Com a redução no número de escolas do Grupo Especial para 10, o Grupo Especial de São Paulo ficava mais enxuto e prometia boas brigas tanto pelo título quanto para fugir das duas últimas colocações, que levavam ao segundo grupo. Grandes potências em má fase, escolas jovens em ascensão e a estreia de uma agremiação que prometia chegar com tudo apimentavam o Carnaval de 95.
Mais uma vez, a promessa era de uma evolução no luxo e, consequentemente, nos gastos das escolas. No primeiro Carnaval após o surgimento do Real, as escolas de ponta prometiam gastar em torno de um milhão de reais para botarem o Carnaval na Avenida. A então campeã do Grupo 1, o então grupo de acesso, X-9 Paulistana, também anunciava um gasto de sete dígitos para o seu primeiro desfile entre as grandes agremiações.
A exposição do Carnaval de São Paulo na mídia naquele ano também havia crescido, muito por conta do excelente samba da Gaviões da Fiel, que já tomava as arquibancadas do Pacaembu e era muito tocado nas rádios da cidade. Os telejornais da Globo intensificaram a cobertura na semana anterior aos desfiles e, no Jornal da Globo da véspera do Carnaval, o grande destaque foram as imagens de Viola sambando no gramado ao som do hino da Torcida que Samba para 1995.
Mais uma vez, o pré-carnaval ficou marcado por trocas importantes nos microfones das escolas do Grupo Especial. Estreante, a X-9 Paulistana não poupou esforços e contratou Royce do Cavaco, que deixou a Rosas de Ouro após quatro títulos e uma passagem brilhante pela Freguesia do Ó, onde foi substituído por Edu do Rosas. A Vai-Vai voltava a contar com Thobias em seu carro de som.
Quem também surpreendeu foi a Unidos do Peruche, que contratou o carioca Vaguinho para cantar o seu samba. Cria da Unidos da Tijuca, o intérprete e compositor também já havia cantado na São Clemente e iniciou naquele ano a sua brilhante passagem pela Terra da Garoa. Já o Camisa Verde e Branco, ficou sem Juscelino e promoveu o jovem Birinha, então com 20 anos, a cantor principal.
Apesar do aumento da exposição midiática dos desfiles, no dia do cotejo ainda havia dois mil ingressos disponíveis para as apresentações do Anhembi. Até a semana anterior aos desfiles, pouco mais de quatro mil entradas haviam sido vendidas. Havia uma expectativa, no entanto, por conta dos enredos mais ousados adotados pelas agremiações do primeiro grupo, que atraíram adeptos de outras áreas para o Anhembi. Muitos roqueiros, por exemplo, quiseram desfilar na Mocidade Alegre, que homenagearia Raul Seixas.
Campeã de 1994, a Rosas de Ouro tentaria o bi com um enredo que falava sobre as grandes paixões nacionais como o futebol, a cerveja, a feijoada e, claro, o samba. Depois de surpreenderem no ano anterior, Gaviões da Fiel e Leandro de Itaquera buscavam o primeiro título com enredos sobre momentos da infância que ficam eternizados na memória e sobre o direito que todos nós temos de sermos felizes, respectivamente.
O Camisa Verde e Branco escolheu a história da ópera e dos grandes maestros como tema, enquanto a Nenê de Vila Matilde falaria de amor. A Unidos do Peruche escolheu uma linha crítica e clamou para que o samba não esquecesse de suas raízes – dizem que por conta da punição recebida em 94 -, ao passo que a Vai-Vai tentaria se recuperar do resultado ruim do Carnaval anterior com uma homenagem aos poetas paulistanos.
Vice-campeã do Grupo 1, a Imperador do Ipiranga voltava ao primeiro grupo com um interessante tema que falava sobre os momentos de alegria do brasileiro em festas populares ou no tetracampeonato mundial conquistado pela Seleção Brasileira meses antes. Já a X-9 Paulistana, estreante, tentava não só se manter entre as grandes, como também conseguir um bom resultado com um enredo sobre as cores do arco-íris.
Abrindo os trabalhos, a Imperador do Ipiranga apresentou o enredo “A alegria está no ar” e não conseguiu fazer uma grande apresentação. Com um potencial econômico visivelmente reduzido, a escola apostou em uma divisão cromática que valorizasse as cores da escola, o azul, o amarelo e o branco. Até foi uma decisão inteligente, mas que não conseguiu camuflar o visual pobre apresentado pela escola.
O abre-alas, todo em branco, era bastante simples e tinha uma pomba razoavelmente grande – e mal acabada – que quase perdeu a coroa – símbolo da escola -, que carregava sobre a cabeça. O segundo carro, todo em verde, praticamente não tinha adereços e era quase a síntese do que foi aquele desfile em termos visuais.
