A briga pelo título prometia ser intensa. A maior atenção dada pela mídia ao desfile paulistano provocou um aumento de 20 a 50% no investimento das escolas, que, embora apenas 25% do que gastava uma escola de ponta do Rio, apresentava um crescimento interessantíssimo. O lado negativo era que o dinheiro vindo da mídia convenceu a Prefeitura a cortar a subvenção pública para as escolas. Em 1994 foram liberados 700 mil dólares e a verba para 1995 já estava garantida. Para 96, no entanto, a ideia da Prefeitura era “desestatizar” os desfiles que, ao menos em teoria, já se viravam bem sem dinheiro público. À época, sem impedimento do regulamento, algumas escolas estamparam os nomes de seus patrocinadores em algumas alegorias.

O Carnaval de 94, porém, já prometia ser muito polêmico. Visando a sempre chamar a atenção da mídia, a administração do Anhembi, responsável pela organização do desfile e pela escolha dos jurados queria dar “o charme e o status que o espetáculo precisa ter”. Um dos métodos para se chegar em tal charme e status, porém, foi bastante questionável: foram chamados jurados VIP para julgar os desfiles. Chiquinho Scarpa, Billy Blanco, Zé Rodrix, Pedro de Lara, Ronaldo Ésper, Paulo Moura e Abelardo Figueiredo eram alguns dos nomes selecionados por “serem pessoas de bom gosto”, como explicava David Row, responsável pela lista, à Folha de S. Paulo de 15 de fevereiro de 1994. Também foi alterado o regulamento e os descartes foram abolidos. As notas passaram a ser fracionadas em 0,5.

As movimentações nos microfones foram intensas. Eliana de Lima deixou a Unidos do Peruche para voltar a cantar na Leandro de Itaquera ao lado de Xixa. A Peruche, porém, estava razoavelmente bem servida pois um tal de Jamelão viria ao Anhembi para interpretar o hino da Filial do Samba para aquele Carnaval. Outro grande nome que se ausentou do desfile foi Thobias da Vai-Vai, que deixou os microfones da Saracura ao brigar com alguns diretores da escola. Em seu lugar, veio Agnaldo Amaral, que havia cantado alguns anos antes pelo Camisa Verde e Branco. A Barroca Zona Sul também traria uma mulher para interpretar seu samba, a Bernardete.

A briga pelo título prometia ser intensa. Campeãs de 1993, Camisa Verde e Branco e Vai-Vai falariam sobre o sonho de ser eternamente jovem e sobre a criação do universo, respectivamente. Fechando o “trio de ferro”, a Rosas de Ouro tentaria voltar a ser campeã com uma homenagem à cantora Ângela Maria. Depois de voltar a brigar na parte de cima da tabela no Carnaval anterior, Nenê de Vila Matilde e Mocidade Alegre falariam respectivamente sobre a história da cidade de Ilhabela e sobre o congraçamento entre os povos da América Latina.

A Leandro de Itaquera prometia fazer um desfile carregado de tecnologia para falar sobre o Rio Tietê, enquanto a Gaviões da Fiel vinha falando em brigar pelo título com um enredo sobre a história do tabaco. A Unidos do Peruche trouxe para a Avenida um enredo sobre o candomblé e seus orixás.

Tentando se recuperar de seu último Carnaval, a Barroca Zona Sul, tendo Luiz Fernando Reis de Carnavalesco, escolheu uma crítica à descaracterização do índio brasileiro como enredo, enquanto a Acadêmicos do Tucuruvi tentaria se firmar no primeiro grupo falando sobre a cultura e a música como ferramenta para unir o povo brasileiro. Vindas do segundo grupo, Unidos de São Miguel e Primeira da Aclimação estreavam no Grupo Especial com enredos sobre a história dos escravos negros e sobre o vinho, respectivamente.

Primeira a desfilar, a emergente Unidos de São Miguel vinha amparada pela comunidade da Zona Norte e por uma grande estrutura. A escola contratou o conhecido Gogó do Gato para cantor e um dos melhores diretores de bateria da época, Mestre Lagrilla, vindo da Leandro de Itaquera, para comandar a batucada da escola. Na defesa do enredo “Encontro das Nações Africanas no Brasil”, a escola fez uma boa apresentação, apesar da chuva que já começava a cair sobre o Sambódromo.

