Eu iria escrever sobre os mundiais de vôlei e basquete masculinos, que estão ocorrendo concomitantemente, apenas ao final deles. Porém no último domingo, além do comemorarmos o 192° aniversário da independência do Brasil, também pudemos comemorar a exorcização do maior fantasma que rondava o basquete brasileiro: a Argentina. Para exaltar tal fato, entre um compromisso e outro, escrevi essa breve coluna.
Apesar da grande rivalidade existente entre Brasil e Argentina em qualquer esporte, nestes últimos 15 anos fomos eternos fregueses deles no basquete, enquanto o Brasil sofria com uma confederação completamente bagunçada (isso não mudou muito) e com uma entressafra muito forte após a aposentadoria de Oscar.
Nesse mesmo despontar do novo século, a Argentina via surgir sua maior geração da história no esporte. A geração de ouro de Ginobli, Scola e Nocioni deu à Argentina um vice-campeonato mundial em 2002, um ouro olímpico em 2004 (até hoje o único da história masculina fora do eixo EUA-Europa) e outro bronze olímpico em 2008.
Logo, nas várias oportunidades que as duas seleções se enfrentavam em torneios regionais, a seleção brasileira sempre perdia de vareio. No auge do desespero, entre 2004 e 2006, tínhamos dificuldade de enfrentar até o mistão da Argentina e houve um jogo que a Argentina ganhou da nossa seleção principal com um mescla entre o time B e o C.
Para piorar nossa situação, por uma dessas coincidências da vida, nas duas últimas vezes que o Brasil chegou à fase de mata-mata do mundial, único torneio de máximo mporte que o Brasil participava (nunca conseguíamos vaga para os Jogos Olímpicos), 2002 e 2010, logo no primeiro jogo do mata-mata enfrentamos justamente a Argentina. Claro, duas fortes derrotas.
Obs: no mundial de 2006 a seleção estava em crise profunda e sequer se classificou para o mata-mata, perdendo a vaga para a Austrália.
A medida que a década foi passando, montamos aos poucos uma seleção melhor, com mais talentos jogando na NBA. Assim despontaram Nenê, Leandrinho, Varejão e, um pouco depois, Tiago Splitter. Porém toda vez que havia uma competição importante, algo acontecia e o Brasil continuava a decepcionar, mesmo após a contratação do treinador argentino Rubén Magnano (o mago da medalha de ouro portenha de 2004), pouco antes do mundial de 2010.
Até que finalmente no pré-olímpico para os Jogos Olímpicos de 2012, aproveitando-se da vaga automática dos EUA, finalmente o Brasil voltou a se classificar após 16 anos.
Foi um começo de Jogos Olímpicos promissor, com direito a vitória sobre a possante Espanha (que viria a ser medalha de prata), uma derrota duríssima decidida na última jogada contra a Rússia (que viria a ser bronze), a classificação para as quartas e segundo lugar no grupo inicial de 6 times.
Mas quem seria a nossa adversária nas quartas de final? A Argentina. O resultado foi uma nova derrota. A única novidade é que dessa vez foi um disputado 82-77. Apesar da derrota, a seleção jogou bem e nos encheu de esperança que essa boa geração, que já parecia perdida, ainda poderia render um último bom ciclo de resultados.
Mas como sempre, o balde de água fria não demorou a vir. O Brasil fez a pior Copa América de sua história em 2013, sem nenhuma vitória e com direito a ridículas derrotas contra os fracos times da Jamaica e do Uruguai. Como a Copa América era classificatória para o Mundial 2014, o Brasil ficaria de fora do mundial pela primeira vez na história.
Apenas nos restou tentar utilizar a bengala do convite da Federação Internacional (FIBA), pelo qual se costuma pagar muito caro e é bastante polêmico. Tão polêmico que a FIBA decidiu extingui-lo para os próximos mundiais.
Para sorte do Brasil, mesmo sem dinheiro, a FIBA nos concedeu o convite e “entramos pela janela” (sobre a polêmica do convite, escrevi em uma coluna de julho). Era a última chance de salvarmos nossa reputação, sob risco de perdermos nossa vaga para os Jogos Olímpicos dentro de nossa própria casa.