O fraco samba-enredo, apesar da boa letra, não conseguiu animar a Passarela e nem os componentes da agremiação da Vila Carioca. A bateria, composta quase integralmente por adolescentes, até conseguiu um bom andamento. O desenvolvimento do enredo foi interessante, abordando diversos tipos de “alegrias” do brasileiro.
O “Carro do Tetra”, por exemplo, tinha uma concepção interessante, apresentando as duas taças conquistadas pelo Brasil em Copas – a Jules Rimet e a atual -, com a primeira representada pela metade, simbolizando o derretimento. Uma pena o acabamento ruim. Ainda mais pelo alto nível esperado para aquele ano, dificilmente a escola se salvaria de mais um rebaixamento.
Prometendo uma estreia em grande estilo, a X-9 Paulistana foi a segunda a cruzar os portões do Anhembi para apresentar o enredo “Arco-íris da ilusão”, desenvolvido pelo experiente Augusto de Oliveira. A escola apresentou um desfile luxuoso e praticamente se garantiu no primeiro grupo.
O abre-alas, apesar da concepção de gosto duvidoso com vários arco-íris pequenos iluminados em neon, estava muito bem acabado e conseguiu um bom efeito. Situação parecida com a da fantasia do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira que, toda em vermelho, era de grande impacto. Aliás, as fantasias todas abusaram de plumas e penas e renderam um bom conjunto visual.
A divisão cromática usou evidentemente de muitas cores, devido o enredo e as alegorias estavam todas muito coloridas. O segundo carro, por exemplo, era muito criativo e, se não era gigantesco, estava muito bem acabado. A terceira alegoria, que retratava a relação dos homens com o arco-íris no Oriente, também foi de muito bom gosto, com esculturas realizadas com muita felicidade.
Voltando à divisão cromática, o carnavalesco foi muito inteligente ao começar o desfile pelas cores mais fortes e, aos poucos, abordar as mais claras. O ponto alto do desfile foi a ala “As cores das crianças” que trazia um boneco gigante representando um palhaço, seguido por um lindo carro que representava uma parque de diversões.
O enredo acabou se perdendo um pouco, o samba não era um primor, mas foi um excelente desfile. Em sua estreia no primeiro grupo, a X-9 correspondeu à todas as expectativas.
Depois do bom desfile da X-9 Paulistana, o Camisa Verde e Branco pisou na Avenida para tentar voltar a ser campeão com o enredo “Do palco ao asfalto: ‘O Resumo da Ópera’”, que homenageava os grandes mestres e óperas da música clássica. Mais uma vez sem conseguir ser o Camisa Verde que todos esperamos, o Trevo da Barra Funda fez uma apresentação que alternou bons e maus momentos.
A comissão de frente, que simbolizava o “início do show”, estava muito luxuosa e representava bem as “boas vindas ao desfile”. A fantasia do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira foi uma das mais belas da noite e o casal, com uma dança impecável, era garantia de notas 10. A verde-e-branco apostou mais no luxo do que na empolgação, o que até rendeu boas fantasias.
A maioria das alas tinha vestimentas luxuosas, com muitas plumas e penas e de fácil entendimento. O problema foi o excesso de verde. Especialmente nos três primeiros setores, o Camisa foi praticamente monocromático, alternando apenas os tons da cor. Também não gostei do desenvolvimento de enredo que, pouco criativo, “passeou” pelas principais obras, muitas vezes desrespeitando até a cronologia. Para quem pretendia fazer um passeio “do palco ao asfalto”, faltou criatividade.
Assim como faltou bom gosto nas alegorias. Ao menos três carros da escola ficaram muito abaixo da média para quem pretendia fazer um desfile luxuoso. O segundo, sobre os Teatros Gregos, era de difícil entendimento, não simbolizava nada, estava pouco adereçado e, para dizer o português claro, estava bem feio. O terceiro, o carro da ópera “Aída” estava muito simples e mal acabado, a exemplo do quarto, que falava sobre “Madame Butterfly” e que não chamou a atenção.
No último setor, que falava sobre as óperas brasileiras, as fantasias apresentaram uma queda grande em seu nível e passaram a se repetir. Os últimos carros alegóricos, que destacavam “O Guarani” e “A ópera do malandro”, também estavam bem simples. Para piorar, o samba-enredo não rendeu o esperado, exceção feita ao refrão principal, e gerou problemas na harmonia do Camisa. As possibilidades de título para a agremiação da Barra Funda eram praticamente desprezíveis.