A escola admitiu o auxílio de esculturas e materiais de outros anos do Carnaval Carioca para montar suas alegorias, razoavelmente grandiosas e com certo luxo. Bem grandiosos para um estreante, os carros surpreenderam quem já estava no Anhembi. Dentro das suas grandes limitações, a escola fez um bom desfile amparada por um bom samba que lhe dava a esperança de escapar do rebaixamento.

Na sequência, quem entrou na Avenida foi a Primeira da Aclimação para estrear no Grupo Especial com o enredo “O vinho da verdade”. Com a pista seca, a escola fez aquele que, para muitos, é o pior desfile da história do Anhembi. As alegorias estavam extremamente mal feitas, mal desenvolvidas e mal acabadas. O samba estava longe de ser dos melhores e a escola fez uma apresentação desesperadora.

Os carros alegóricos estavam praticamente sem adereços e não representavam nada. Tinham altura e só. Para o leitor ter ideia, a média era de uma escultura e alguns destaques por carro. Não havia mais nada. As fantasias, simples, não tinham nenhum luxo. Algumas eram apenas uma espécie de cartaz com as bandeiras de alguns países coladas ou barris de papelão colados em um pedaço de papel colorido de vermelho. O desempenho do carro de som comandado por Lelo Garoto também esteve longe do ideal e até a bateria errou tudo o que podia e mais um pouco. O desenvolvimento do enredo também foi ruim e algumas alas pareciam se repetir.

A alegria e a garra dos componentes salvou a escola de um desastre ainda maior e até provocaram uma boa resposta do público presente no Sambódromo do Anhembi. O Presidente da escola chorou ao final da apresentação da Primeira da Aclimação. O rebaixamento era muito mais que provável.

Com Jamelão nos microfones, a Unidos do Peruche foi a terceira escola a pisar no Anhembi para defender o enredo “O Reino de Oyó pelos olhos de Xangô”. A Filial do Samba enfim voltaria a fazer um bom desfile, mas enfrentaria uma série de problemas ao longo de sua apresentação.

A chuva que voltava a desabar com força sobre o Anhembi atrasou em 21 minutos a entrada da escola na Avenida. Assim, ao invés de 70, a Peruche teria apenas 49 minutos para fazer sua apresentação. O desfile da escola do Parque Peruche foi o melhor que os perucheanos apresentaram no Anhembi até então. Apesar do desenvolvimento um pouco confuso do enredo, as alegorias estavam muito bonitas e luxuosas e as fantasias, apesar de ligeiramente mais simples também estavam de muito bom gosto.

Só que a chuva estava mesmo decidida a prejudicar a Filial do Samba. Os carros alegóricos foram se desmanchando ao longo da Avenida. Os adereços foram se perdendo e o efeito desejado não foi alcançado. O carro que representava Exu, o segundo, empacou no meio da Passarela do Samba, teve que ficar estacionado no recuo da bateria e aumentou o desespero dos perucheanos.

O ponto positivo do desfile foi a exibição sempre impecável do Mestre Jamelão e a garra dos componentes que, mesmo com o temporal e todos os problemas dele decorrentes, cantaram forte o bom samba da escola. Por conta de diversos problemas, a Peruche estourou em nove minutos o tempo máximo de desfile e poderia perder até 14 pontos na apuração.

Quem também enfrentou alguns problemas foi a Mocidade Alegre, que apresentou o enredo “Somos todos irmãos”, sobre a união dos povos da América Latina. A chuva também prejudicou a escola do Bairro do Limão que teve que deixar alguns de seus carros na concentração por não ter como alinhá-los para entrar na Avenida.

Os carros da escola, tal como os da coirmã Peruche, foram se desmanchando por conta do temporal. As alegorias tinham relativo bom gosto, as fantasias também, mas tudo se perdeu por conta da chuva. Os problemas de evolução, claro, foram grandes e a harmonia da escola foi prejudicada por conta do samba-enredo que não era dos melhores. O enredo, a propósito, também não foi desenvolvido com muita clareza.

É difícil medir o quanto o desfile foi prejudicado pela chuva, mas me parece que a Morada do Samba já faria uma apresentação inferior à dos anos anteriores mesmo em condições normais. Por isso e por todos os problemas, a Mocidade deixava a Avenida sem qualquer esperança de ser campeã. Uma apresentação para se esquecer.

leandro1994Ironicamente, a chuva parou justamente quando uma homenagem para o Rio Tietê começou a tomar o Anhembi. Falando em brigar pelo título, a Leandro de Itaquera foi a quinta agremiação a entrar na Passarela para defender o enredo “Tietê – um rio de verdade”. A Leandro de Itaquera fez, sem sombra de dúvidas, o melhor desfile de sua história e pela primeira vez se credenciava de fato à briga pelo título.