Assim como nos Jogos Olímpicos, começamos jogando bem a primeira fase. Vitórias contra as fortes seleções da França e da Sérvia e, apesar de uma derrota pesada de 82-63 para a Espanha, a segunda colocação em um complicado grupo nos deu vaga para as oitavas-de-final a serem disputadas em pleno 7 de setembro mais uma vez (a eliminação de 2002 também foi nesta data).
Advinhe o leitor quem seria nossa adversária? Isso mesmo, ela de novo! A Argentina estava no nosso caminho pela quarta vez consecutiva em mata-mata. Após o primeiro quarto, a história parecia que se repetiria pela 4ª vez: a Argentina começou frenética, acertou 5 chutes de 3 pontos e fechou o 1° quarto na frente por 21 a 13.
Porém, a partir daí o Brasil finalmente fechou sua defesa “queijo-suíço” anulou o craque argentino Luis Scola e passou a jogar muito, especialmente após a entrada de Raulzinho, um jogador no qual ninguém apostava. Sempre foi visto como aquele para compor fim de banco (último convocado) e foi o senhor do jogo depois que entrou. Assim o Brasil tirou um pouco da diferença no segundo quarto para ir para o intervalo com 36-33 contra.
Já o segundo tempo, arrisco dizer que foi o melhor tempo de uma seleção masculina de basquete desde os idos dos bons tempos de Oscar. Precisa e aguerrida, o Brasil deu um baile no 3° quarto, o qual dominou por 24 a 13 e completou o jogo com outro quarto primoroso de 28-16.
Assim o jogo terminou em um sonoro 85 a 65 para o Brasil e finalmente acabamos em grande estilo uma freguesia demolidora que já durava quase duas décadas.
Agora o Brasil embalado e com moral enfrenta pelas quartas de final a mesma Sérvia que despachou na 1ª fase. O jogo será à uma da tarde (horário de Brasília) desta quarta-feira e uma vitória poderá representar a volta do Brasil a uma semifinal do mundial, algo que não ocorre desde 1986, no auge da geração de Oscar e Marcel. É possível!
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Enquanto isso, a seleção de vôlei de Bernardinho passou tranquilamente pela 1ª fase do Mundial. 5 vitórias em 5 jogos, 3 delas por 3 a 0 e 14 pontos ganhos dos 15 possíveis. Agora os 4 primeiros do Grupo B do Brasil se juntam com os 4 primeiros do Grupo C, que foram Rússia, Canadá, China e Bulgária.
De acordo com as regras, agora o Brasil enfrentará essas quatro seleções e também carregará para a próxima fase o resultado obtido contra as outras três seleções classificadas de seu próprio grupo. Desta 2ª fase, 3 seleções deste grupo passarão para a 3ª fase.
A estrela de Bernardinho é tão forte que o único ponto perdido pelo Brasil, uma vitória no tie-break contra a Coreia do Sul, foi descartado, pois a Coreia foi eliminada do mundial. Ou seja, o Brasil será a única seleção de seu grupo a começar a 2ª fase com 100% de aproveitamento.
A seleção enfrentará na quarta a Bulgária, na quinta a China, no sábado o Canadá e no domingo a Rússia. Todos os jogos serão as 11h40 de Brasília A situação é tranquila e apenas uma vitória contra a fraca China e outra contra nada fantástico Canadá já nos deverão garantir na 3ª fase, independente dos jogos contra Bulgária e Rússia.
Meu único receio fica por conta da nossa posição de levantador. Bruno teve um pequeno problema na mão na 3ª partida, contra a Finlândia, e a seleção teve extrema dificuldade de jogar com o reserva Raphael em quadra.
No finzinho do jogo contra a Finlândia, Lucarelli estava em dia iluminado e resolveu sozinho. Já contra a Coreia do Sul, no dia seguinte, apesar do fraquíssimo time a seleção precisou ir a um sofrido tiebreak para ganhar.
Por fim, contra Cuba a receita estava desandando após uma derrota no 1° set e um péssimo início de 2° set quando Bernardinho resolveu colocar Bruninho de volta mesmo ainda sentindo dores no dedo e a a situação foi rapidamente resolvida, em uma vitória por 3 a 1.
Veremos os próximos passos.
Imagens: Fiba e Globoesporte.com