A quarta escola da noite foi a Gaviões da Fiel. Já no grito de guerra, ficaram evidentes duas coisas. Para começar, a Gaviões ainda estava engasgada com a apuração do ano anterior. O intérprete Ernesto Teixeira, ao falar do samba de 95, citava o jurado Paulo Soledade, que deu um 6 em melodia para a grande obra composta por Grego, também autor do que ele frisava ser “o samba mais executado nas rádios”.
O que também ficou cristalino foi o potencial do samba-enredo da Gaviões, desde o alusivo, que comemorava os 25 anos da escola. “Amor, são 25 anos de felicidade… Amor, nossa bandeira vai cobrir toda a cidade”. Os versos, seguidos pelo samba-enredo “Coisa Boa é Para Sempre”, levantaram o Anhembi. O público nas arquibancadas cantou o hino a exaustão do início ao fim. Na própria transmissão da Globo, era possível ouvir o coro vindo do público, apoiado por uma magnífica exibição do cantor oficial da escola.
De fato, o samba era muito bonito e ajudou a escola a fazer um desfile, entrando no espírito do enredo, para guardar na memória. A comissão de frente, com palhaços fantasiados em preto e branco, dava o tom do luxo e da alegria que seriam as principais marcas de mais um trabalho muito feliz do competente Raul Diniz.
O abre-alas, apesar de prejudicado por ser apenas em preto-e-branco, estava bem bonito, lembrando o público do Jubileu de Prata da escola do Bom Retiro. O enredo, apesar de confuso, pois misturou o mundo infantil com outras festas, ganhou fantasias de fácil leitura e que, tal como o Camisa, estavam muito luxuosas.
Sem poder usar a cor verde, Raul Diniz usou bastante de tonalidades mais claras, como o amarelo, mas sempre alternando com as cores da escola – o preto e o branco – e o prata. A primeira ala da escola, ainda comemorando os 25 anos da Gaviões, tinha uma fantasia toda em prata com plumas brancas na cabeça e era gigantesca, garantindo um belíssimo efeito.
O desfile, apesar do enredo que em certo ponto não tinha mais nada de mundo infantil, ganhou belas alegorias. O carro dos esportes, que dizia que “Paixão dividida é paixão multiplicada”, provocou muita emoção ao trazer representações da Taça do Tetra e o carro de Ayrton Senna. Como se sabe, um ano antes o Brasil havia vencido o Mundial de futebol e perdido um de seus maiores ídolos no esporte.
A Gaviões não foi nem de longe a escola das alegorias mais imponentes naquele 1995, mas os carros representaram bem o que foi proposto pelo carnavalesco. O terceiro carro, o das fábulas, estava colorido em rosa e era encabeçado por um sapo que esperava o beijo da princesa. Curiosamente, o sapo parecia ter vitiligo, pois, dada a limitação do verde, veio todo em branco.
Quando a infância enfim tomou conta do desfile, a Gaviões melhorou ainda mais. As alas que retratavam as brincadeiras infantis ganharam belíssimas fantasias, com uma divisão cromática impecável e um luxo, aí sim, poucas vezes visto em São Paulo até então. Os dois carros seguintes, sobre as brincadeiras infantis e os parques infantis, ganharam de vez o público. Uma concepção simples, mas com um grande acabamento, que promoveu um grande efeito.
A alegoria do circo, aliás, foi a mais bela daquele Carnaval. Um imponente elefante precedia um picadeiro impecavelmente representado e adereçado. Os destaques do que a escola chamava de “Paraíso”, fantasiados de palhaços, brincavam o Carnaval e aumentavam o bom efeito do carro. Por fim, chegou o setor dedicado ao Carnaval com belas alas sobre pierrôs, arlequins e colombinas.
Pelo bom conjunto alegórico, as lindas fantasias, o fantástico desempenho da bateria e, principalmente, o sacode provocado nas arquibancadas, a Gaviões deixava o Anhembi com cara de campeã e provocando os gritos de “é campeã” da platéia. Qualquer uma das seis escolas seguintes, se quisesse bater a Gaviões, teria que fazer história.
A primeira a tentar foi a Leandro de Itaquera. Depois da excelente apresentação em 1994, a escola fez, ironicamente, uma apresentação extremamente infeliz na defesa do enredo “Felicidade”, que trazia uma mensagem clara: todos nós temos o direito de sermos felizes.
O primeiro problema da Leandro era mais que óbvio. Depois do que a Gaviões fez no Anhembi, a escola seguinte fatalmente não conseguiria levantar a arquibancada. A sempre competente Eliana de Lima, auxiliada pelo saudoso Xixa, até tentaram, mas não conseguiram. Até porque o samba não era ruim, muito pelo contrário, mas de fato não empolgava. Por outro lado, os componentes até que estavam empolgados.