Voltando para a escola da Zona Leste, Eliana de Lima animou o Anhembi com o bom samba da escola e auxiliada pelos cacos excelentes do saudoso Xixa. O samba, porém, esteve longe de ser o destaque da Leandro em seu desfile de 1994. O enredo era muito interessante, pois pretendia contar a história do Rio Tietê e fazer um paralelo com a história do Estado de São Paulo. Ainda havia espaço para uma reflexão importante sobre a necessidade de despoluí-lo.

A Leandro impressionou pelo luxo e pela grandeza dos carros. Desde a comissão de frente, as fantasias impactaram a todos pelo impecável acabamento e pela excelente divisão cromática. O primeiro setor, que falava sobre os indígenas que ocupavam as margens do rio em seu início – quando se chamava Anhembi -, teve muito verde alternado perfeitamente com o azul e o branco. O carro abre alas foi o melhor a passar pelo Anhembi naquela noite. Imponente, muitíssimo bem acabado e luxuoso, foi a representação mais perfeita possível de um período em que tudo em volta do Tietê era mato.

A divisão cromática seguiu cm perfeição no segundo setor, que falava da chegada dos colonizadores e dos recursos explorados na região. Nesse ponto do desfile, o branco passou a ser alternado com muito dourado e vermelho. O segundo carro estava ainda mais bem acabado que o primeiro, enquanto as fantasias seguiram o mesmo padrão de luxo e bom gosto.

O terceiro carro, chamado “Tietê”, destoou do resto. Mal acabado e mal concebido, não parecia fazer parte do resto do desfile. O carro que criava uma usina hidrelétrica no Tietê foi o mais surpreendente daquele Carnaval pois usou de uma tecnologia que nunca havia sido usada em São Paulo até então. Os setores finais, falando sobre o Tietê na atualidade eram muito interessantes, pois alternava uma visão bacana do rio como cartão postal com o lado crítico da poluição e das enchentes. Muita crítica e bom humor para encerrar um grande desfile.

O último carro, por exemplo, era sensacional. Com o nome “Via Expressa”, lembrava que todo aquele verde havia se transformado em uma via importante para a cidade. O carro, apesar de ter uma concepção difícil de ser executava, foi muito bem desenvolvido. Nesse padrão de qualidade, e ainda por cima contando com um desempenho impecável da bateria, a Leandro de Itaquera se tornou uma das grandes favoritas ao título. Aclamada com gritos de “é campeã”, a Leandro chegou ao final da Passarela com a sensação de dever cumprido. Alguns componentes tentaram voltar para a Avenida, mas não obtiveram sucesso.

Em contrapartida, a Acadêmicos do Tucuruvi fez um desfile desastroso na defesa do enredo “Calçadas Musicais”. O carro abre-alas não conseguiu entrar na Avenida e, com isso, a agremiação da Cantareira só entraria com seis carros e não com o mínimo de sete. Aos berros, o Presidente Hussein Abdo El Selam, desesperado, ordenou que as letras que formavam o nome Tucuruvi fosse carregadas por componentes da escola logo atrás da comissão de frente.

O desfile, repito, foi um desastre. O enredo, confuso, rendeu alegorias de baixíssimo impacto e que passaram longe do bom gosto. Simples, pouco adereçadas e pequenas, estavam de acordo com o baixo nível das fantasias. A escola tinha claramente deficiências financeiras em relação às demais. O bom samba não foi bem cantado pelo intérprete Djalma Pires e a harmonia também não viveu grande noite. O baixíssimo nível técnico do desfile da Tucuruvi comparava-se apenas ao da Primeira da Aclimação. Das quatro rebaixadas, duas já estavam definidas com toda a certeza.

rosas1994cPassado o desastre do Zaca, foi a vez de outra favorita pisar na Avenida: a Rosas de Ouro, que traria para a Avenida uma homenagem à cantora Ângela Maria através do enredo “Sapoti”. Uma polêmica grande, porém, marcou os minutos anteriores ao desfile da Roseira: irritada, a cantora que seria homenageada pela escola disse que não iria desfilar.

