Li, atentamente, uma longa entrevista de uma economista brasileira radicada em Washington, Monica Baumgarten De Bolle, publicada no Brasil Econômico, a respeito do cenário político e econômico a partir do ano que vem, já prevendo uma derrota de Dilma.
Ela é diretora da Casa das Garças, ‘think tank’ neoliberal que atua como lobby organizado do mercado financeiro e tem entre seus associados: Armínio Fraga, André Lara Rezende, Gustavo Franco, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Ilan Goldfajn, João Roberto Marinho, Pedro Moreira Salles, Gilberto Sayão, Vivi Nabuco…Também tem seus escritos divulgados pelo Instituto Millenium, entidade que segue a mesma linha de “direita moderna” e é bancado por corporações, como as Organizações Globo, Editora Abril, Merryl Linch, e outros.
Bom, o artigo está aqui:
A Dra. Mônica, que é especialista em crises formada pela London School of Economics, teve a dignidade de reconhecer que o Brasil não está em crise. Ufa, que alívio.
Mas, apesar disso, ela desancou a falar mal de tudo o que acontece por aqui. Eu sou bem menos inteligente e preparado do que ela, mas ainda assim fiquei com vontade de fazer umas perguntinhas e comentários para a Dra. Mônica. Ela não vai me responder, não vai ler e nem vai me dar atenção – ela nunca vai saber que eu existo.
Mas pode ser que os leitores aqui do Ouro de Tolo, acostumados a textos mais simplórios e vindos de gente que estudou no Maracanã ao invés de Londres, compartilhem das mesmas aflições e temores que eu. Vamos a eles:
1) Juro que eu não sabia que até 2011 o cenário internacional era favorável. O que eu ouvia dizer, naquela época, era que o mundo enfrentava a pior crise econômica desde 2009, que o Euro ia se fragmentar, que os EUA iram dar o calote na dívida pública. O Lula teve a audácia de dizer que a crise mundial seria uma marolinha no Brasil e foi execrado pelos seus detratores. Agora, que tudo acalmou um pouco, a Dra. Mônica diz que aquele cenário caótico era “favorável”. Uma pena que na época eu não me lembro de alguém ter sido tão contundente como ela. Talvez ajudasse a reversão das expectativas…
2) Acho curioso que os verdadeiros planos para o Brasil em 2015 passem totalmente ao largo da campanha eleitoral e das escolhas que a população precisa fazer. O debate real acontece às sombras, nas entrelinhas e nessas entrevistas, de economistas. Sinceramente, eu desprezei o impacto político de baixar o custo da energia para o consumidor final e consequentemente afetar as margens de lucro das concessionárias de serviço público. Essa passou a ser a questão mais importante do país, o chamado “tarifaço”.
O erro maior que se atribui à Dilma no campo econômico foi esse: ter impedido que os reajustes desses preços impactassem a inflação. Não tenho condições de dizer se isso foi um desastre tão grande, mas isso importa menos… O que eu realmente gostaria era que Aécio e Marina dissessem, com todas as letras e de forma clara, que na visão deles nosso maior problema é que algumas coisas, como a conta de luz e a gasolina do carro, estão baratas demais e precisam ficar mais caras, para que as empresas que fornecem esses itens lucrem mais, já que esse lucro delas é tão importante para a dinâmica da economia… Se eles acreditam nisso com tamanha fé, qual o problema de dizer para o eleitor?
3) O que é o “Bolsa Tudo”? Não sei. Mas a Dra. Mônica acha que o “Bolsa Tudo” de alguma forma contribui para reduzir a taxa de desemprego. Ela acha que a taxa de desemprego está muito baixa, portanto precisamos ter mais gente desempregada. Claro, o emprego dela, lá em Washington, está garantido. Como não é ela que vai ficar desempregada, não tem problema nenhum defender que alguns brasileiros fiquem desempregados por aqui.
4) A Dra. Mônica é contra as desonerações tributárias. O Brasil é um país curioso: todo mundo diz que a carga tributária é alta, mas se o governo empreende uma medida para reduzir tributos de alguns setores (os eletrodomésticos da linha branca estão há 5 anos seguidos com impostos mais baratos), logo aparece gente para criticar a redução.
E ela acha um absurdo estimular a compra de veículos porque as cidades estão muito cheias de carro – é como se dissesse, você aí que não tem carro, não compre um para não atrapalhar a vida de quem já tem, por favor continue de ônibus para não ser mais um no engarrafamento.
5) Ela também deixou claro que a inflação vai subir em 2015 e que o crescimento vai ser ainda pior que esse ano. E que acha tudo isso indispensável para colocar o Brasil no lugar. Está convencida de que a futura equipe econômica não vai ter dificuldades para obter da população o apoio para o que chama de “medidas dolorosas inevitáveis”.
6) Tudo isso para que? Para readequar o país ao regime de metas inflacionárias. A coisa mais importante do mundo é trazer a inflação para o centro da meta. Eu então resolvi dar uma conferida como era o país nos tempos em que os amigos da Dra. Mônica comandavam a economia, um deles (Armínio Fraga) candidato a retornar. Podem ver:
1999 = (Inflação: 8,94%) (Meta: 8,0%) (Teto da Meta:10,0%) (FHC) 2000 = (Inflação: 5,97%) (Meta: 6,0%) (Teto da Meta: 8,0%) (FHC) 2001 = (Inflação: 7,67%) (Meta: 4,0%) (Teto da Meta: 6,0%) (FHC) 2002 = (Inflação:12,53%) (Meta: 3,5%) (Teto da Meta: 5,5%) (FHC)Para não dizer que não falei de flores, tem uma coisa muito bacana na postura da Dra. Mônica e não estou sendo irônico: ela é autêntica e verdadeira, diz com todas as letras o que seus amigos vão fazer logo que retornarem ao governo, o que parece cada dia mais certo. Gosto de gente assim, que fala o que pensa sem muitos filtros.
E a promessa é séria: fim das desonerações tributárias, reajustes dos preços controlados (energia, gasolina, telefonia, etc), mais inflação, mais desemprego, menos crescimento. Esse é o conjunto de medidas proposto pela Dra. Mônica e pela oposição conservadora para o ano que vem. Que ninguém venha reclamar depois, porque está tudo ai, para quem quiser ver.
Brasileiros, sigam felizes com suas escolhas e que Papai do Céu nos proteja. A previsão é de chuvas, trovoadas e temporais. Vou ali comprar uma galocha e um Multigrip para não ser pego de surpresa.