O desfile ruim da Leandro começou pelo abre-alas. Pobre, pequeno, mal acabado e pouco adereçado, trazia um leão que lembrava mais um desenho animado que o símbolo de uma escola lutadora e guerreira. A comissão de frente tinha boas fantasias, mas a coreografia também era pobre. As fantasias do primeiro setor, apesar de bem concebidas, perderam o grande efeito que poderiam ter – especialmente pelas cores vivas muito bem escolhidas – por conta do acabamento ruim.
O segundo carro alegórico também era bastante questionável. Apesar do tamanho, tinha poucas esculturas e era de difícil entendimento. A situação piorou na terceira alegoria, que era basicamente uma cabeça de um personagem qualquer sobre uma espécie de estrela-guia rosa. Infelizmente, longe, muito longe daquilo que era a Leandro de Itaquera em anos anteriores.
Aos poucos, as fantasias foram melhorando e o enredo, apesar de simplório, foi corretamente desenvolvido pelo Carnavalesco Marco Aurélio Ruffim. Vale mais uma vez destacar que o ponto alto do desfile foi a corretíssima escolha das cores por parte de Marco Aurélio, que camuflou a falta de dinheiro e melhorou um pouco efeito. Ainda que o samba fosse melhor assimilado a medida que a escola desfilava, em um ano tão disputado, a Leandro corria seríssimos riscos de ser rebaixada para o Grupo 1.
Cercada de expectativa, a Rosas de Ouro foi a sexta escola a entrar na Avenida para defender o seu título com o enredo “Paixão nacional”. Apesar do tema popular, a escola pretendia fazer um desfile muito mais calcado no luxo que nos quesitos “de chão”. O que até fazia sentido, porque a escola do Seu Basílio não tinha exatamente o melhor samba do ano.
Falando no enredo, ele começava com uma certa carência de sentido, pois contava a história de Nabucodonosor e sua amada, fazendo um elo com os pioneiros da própria Rosas de Ouro e até Ayrton Senna, que veio na bela comissão de frente. Na sequência, entretanto, o que foi apresentado foi muito interessante. O verão, o Carnaval, o futebol, a cerveja, a feijoada, a própria Rosas de Ouro, dentre outras paixões nacionais foram muito corretamente apresentadas.
O abre-alas, representação dos Jardins da Babilônia, foi talvez o mais bonito daquele Carnaval. Luxuoso, imponente e impecavelmente acabado, mesclava o rosa e o branco de maneira brilhante. À parte o fato de ser quase monocromático – tomado pelo rosa – o primeiro setor ficou marcado por belíssimas fantasias.
O segundo carro, dos esportes, era muito criativo e bem bonito. Sob diversas representações dos mais variados esportes, havia uma quadra de vôlei com jogadores que estavam de fato jogando. Ao fundo, a taça de campeão mundial conquistada no ano anterior. Esse setor foi o ponto alto do desfile. A fantasia do hóquei foi muito bem pensada, com desfilantes usando capacetes, tacos e os patins característicos do esporte americano. A ala das crianças, que trazia bolinhas de gude, bolas de meia, dentre outras, também merece elogios.
Na sequência, o desfile perdeu um pouco da empolgação, mas não do luxo. O branco e o azul ganharam maior destaque provocando um ótimo efeito. Muitas plumas foram usadas no melhor conjunto de fantasias da noite. Apesar de não empolgar o público, a Roseira se colocava como uma possível ameaça ao título da Gaviões da Fiel, muito embora a dificuldade em colocar um dos carros na Avenida tenha comprometido a evolução da escola.
A sétima escola a entrar na Avenida foi a Unidos do Peruche, que fez o seu apelo: “Não deixe o samba sambar”. A escola prometia “pagar geral”. “Sambistas de última hora”, aqueles que compram fantasia e não sabem cantar o samba, compositores que preferem fazer marchinhas para atingirem o sucesso, a imprensa que atrapalha a evolução das escolas… Enfim, sobrou para todo mundo.
Tão preocupada em criticar todo mundo, a Peruche “esqueceu-se” do básico: fazer um bom desfile. O abre-alas sucedia uma criativa comissão de frente que simbolizava a “robotização” do Carnaval e era muito fraco. Mal acabado, todo em dourado e contando apenas com uma escultura do que parecia ser um pássaro – sem asas – a Filial do Samba não deu um cartão de visitas muito animador.