Ângela teria se irritado com uma declaração do Presidente Eduardo Basílio de que ela teria cobrado um bom dinheiro da agremiação da Freguesia do Ó para desfilar. Nos camarotes, ela disse que só entraria na Avenida se ouvisse um pedido formal de desculpas de Basílio. Tranquilo, ele disse que nunca havia dito nada daquilo, mas que se desculpava pelo transtorno. Ainda assim, a cantora bateu o pé, agradeceu a toda a comunidade do Rosas, desejou boa sorte, mas ficou de fora.

Na Avenida, nenhum problema para a Rosas de Ouro. A escola mais uma vez mostrou porque era uma das maiores favoritas. Apesar do samba-enredo não ser uma obra-prima, Royce do Cavaco teve mais um desempenho magnífico do início ao fim do desfile e abrilhantou uma apresentação quase impecável da Roseira que levantou o público nas arquibancadas como nenhuma outra até então. O abre-alas, se não era dos mais bonitos, foi o mais impactante da noite, com uma iluminação belíssima e um excelente acabamento.rosas1994

O enredo foi desenvolvido com correção pelo excelente Tito Arantes. A história da cantora ganhou uma intensa pesquisa e não se limitou ao esquema “uma ala por música”. Os primeiros setores foram dedicados à sua infância e a era do rádio. O apelido dado pelo Presidente Getúlio Vargas, de “Sapoti”, embalou todo o enredo, que não citava o nome “Angela Maria“. Do início ao fim, ela era “Sapoti”.

A divisão cromática foi interessante, usando muito do azul e do branco e gerou fantasias luxuosas. Faltou, no entanto, usar mais outras cores, como foi feito já na parte final, quando o verde apareceu com maior destaque. De fato o bom gosto não foi o mesmo do início ao fim, mas eram poucas as fantasias que destoavam do resto. Um exemplo é a do quarto casal de mestre-sala e porta-bandeira, toda em azul, que estava sofrível. Por outro lado, a ala “Dança do Fado” foi, talvez, a mais interessante de todo o Carnaval. Vários casais surgiram dançando o fado com roupas diferentes. Um show de criatividade.

As alegorias, por sua vez, foram impecáveis do início ao fim. Tito Arantes explorou outras tonalidades como o amarelo e o dourado no carro que lembrava os prêmios conquistados por Ângela Maria. O carro da TV em preto-e-branco foi o pior do desfile. A Rosas de Ouro fez, no geral, um desfile que prometia brigar ponto a ponto com a Leandro de Itaquera, que havia sido um pouco superior, mas alguns problemas comprometeram gravemente o desfile. A chuva, apesar de voltar a cair com força, não foi a culpada.

A evolução enfrentou alguns problemas que levaram inclusive a uma troca na ordem das alas. Por um erro de organização, uma ala da escola desfilou sem fantasia e, para piorar, o carro chamado “Babalu” entrou na Avenida totalmente danificado e fora de ordem. A princípio, ele nem entraria, mas, no fim, foi feito um esforço para que ele entrasse por último. Não haveria perda de pontos por não ter desrespeitado o número mínimo de alegorias, mas certamente haveria penalização em vários quesitos. No fim das contas, foi um bom desfile, mas que não convenceu. Apesar de levantar o público, a Roseira parecia não ter chances de levantar a taça.

camisa1994Na sequência, outro grande favorito ao título, o Camisa Verde e Branco entrou na Avenida para contar o enredo “Eternamente Jovem” e tentar o bicampeonato. O Trevo da Barra Funda foi outro a enfrentar uma série de problemas em seu desfile. A escola foi muito aclamada em sua entrada na Avenida e, cercada de expectativa, prometia a garra habitual para conquistar mais uma taça.

Falando sobre o sonho das pessoas em serem eternamente jovens, o Camisa apresentou um desfile inferior ao dos anos anteriores. As alegorias, apesar do luxo habitual, não foram tão bem concebidas pelo Carnavalesco Augusto Oliveira. O grande destaque do desfile foi logo na Comissão de Frente, com belíssimas fantasias em laranja e branco para falar de Ponce de León, navegador espanhol que viajou para a América com Colombo e tentou achar a fonte da juventude.

O pede passagem e o abre-alas, porém, já apresentavam qualidade bem inferior. O primeiro carro, todo em verde, era imponente, mas falando o português claro, era bem feio. O carro da maquiagem é outro exemplo: apesar de uma concepção interessante, estava muito mal acabado. O último carro, todo em branco, foi o ápice do mau gosto e nem luxo apresentou. Estava no nível das piores escolas que haviam passado pelo Anhembi até então.

