O calvário de Patricia Moreira nos leva ao outro lado da moeda: é justo que o clube seja punido por manifestações individuais de alguns torcedores? Antes de mais nada, é digno de nota que ninguém se ocupe de clamar contra a injustiça da punição coletiva quando um clube perde mando de campo em razão de brigas entre torcedores, mesmo quando estes são identificados e processados. Há algo no tema racismo que incomoda e provoca suscetibilidades.

Tampouco procede dizer que neste caso da Arena “os culpados foram identificados”. Só quem nunca assistiu a um jogo do Grêmio ao vivo pode imaginar que somente os quatro ou cinco flagrados pelas câmeras estavam xingando o goleiro do Santos. Estes foram só os ‘azarados’ que foram pegos. A pobre Patricia foi sincera ao dizer que foi “no embalo da torcida”.

A questão da justiça da punição ao clube, bem como de todas as punições que se pretendam exemplares, é complexa e não me aventuro a resolvê-la. Em vez disso, proponho uma mudança de foco: justo ou não, o castigo imposto à instituição funciona. É uma medida educativa bem mais eficaz que a cesta básica que Patricia pode ser forçada a doar para um orfanato.

Basta dizer que os variados hinos racistas da Geral do Grêmio têm ecoado há muitos anos, acompanhados por uma grande porção da arquibancada. Foi apenas após o escândalo de Aranha e sua repercussão que parte da torcida, envergonhada por ter sido rotulada de preconceituosa, resolveu coibir a Geral com vaias, no jogo contra o Bahia. Até então, torcedores, diretoria do clube, jogadores e comissão técnica, todos os quais agora aparecem manifestando repúdio uníssono ao racismo, tratavam a situação com absoluta indiferença.

TesourinhaÉ claro que não se pode generalizar os gremistas como “racistas”, mas é inegável que este tem sido um clube especialmente refratário à inclusão racial. O tricolor gaúcho foi o último clube grande do Brasil a admitir um jogador negro – Tesourinha em 1952, sob protestos da ala mais tradicionalista da torcida, que hostilizou abertamente seu próprio reforço. E isso não colocou uma pedra sobre o assunto: sócios negros continuaram sendo vedados até a década de 70.

Há quem conteste dizendo que alguns negros jogaram no Grêmio desde os anos 20, o que é verdade, mas há uma explicação para Tesourinha ter entrado para a história como o primeiro: até então o Grêmio tinha uma política oficial de não aceitar negros em suas fileiras. Os pioneiros foram convenientemente classificados como “mulatos” a fim de serem admitidos. Isto demonstra o absurdo de uma política de discriminação racial em um país como o Brasil, ainda mais no futebol, mas dificilmente pode servir a quem pretende negar o histórico de racismo.

A razão para a política ter durado tanto tempo é igualmente embaraçosa. A família que cedeu o terreno onde foi construído o primeiro estádio do clube o fez com a condição expressa de que o Grêmio nunca aceitasse jogadores negros. É fato que nos primórdios o futebol era um esporte de elite no Brasil, e poucos clubes aceitaram negros desde sua fundação. O Grêmio só se destaca por ter evoluído mais lentamente. E foi dessa lentidão excessiva que ficaram os ranços que até hoje se manifestam de forma “folclórica”.

A alegação de que faz parte do “folclore do futebol” os gremistas chamarem colorados de macacos não convence como justificativa para o que aconteceu. Primeiro, o jogo não era contra o Inter. Segundo, os xingamentos foram dirigidos especificamente contra um jogador negro. Ninguém imagina que, se fosse branco, seria atacado nos mesmos termos.

O que o tal “folclore” indica é que uma parte da torcida do Grêmio naturalizou de tal modo os insultos raciais como forma de atacar um adversário tradicional que agora faz uso deles a esmo, sem atentar ao que está fazendo – e até mesmo, por que não?, “sem intenção de ofender”. Daí não se segue que o alvo da injúria não se sinta ofendido. É esta confusão que intriga muitos gremistas que realmente não veem nada de grave nas cançonetas da Geral.

flaurubuÉ verdade que o Internacional está (ou estava) em vias de assumir o macaco como um mascote, assim como o Palmeiras assumiu o porco e o Flamengo assumiu o urubu, os quais originalmente tinham conotação depreciativa – e, no caso do urubu, também racista. Mas aqui confunde-se causa com efeito: os gremistas não tratam os colorados como “macacos” porque este seja um símbolo do clube; os colorados é que estavam (ou estão) abraçando o símbolo como tática para esvaziar a galhofa dos tricolores.

Trata-se da fórmula brasileira de lidar com o racismo: não enfrentar e fingir que não liga. O modelo “somos todos macacos”. Quando aparece alguém como Aranha que diz em alto e bom som que liga, sim, e não aceita, todos ficam desorientados, sem saber o que fazer nem como justificar-se. Ou seja, um comportamento que parecia legitimado pela tradição foi confrontado com um tipo de reação totalmente inesperada. Neste ponto, diante do que parece ser um novo Zeitgeist, a legitimidade evapora.

Atitude típica do brasileiro adepto do “deixa disso” é recusar-se a falar no assunto e pedir “providências das autoridades”. Foi a posição, por exemplo, do técnico do Santos Oswaldo de Oliveira. Segundo esta forma de pensar, o que causa o comportamento antissocial é a “impunidade”. Típica de países com tradição autoritária, a ideia minimiza a responsabilidade ética do cidadão, atribuindo ao Estado a missão de organizar cada detalhe da vida em sociedade, valendo-se sobretudo de instrumentos coercitivos.

Infelizmente para os que gostam de histórias simples com soluções simples, o Caso Aranha já dura tempo suficiente para nos darmos conta de que não há vilões nem mocinhos monocromáticos aqui. O auditor moralista do STJD fazia piadas racistas até com bebês negros na intimidade em rede de seu Facebook. Patricia Moreira tem amigos negros… e quem não tem? Se fosse este o problema, o racismo não existiria.

Para quem insiste que os afetos são um álibi, vale lembrar a história do político americano Strom Thurmond (foto ao alto do post). Nos anos 50 e 60, foi o grande líder da bancada segregacionista dos Estados do Sul. Aposentou-se em 2003, aos 100 anos de idade, como o senador que passara mais tempo na casa (47 anos), e ainda um racista convicto.

É dele o recorde de filibuster (discurso de obstrução) mais longo da história do Congresso dos EUA. Em 1957, passou mais de 24 horas seguidas fazendo um discurso (parou brevemente após a terceira hora para ir ao banheiro) com o fim de impedir a votação da Lei dos Direitos Civis. Antes, como governador da Carolina do Sul, desafiava: “Todas as leis de Washington e todas as baionetas do Exército não podem forçar o Negro em nossas casas, nossas escolas, nossas igrejas e nossos locais de lazer e diversão.”

gty_rosa_parks_mug_kb_ss_130203_sshE, no entanto, o velho supremacista teve uma amante negra que lhe deu uma filha – ativista dos Direitos Civis – com quem teve uma terna relação, escondida do público, até sua morte. Ironicamente, Thurmond acabou sendo uma vítima do seu próprio racismo, que o privou de manter um vínculo pleno com uma filha a quem amava.

Somos todos – inclusive Patricia e Aranha – vítimas de uma cultura que condiciona nossas ações, e que a pretexto de rebaixar parte da humanidade, acaba por infelicitar a humanidade inteira. O desafio que se impõe não é o de encontrar culpados, mas como agir, com doses medidas de punição, educação e reprovação moral, para modificar tal cultura para melhor.