O enredo era até semelhante ao de 1991 da São Clemente, mas foi “ranzinza” demais. O samba até seguiu uma linha mais bem humorada, mas não foi o suficiente. As fantasias não tinham defeitos de acabamento, mas estavam bastante simples e a divisão cromática não foi das mais felizes. O segundo carro, chamado “Cartolas do Samba”, trazia um dirigente de escola de samba cercado por malotes de dinheiro, crítica à atenção excessiva dada à grana.
O enredo ainda conseguiu perder um pouco do sentido com alas que representavam doleiros logo atrás de uma que falava sobre o disco de ouro, representando, claro, os sambas que eram fenômenos de vendas. Também teve ala criticando o uso do celular (!!!) no Anhembi, dentre outras coisas que prejudicaram bastante um desfile que, em seu final, apresentou alegorias de péssimo acabamento.
Foi uma apresentação excessivamente mal humorada, de padrão técnico regular e que não empolgou a Passarela. Havia um risco razoável de rebaixamento, o que deu algumas esperanças à Leandro de Itaquera.
Quem também decepcionou foi a Mocidade Alegre. Oitava escola a entrar na Avenida, a Morada do Samba atraiu uma legião de roqueiros, fãs e sósias do cantor Raúl Seixas para defender o enredo “Do Rock ao Samba – Todo Mundo Maluco Beleza”. O tema, de início, encontrou resistência entre alguns torcedores da escola, mas, aos poucos, foi sendo mais bem avaliado.
Cercada de expectativa, a escola entrou na Avenida exibindo um abre-alas tristemente concebido e realizado. A ideia de retratar “as imagens que formaram Raúl Seixas” era boa, mas foi pessimamente executada. Havia apenas uma cabeça de Raúl Seixas sob uma coroa giratória e atrás de uma escadaria iluminada.
As fantasias estavam bem acabadas, mas bastante inferiores às das concorrentes em termos de luxo. As penas e plumas não foram muito usadas, o que acabou quebrando um pouco o efeito. Além do mais, as alas estavam de difícil entendimento e o enredo caiu no erro comum de jogar as principais músicas do homenageado ao longo das alas.
O segundo carro foi ainda pior que o primeiro. Aliás, hoje em dia ele estaria mais para tripé que para alegoria, já que era basicamente uma mão fazendo o sinal de “paz e amor” cercado por alguns destaques. As outras alegorias mantiveram o mesmo padrão de simplicidade. Excessivamente compactas, estavam muito inferiores às de pelo menos cinco das sete escolas que haviam desfilado anteriormente. Todas elas eram muito verticais e tinham no máximo duas grandes esculturas mal acabadas. O carro da “Metamorfose Ambulante”, por exemplo, não fazia o menor sentido pois não trazia qualquer símbolo ou imagem que remetesse a alguma coisa. A exceção foi o bonito quinto carro, chamado “Trem das Sete”, dividido em “lado do bem”, a frente, e “lado do mal”, ao fundo.
O ponto alto do desfile foi a animação dos componentes. O samba, que não era nem de longe um primor, era muito animado e levantou a escola, que cantou e sambou com alegria do início ao fim. Os “sambistas de última hora”, para aproveitar o tema do Peruche, se divertiram bastante. No fim das contas, foi uma apresentação simpática da Morada do Samba. Um desfile típico de meio de tabela, ainda mais pelos problemas na hora de colocar um dos carros na Avenida, o que comprometeu a evolução.
Contando novamente com Thobias, a Vai-Vai pisou forte na Avenida para apresentar o enredo “Deu poesia na Terra da Garoa”, uma homenagem aos poetas paulistanos. A agremiação do Bixiga entrou espalhando balões pretos e brancos pelo ar. O samba rapidamente levantou as arquibancadas, que responderam muito bem ao samba da Escola do Povo durante todo o desfile. Já com o dia amanhecendo, a escola trouxe uma bela comissão de frente que trazia componentes em preto e branco balançando bandeiras com as inscrições “Non Ducor Duco”, “não sou conduzido, conduzo”, o lema do brasão paulistano.
Para não enfrentar os mesmos problemas do ano anterior, a escola contratou arquitetos para acompanhar a construção das alegorias e, principalmente, pessoas dedicadas a evitar imprevistos com os carros na Avenida. Deu certo. As belas alegorias passaram pelas linhas inicial e final do Sambódromo sem qualquer problema.
O bonito abre-alas foi o mais criativo da noite. Trazia uma enorme cabeça de cobra em movimento, que, na visão do Carnavalesco representava São Paulo: sempre em movimento e sempre trocando “de pele”. O carro trazia ainda a pressa do paulistano, sempre preocupado com horários e o “estilo de viver” dos locais. Um carro muito bonito. O Viaduto do Chá também foi representado.