As fantasias do primeiro setor estavam mais pobres que de costume e alternaram muito o verde e o branco. O enredo pedia mais criatividade na divisão cromática e isso faltou na apresentação da escola. O verde foi predominante e quase unanime do início ao fim. Com o tempo, até o branco foi sendo deixado de lado.

O bom samba não “pegou” na Avenida e nem o belo desempenho da Bateria Furiosa evitou que o público fosse, aos poucos, se aquietando nas arquibancadas. Foi um desfile que pretendeu ser bastante técnico, que teve uma evolução quase perfeita, mas que pouco lembrava o Camisa Verde e Branco. O enredo foi desenvolvido com uma boa mistura de história e bom humor, sendo outro ponto positivo.

As chances de título foram por água abaixo quando um dos sete carros da escola não entrou na Avenida e provocou uma penalização para o Trevo. Foi uma apresentação decepcionante e que não deveria levar a escola aos primeiros lugares.

Com a garoa voltando a cair sobre o Anhembi, a Vai-Vai entrou na Avenida para tentar o bicampeonato com o enredo “Inã-Gbe: pegando fogo”. A Saracura mais uma vez fez um grande desfile e se credenciou às primeiras posições. O samba, que não era dos melhores, foi salvo por uma interpretação sensacional do intérprete Agnaldo Amaral e por mais um show da Bateria do Mestre Tadeu. As arquibancadas responderam melhor que ao Camisa, mas não tão bem quanto no desfile do Rosas.

A comissão de frente, simples, mas bem coreografada, pecava pelo acabamento ruim das fantasias para começar a contar a história da criação do Mundo que a escola pretendia retratar. O abre-alas era bastante diferente e impactante. Quase todo em branco, tinha esculturas gigantescas de seres mitológicos e apresentava um acabamento irrepreensível.

Aliás, a escola parecia ter alguma deficiência financeira em relação as outras favoritas ao título, mas soube usar cada centavo de que dispunha em fantasias criativas e de ótimo defeito. A divisão cromática dentro dos setores poderia ser melhor explorada, mas, de maneira geral, foi muito boa.

Os dois melhores carros foram o segundo e o terceiro. O segundo, chamado “Contrastes” trazia o Sol e Lua, o homem e a mulher dentre outros opostos com um impacto excelente. O terceiro, chamado “Via Láctea”, também estava à frente do que o Carnaval de São Paulo costumava apresentar na época e estava muito bem iluminado.

O enredo era um pouco confuso, mas devo repetir, ganhou ótimas fantasias representando o fogo, as explosões, os planetas, dentre outras coisas que, de alguma forma, faziam sentido dentro do que a escola queria apresentar. Até pelo potencial econômico reduzido, a Escola do Povo não parecia capaz de bater a Leandro de Itaquera, mas fez um dos melhores desfiles da noite até o finalzinho, quando os carros foram se desmanchando por conta da chuva, o cronômetro foi estourado e uma apresentação pirotécnica foi julgada como imprudente pela Liga. Ao todo, a escola perderia 17 pontos e estava fora da briga. Mais do que isso: era uma enorme candidata ao rebaixamento.

A décima escola a entrar na Avenida foi a Nenê de Vila Matilde, que homenageou a cidade de Ilhabela através do enredo “Pira-ique, Mistério e Magia”. Contando mais uma vez com o talento do Carnavalesco Pedro Luis Pinotti, a Águia da Zona Leste fez um desfile bastante razoável.

A chuva voltava a cair e aí a sorte estava do lado da Nenê, que tinha pouquíssimas fantasias com plumas. Assim, a água não prejudicou tanto o conjunto plástico da escola. Uma falha amadora, no entanto, comprometeria o desfile da Nenê: a escola simplesmente se esqueceu de entregar aos jurados o livro com a ordem das alas, a sinopse, etc. A falha custou dois pontos da azul-e-branco.

Na Avenida, as coisas foram razoavelmente bem. O samba, se não era dos mais poéticos, conquistou a arquibancada, foi bastante cantado pelos componentes e ganhou uma boa interpretação do sempre competente Dom Marcos. O enredo, de difícil entendimento, ganhou alegorias de bom nível e belas fantasias.

Não houve espaço para muito luxo, mas o bom gosto esteve presente. Exceção feita ao abre-alas, grande demais em comprimento e pequeno demais em largura, o que fez a águia da escola, digamos, encolher os braços, a Nenê apresentou carros bastante compactos e bem acabados. O azul do mar do litoral foi muito bem explorado nas alegorias aproveitando-se, claro, da cor da escola, que ainda usou do dourado e do vermelho nas alas que remetiam aos colonizadores. Ainda assim, era inegável que a Nenê mais uma vez passava por deficiências financeiras graves. O melhor carro, de longe, foi o último, que trazia a representação de uma caravela cheia de destaques muito bem fantasiados que simbolizavam piratas e corsários.

As fantasias, tal como as da Vai-Vai, eram muito bonitas e criativas. Pinotti usou muitas cores em uma mesma fantasia. Usou o verde, o rosa, o roxo e, claro, o azul e o branco da maneira mais correta possível, provocando ótimo efeito. Não foi um desfile para título, mas foi uma boa apresentação que, dado os problemas das concorrentes, poderia render uma boa colocação à escola da Zona Leste.

Já com o dia amanhecendo, a Barroca Zona Sul foi a penúltima escola a entrar na Avenida. Tentando superar os últimos desfiles ruins, a verde-e-rosa contou o enredo “Nas ocas da Barroca, o índio viu quem invadiu”. As primeiras imagens eram animadoras, pois a escola trouxe uma comissão de frente espetacularmente bem coreografada e um abre-alas muito bonito, imponente e luxuoso. No entanto, o que se viu na sequência, apesar de longe de desastroso, não foi tão bom.

A diretoria da escola falava que a Barroca “não vinha para ganhar e sim para competir”. Os problemas financeiros eram tão grandes que, sem fantasia, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira não desfilou. Ainda assim, o talento do Carnavalesco Carioca provocou um desfile bastante simpático, auxiliado por um samba bonito e empolgante muito bem cantado por Bernardete.

O primeiro setor, vindo logo atrás do abre-alas, tinha fantasias muito simples, mas que conseguiram um efeito muito bonito, principalmente por conta da divisão cromática que explorou diversas tonalidades diferentes. Esse setor falava sobre o período indígena anterior a chegada dos portugueses. Diga-se de passagem, o enredo foi desenvolvido com bastante correção.

O segundo carro, no entanto, já era muito inferior ao abre-alas tanto em concepção quanto em acabamento. Nas outras alegorias, eram evidentes os problemas financeiros, mas tudo acabou até bonito. O carro da invasão portuguesa, o terceiro, era pequeno, bem pequeno, mas foi bem acabado. E assim o desfile seguiu até o fim. A criatividade salvou a escola de um desastre e a chance de rebaixamento era pequena.

gavioes1994Para sacudir o Anhembi no último desfile de 1994, a Gaviões da Fiel fez uma apresentação primorosa com o enredo “A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente”, que falava sobre o cigarro. O samba da escola era o melhor do ano e um dos melhores da história da escola e a Torcida que Samba foi a única a assustar a Leandro de Itaquera. O grande Carnavalesco Raúl Diniz fez um de seus desfiles mais brilhantes e provocou um dos pontos altos da noite.

Já nas primeiras alas, ficava evidente o luxo que a escola traria para a Avenida. Muitas plumas, muitas fantasias grandiosas, muito bem acabadas e de fácil entendimento. A divisão cromática beirou a perfeição. Com a limitação de não poder usar verde, proibido até hoje, o Carnavalesco explorou todas as outras tonalidades dentro dos próprios setores. O efeito não poderia ter sido melhor. O abre-alas não era o melhor que havia passado pelo Anhembi e talvez tenha sido um dos poucos pontos decepcionantes da apresentação da Fiel Torcida. Já o último carro, que falava sobre os riscos do cigarro, tinha algumas impactantes imagens de caveiras – uma delas com um coração sobre o cérebro – e foi um dos melhores da noite.

A fantasia do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, toda em branco, foi a mais bela da noite e, aos poucos, a Gaviões ia surpreendendo e se credenciando a briga pelo título. O ponto alto do desfile foi a harmonia, que berrou do início ao fim o belíssimo samba. A paradinha de quase um minuto da Bateria provocou o momento de maior vibração de todo o Carnaval. O canto dos componentes foi um espetáculo.

O enredo, desenvolvido com correção, contava a história do tabaco com clareza e dava muitas possibilidades do Carnavalesco explorar a cultura árabe, o que sempre gera um bom efeito. Notei em alguns momentos que algumas alas pareciam se repetir, mas nada que comprometesse muito o desfile.