As fantasias estavam de muito bom gosto. Apesar de menos luxuosas que as de Gaviões e Rosas, atingiram um ótimo efeito, apesar do excesso de preto e branco, que dominou todo o primeiro setor da Vai-Vai. O segundo carro, sobre a força do operário paulistano, também estava muito impactante. Um tripé cheio de balões em uma roda conquistou o público, enquanto o casal de mestre-sala e porta-bandeira desfilou com uma linda fantasia e apresentou um belo bailado.
Foi um desfile muito criativo. O enredo era genial pois trazia músicas que falavam sobre São Paulo para falar sobre a cidade. “A força da grana que constrói e destrói tanta coisa bela”, por exemplo, servia de impulso para falar sobre o centro comercial de Sampa em outra bela alegoria. Depois desse carro, aliás, o nível das fantasias melhorou ainda mais e seguiu em ótimo ritmo até o fim.
O desempenho da Bateria de Mestre Tadeu foi, mais uma vez, irrepreensível. Com uma bela apresentação, a Saracura se colocava, ainda que com poucas chances, na briga pelo título.
Para terminar, a Nenê de Vila Matilde partiu para enfim superar a má fase com o enredo “Eu te amo”. O desfile, porém, começou com dois problemas. O primeiro foi com o abre-alas, que emperrou na linha de início do desfile. O segundo foi com um cronômetro, que disparou sem que a escola percebesse. Alguns componentes disseram que não ouviram por conta do alto som da bateria. Fato é que Seu Nenê ordenou que ninguém entrasse enquanto não ficasse tudo no zero, mas não adiantou. O hino da escola só começou a ser cantado pelo intérprete Dom Marcos quanto o cronômetro marcava 12 minutos e 30 segundos dos 65 de que a escola dispunha. Isso, claro, complicou toda a evolução da escola que, no entanto, conseguiu terminar sua apresentação no tempo exigido.
Ainda assim, a tensão atrapalhou um pouco a harmonia da Águia, que, façamos justiça, fez um desfile de muita garra e que só não assustou a Gaviões da Fiel por conta de tudo o que já foi relatado. O sol que brilhava sobre o Anhembi colaborou para abrilhantar a linda comissão de frente com componentes em azul e amarelo e o fantástico abre-alas todo em branco com um coração que carregava o nome da Nenê.
O Carnavalesco Pedro Luis Pinotti acertou em cheio na escolha das cores, usando muito o verde, o vermelho, o azul, o branco, o amarelo, com lindas fantasias representando as famosas histórias de amor e os diversos tipos de amor. O segundo carro, apesar de mais simples, estava muito bem acabado. Na sequência, o destaque foi a ala “Lampião e Maria Bonita”, em laranja e amarelo, que estava muito bonita e foi seguida por outra de muito bom gosto, falando sobre Xica da Silva. A ala “Romeu e Julieta”, em azul claro e rosa, também estava muito bonita. O terceiro carro, chamado “A luz da felicidade”, foi outro ponto alto do desfile.
O enredo foi muito bem desenvolvido, as fantasias estavam muito claras e permitiam aos desfilantes ficar bastante à vontade para, na medida do possível, esquecer os problemas e cantar o samba da escola. Em suma, um grande desfile. Uma pena que as adversidades tirassem da escola qualquer chance de ser campeã. O título deveria mesmo ficar com a Gaviões, com Rosas e Vai-Vai correndo por fora.
E, na apuração, tudo saiu como esperado. A Gaviões foi a campeã com 293 pontos, seguida pela Rosas de Ouro, que somou 288 pontos, tal como a Vai-Vai e, surpreendentemente, o Camisa Verde e Branco. A X-9 Paulistana estreou com um honroso quinto lugar, seguida pela Nenê de Vila Matilde – julgada com rigor excessivo – e a Mocidade Alegre, que amargou uma sétima posição pouco comemorada.
Com 282,5, a Peruche ficou em oitavo, à frente das rebaixadas Leandro de Itaquera e Imperador do Ipiranga, que ficou 15 pontos atrás da penúltima colocada. No Grupo 1, a Tom Maior chegou ao Grupo Especial como campeã. A Pérola Negra ficou em segundo e também subiu. Ambas fariam em 1996 seus primeiros desfiles no Grupo Especial no Anhembi.
Curiosidades
– A Globo mais uma vez transmitiu os desfiles de São Paulo para todo o Brasil, abrindo as transmissões às 22h, uma hora depois do início das apresentações. William Bonner e Mariana Godoy continuaram no comando dos desfiles. A TV Gazeta transmitiu a festa desde a primeira escola.
– Primeiro ano de Royce do Cavaco na X-9 Paulistana, onde cantaria nos dois títulos da escola da Parada Inglesa em 1997 e 2000. Depois de um período em que cantou por outras agremiações, como a Nenê de Vila Matilde, Royce voltou para a Zona Norte no Carnaval de 2012.
– Com o intuito de apresentar-se melhor aos estrangeiros, a diretoria da X-9 trazia camisetas com os dizeres “X-9 Paulistana School of Samba”.
– Já a Gaviões, tentou conquistar o público presente na beira da pista com picolés e pirulitos.
– Estreia do cantor Vaguinho no Grupo Especial de São Paulo. O intérprete sairia da Peruche e iria para a Mocidade Alegre antes de enfrentar problemas pessoais e se dedicar à religião evangélica, ficando por alguns anos afastado do Carnaval. Logo no início da década de 2000 ele voltaria para se consagrar em diversas agremiações paulistanas.
– O samba do Camisa Verde e Branco, composto pelo grande Ideval, tinha pérolas como “Madame Butterfly com jeito vai” ou “Vamos sacudir com O Guarani”. Esse ainda contando com um caco “xii” dos cantores de apoio entre o “sacudir” e o “com”.
– Primeiro título da Gaviões da Fiel no Grupo Especial, que ainda levantaria a taça em 1999, 2002 e 2003. O samba-enredo é, com folga, o mais famoso do Carnaval paulistano.
– Aliás, o memorável samba da Gaviões mais uma vez sofreu descontos. A melodia foi nota 30, mas a letra levou dois 10 e um nove.
– Nem sendo campeã a Gaviões deixou de reclamar. Depois de se sagrar campeão, o Presidente Dentinho protestou contra a nota 7, a última, a que garantiu a taça para a Torcida Que Samba, no quesito fantasia. Segundo ele, o fato da escola ter levado 10 dos outros dois jurados e 7 do último “mostrava a má intenção dos julgadores”.
– Fim da primeira passagem da Leandro de Itaquera pelo Grupo Especial. O Leão Guerreiro da Zona Leste estava na elite desde 1989 e teve uma passagem marcante pelo grande samba “Babalotim”, justamente de 89, quando as apresentações ainda eram na Avenida Tiradentes, e pelo extraordinário desfile de 1994. A vermelho-e-branco seria a campeã do Grupo 1 em 1996 e voltaria ao desfile principal.
– Ano em que as escolas pareceram abandonar os enredos críticos e optaram pela alegria, pelas abordagens positivas, seguindo linha parecida à que as escolas cariocas haviam adotado pouco tempo antes.
– O jogador Viola, no auge de seu bom momento pelo Corinthians, desfilou em três escolas: Gaviões, Leandro e Rosas. As três desfilaram em sequência e o centroavante teve que apertar o passo para não perder nada.
– Quem também “apareceu” com muita frequência em 1995 foi o tetracampeonato de futebol do Brasil, conquistado no ano anterior: Imperador do Ipiranga, Gaviões da Fiel, Leandro de Itaquera e Rosas de Ouro citaram a conquista em seus desfiles.
– Uma destaque da Imperador do Ipiranga despencou de um carro alegórico na concentração, provocando alvoroço entre os presentes no local.
– Presidente da Nenê de Vila Matilde, Seu Nenê desobedeceu uma recomendação médica de repousar após uma cirurgia no joelho e fugiu para o Anhembi. Para a reportagem da Globo, falou: “Não aguentei ficar em casa. Se morrer, tudo bem, mas enquanto estiver vivo, vou participar”.
– A Nenê, aliás, traria temática semelhante à de 1995 no Carnaval de 2014.
– O desfile da Vai-Vai, como dito, trouxe um abre-alas que falava sobre a pressa do paulistano. Para tal, tinha um relógio em sua parte superior. O problema é que, para simbolizar o ano de 1995, o “horário” retratado era 19:95. 19 horas e 95 minutos.
– Raul Seixas voltaria a ser homenageado no Anhembi no Carnaval de 2012, com a Unidos de São Lucas. A escola terminou em último lugar no Grupo de Acesso e foi rebaixada para o Grupo I da UESP, a terceira divisão.
– Como não poderia deixar de ser, a música “Ouro de Tolo”, que deu o nome a este blog, ganhou destaque no desfile da Mocidade Alegre. No quinto verso de seu samba, a Morada cantava: “Ouro de Tolo e sem problemas”.
Links
A boa estreia da X-9
O apoteótico desfile da Gaviões
A boa apresentação da Rosas de Ouro
O desfile da Vai-Vai
A apresentação conturbada e belíssima da Nenê
Grande 1995, ano de Nascimento deste que vos fala, Risos.