Conquistando as arquibancadas, a Gaviões da Fiel encerrou os desfiles com chave de ouro e prometia fazer uma briga acirradíssima com a Leandro de Itaquera. Dificilmente o título escaparia de uma dessas duas escolas.

Na apuração, porém, um festival de absurdos. Para começar, a Barroca Zona Sul perdeu dois contestáveis pontos por um empurrador de carros que supostamente teria desfilado sem a camisa da escola. Quem também contestou a punição para sua escola foi a Unidos do Peruche, por intermédio de seu Presidente Osmar. Segundo ele, o atraso ocorreu por conta da chuva e a escola não teve culpa.

As notas foram muito contestadas. A falta de conhecimento dos jurados VIP era evidente e as notas eram dadas de acordo com a força do pavilhão e não pelo que havia sido visto. A Gaviões da Fiel levou uma nota 6 em melodia (por muito tempo, o quesito samba-enredo foi divido em dois, letra e melodia), o que era um completo absurdo pelo samba que a escola tinha. Uma nota 7 em bateria também foi alvo de protestos.

Contando com a benevolência dos jurados, a Rosas de Ouro surpreendeu e faturou o título com 289 pontos, seguida pela Gaviões, que ficou com 285. Inexplicavelmente, o Camisa Verde e Branco apareceu em terceiro com 282, seguido pela Mocidade Alegre e pela Leandro de Itaquera, que ficou absurdamente em quinto. Na sequência, vieram Nenê, Peruche e Vai-Vai, salva do rebaixamento pela punição de dois pontos da Barroca. Com 266 pontos, a Saracura ficou meio ponto à frente da verde-e-rosa, rebaixada.

A Primeira da Aclimação ainda conseguiu ficar 14 pontos à frente da Unidos de São Miguel, que ficou com 250 pontos, 10 a mais que a Acadêmicos do Tucuruvi. No Grupo de Acesso, a X-9 Paulistana foi a campeã e chegou pela primeira vez ao Grupo Especial, acompanhada da Imperador do Ipiranga.

Curiosidades

– Pela primeira vez a Rede Globo transmitiu os desfiles de São Paulo para todo o Brasil. Emissoras de Japão, Itália e Alemanha também transmitiram o evento. Na Globo, Mariana Godoy comandou os desfiles com William Bonner.

– Aliás, para quem vê o William Bonner do Jornal Nacional, vê-lo apresentando o Carnaval é uma experiência curiosa. Parece outra pessoa. Faça-se a justiça, ele foi muito bem no comando da maratona de desfiles.

– Ainda sobre a Globo, durante o desfile da Vai-Vai, o apresentador William Bonner disse: “Carnaval Globeleza é assim: muito som e pouco papo”. Quanta diferença…

– Um componente da Unidos de São Miguel foi preso momentos antes do desfile. O motivo: passou em frente a um carro da Polícia Militar com um cigarro de maconha.

– Meses antes do acidente de carro que acabaria com sua carreira e mudaria completamente sua vida, o narrador Osmar Santos apareceu cantando e sambando muito em um carro alegórico da Rosas de Ouro.

– Primeiro ano do cantor Agnaldo Amaral como intérprete principal da Vai-Vai. Ele ainda cantaria pela escola em 1995 antes de se ausentar por quatro anos do Carnaval. Em 1999, voltou para a Saracura onde ficou até 2000. Voltou em 2004, ficou até 2006, saiu, voltou para o desfile de 2011, gravou a faixa da escola no DVD oficial, mas foi dispensado meses antes da apresentação da Saracura. Em 2013 foi um dos cantores do carro de som da Estação Primeira de Mangueira.

– Uma curiosidade observada por William Bonner: as vozes das duas intérpretes femininas do Carnaval de 1994, Eliana de Lima e Bernardete, eram muito parecidas. De fato, a interpretação foi muito parecida.

– Primeiro desfile assinado pelo Carnavalesco Marco Aurélio Ruffin no Grupo Especial. Ele teria passagens marcantes por Gaviões da Fiel, Tom Maior, Império de Casa Verde e pela própria Leandro de Itaquera nos anos seguintes.

– Aquele Carnaval também inauguraria a chamada “Era Solón Tadeu”. Nome forte da Vai-Vai, ele assumiu a Presidência da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo e tratou de repetir exaustivamente o discurso de que havia passado as bancas de jogo do bicho do Bixiga ao seu filho. O crescimento do Carnaval paulistano durante a administração de Solón foi tão grande quanto a “sorte”, digamos, da Vai-Vai no período. Mas isso é papo para textos futuros.

– Falando em Liga, a entidade acusou a organização do Anhembi de vender “ingressos fantasma”, ou seja, vender mais ingressos do que de fato vendeu, o que provocou alguns espaços vazios no Sambódromo.

– Último título da Rosas de Ouro sob o comando do saudoso Seu Basílio, que faleceu em 2001. A Roseira só conquistaria seu sétimo título em 2010, já sob o comando de sua filha Angelina Basílio.

– Um quebra-pau do high society se instalou no Camarote VIP do Anhembi. As famílias das socialites Marina de Sabrit e Mariângela Waligora tiveram, digamos, um desentendimento mais sério. Sobrou tapa e empurrão pra todo lado. Marina de Sabrit relatou o ocorrido: “A Mariângela ficou mexendo e querendo estragar a fantasia da minha filha (a atriz Patricia de Sabrit). Stephan (seu outro filho) foi lá defender a irmã e ela deu uma porrada no meu filho. Aí meu marido foi lá e a empurrou. No auge do quebra-pau, dizem os relatos, apareceu um camelô vendendo aquelas espuminhas de Carnaval para o pessoal da alta sociedade.

– O refrão principal do samba da Gaviões da Fiel “É um raro prazer / sabor de emoção / mas não abuse que faz mal pro coração” foi muito cantado em jogos do Corinthians nos anos seguintes. A letra, porém, foi “adaptada”: “É um raro prazer / sabor de emoção / fumar maconha e torcer pro Coringão”.

Links

O trágico desfile da Primeira da Aclimação
https://www.youtube.com/watch?v=mY0IbxZMrCs

Peruche com Jamelão
https://www.youtube.com/watch?v=IiXuhVyuL84

O extraordinário desfile da Leandro de Itaquera
https://www.youtube.com/watch?v=rM7p0udx40E

A campeã Rosas de Ouro
https://www.youtube.com/watch?v=jjL3lZ26JU8

A polêmica com Ângela Maria
https://www.youtube.com/watch?v=rXD1fWib0X8

O grande desfile da Gaviões
https://www.youtube.com/watch?v=x25AS8tbmhY

8 Replies to “Bodas de Prata – 1994: Rosas levanta público, conquista jurados VIP e leva título duvidoso”

  1. Só pude ler agora, por completo, bom não tenho nada a comentar sobre a apuração que foi um completo absurdo.

    A Gaviões mereceria o título porque no todo foi melhor que a Leandro, mas o assalto foi tão grande que nenhuma das duas ficou com a taça, a Leandro ter ficado em 5° foi um absurdo, repito UM ABSURDO.

    Sobre a Morada a escola era tratada com muita benevolência, na década de 90, esse desfile de 94, foi bem fraco.

    O Camisa, sofreu do mau gosto, mas gostei da garra dos componentes, apesar de tudo não brigaria por tudo.

    Vai-Vai saiu de um desfile muito bom, para um desastre, foi salva por uma manobra que rebaixou a Barroca.

    Que saudade de enredos de verdade da Gaviões, Raul Díniz, deu um show nesse ano, dane-se os jurados VIP, a escola foi a campeã de 94.

    A Leandro merecia o vice-campeonato, fez um grande desfile, um pouco abaixo da Gaviões, mas foi um ótimo desfile.

    Sobre a “Campeã”, um desfile onde a polêmica com a homenageada é o destaque não merecia ser campeã.

    E pra fechar, Aclimação e Tucuruvi, fizeram os dois piores desfiles da história do Anhembi, o tema vinho, nunca deu muita sorte, em 2006, o Camisa caiu com ele.

  2. Migão, excelente a postagem. Só algumas correções: a Bernadete já cantava no Barroca desde 1992 e o Vai-Vai perdeu 20 pontos.

    1. Na verdade, quando falei da Bernadete, falei como cantora principal. Em 93 quem puxou o samba foi um grupo de pagode. Quanto à Vai-Vai, confesso que não sabia.
      Valeu pelas correções!

  3. O primeiro casal da Barroca Zona Sul que não desfilou eram Chiquinho e Maria Helena (os mesmos da Imperatriz Leopoldinense))!!

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