Sobre os desfiles: Gaviões foi espetacular, maravilhoso, apoteótico, um desfile para história, nunca um título de enredo foi tão bem adequado, esse desfile sempre me traz uma lembrança maravilhosa, minha saudosa vó, apaixonada tal como eu pelo Carnaval e apaixonada pelo Corinthians e consequentemente pelo os Gaviões, sempre que tinha tempo dizia, “bota o samba dos Gaviões aí”, era a senha para que eu pudesse aproveitar várias vezes deste sambaço que foi, o samba de 1995.
Das outras escolas, vale destacar a X-9 que fez uma boa estréia, e mostrou a força que viria a consagrar mais tarde.
Sobre a Rosas,Nenê, Vai-Vai e Camisa, fizeram desfiles muito bons, especialmente a Rosas, mas que normalmente são esquecidos, pelo grande e espetacular desfile dos Gaviões.
Minha Mocidade fez mais uma típica apresentação dela na década de 90, foi extremamente coadjuvante, e o 7°lugar foi bem justo.
A se lamentar a apresentação da Leandro, que vinha numa crescente e acabou fazendo um desfile desastroso que culminou na queda.
No mais, fica a lembrança do espetacular samba dos Gaviões, e o que aquele desfile representou para mim, que vinha minha vó sempre lembrar dele com muito carinho e orgulho, hoje torço pra outra escola, mas sempre terei carinho pelos os Gaviões, por conta daquela senhora, que mostrou como é grande e maravilhoso o Carnaval.
Confesso que prefiro o samba de 94 ao de 95 da Gaviões
O de 94 é ótimo também, mas entre os dois, prefiro de 95, é um samba extremamente gostoso de se cantar.
O que vocês acham dessa limitação de usar o cor verde pela Gaviões? A Mancha Verde também determina que seu carnavalesco não use o preto? Essas escolas ligadas a times de futebol ainda vão acabar com o carnaval paulistano.
Particularmente, acho a limitação um tanto quanto prejudicial para a escola, mas as escolas de TO estão longe de serem ruins para o Carnaval paulistano. Aliás, até onde eu sei, o preto entra na Mancha sim.
Eu acho que a Mancha aceita o preto sim, tenho quase certeza disso, sobre o verde na Gaviões, acho que isso limita de certa forma o carnavalesco, e atrapalha o conjunto visual da escola.
Sobre a questão da TO acabarem com o Carnaval, acho completamente o contrário, elas ajudam as escolas principalmente se falarmos sobre a lotação do Anhembi nos dias em que elas desfilam.
Só a Gaviões tem essa frescura! Mancha e Dragões usam todas as cores, sem problemas!
Esperamos que a Gaviões, em breve, passe a ser uma escola de samba pro paulistano, e não pro corintiano. Poderia começar tirando o escudo do clube de futebol do escudo oficial da escola de samba.
Aliás, isso parecia acontecer lá por 1999, 2000… daí voltou a frescura de “nação corintiana”, que o Ernesto teima em falar todo desfile. Desse jeito, a antipatia só aumenta!!
Esse samba da Gaviões é top-5 do Carnaval Paulistano, fácil fácil!!
Então, parece que Mancha e Gaviões não desfilam no mesmo dia, se não me engano. Se isso for verdade, é essa rivalidade trazida do futebol que me preocupa.
A Mocidade Alegre também não desfila no mesmo dia do Rosas de Ouro, por exemplo. Até aí…
Poxa, Dahi, não sabia dessa. Então, é pior do que imaginava.
Elas desfilam em dias diferentes (Rosas/Mocidade e Gavioes/Mancha) somente pra fazer um equilibrio nas noites de defiles.
Gaviões e Mancha é por causa do lance do futebol mesmo, mas há uma tentativa da Liga em equilibrar os dias, como acontece no Rio também, ás vezes dá certo, ás vezes não, esse ano o Sábado em termos de torcida tá bem mais forte.
sabe,eu aprecio os seus comentários sobre o carnaval paulista e vendo os desfiles eu acho o samba das gaviões da fiel o melhor de sua história junto com gaviões-1995 e gaviões-2003.o ano foi muito disputado e as gaviões mereceu e muito o titulo já que foi muito superior as outras.e por falar,por onde anda o intérprete da imperador do ipiranga de 1993 a 1999 e 2007 chamado serginho kt.valeu,abraços.
Cristiano, o Serginho KT cantou na Imperador pela última vez em 2007, se eu não me engano. De lá pra cá, aparece esporadicamente em algumas eliminatórias.