E aquela que parecia a mais previsível de todas as Eleições, acabou se tornando, de uma hora para outra, a mais surpreendente desde a loucura que foi o primeiro pleito para a escolha de um Presidente após a redemocratização, em 1989. Desde que caiu o avião que vitimou o candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, a praticamente reeleita Dilma viu o seu favoritismo desmoronar; o tucano Aécio Neves, então preocupado em reverter um quadro praticamente irreversível, agora se vê sem quase nenhuma chance de ir ao segundo turno.

Tudo isso por conta de um fenômeno: o fenômeno Marina Silva.

Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, menos de quatro anos depois de atingir expressivos 19,7% dos votos válidos no primeiro turno das últimas Eleições, se viu em meio à enorme frustração de não conseguir fundar sua nova legenda, a Rede Sustentabilidade, e teve que se contentar em ser vice na chapa de Eduardo Campos, já como filiada ao PSB. A partir da morte do candidato, apesar da resistência de uma ala expressiva do partido, foi sua substituta. E, nesse momento, carrega o favoritismo, ainda que apenas analisando friamente os números.

Tem quem ache que Marina Silva já está eleita, tem quem ache que ela sequer irá para o segundo turno, tem quem ache que tudo pode acontecer – inclusive nada. Tem quem ache que ela é a salvação para o Brasil, tem quem ache que ela não concluirá seu mandato, tem quem ache que tudo pode acontecer – inclusive nada. Mesmo após errar todos os palpites possíveis desde a morte do ex-Governador de Pernambuco, dou aqui a minha opinião sobre este quiproquó todo que virou a escolha do nosso Presidente e também o que penso que acontecerá de agora em diante.

aviao-marina_tvA ascensão de Marina Silva é algo assustador. Se Eduardo Campos patinava entre os 7% e os 9%, ela, antes mesmo de assumir a candidatura, três dias depois da morte do companheiro, apareceu com 21% no levantamento do Datafolha. Menos de duas semanas depois, já era mencionada por 34% dos entrevistados pelo instituto. No meio do caminho, recebeu o voto de 29% dos eleitores ouvidos pelo Ibope. Ela já tem a mesma porcentagem de Dilma e está 19 pontos a frente de Aécio e, em uma simulação de segundo turno, já se coloca 10% à frente da atual Presidente. No cálculo que fiz dos votos válidos no primeiro turno, a candidata do PT e a do PSB têm 39,55% dos votos, enquanto Aécio aparece com 17,44%. Um cenário quase irreversível para o tucano e preocupante para a petista.

É muito prematuro dizer qual a influência que os fatores determinantes para os votos de Marina exercem, separados, nesse percentual gigantesco. E é essa influência que vai definir por quanto tempo Marina conseguirá segurar, ou mesmo aumentar, esse número expressivo de eleitores. Os fatores em questão são: busca por uma terceira via, encantamento pelas propostas de “nova política” da candidata, simpatia natural pela política Marina Silva, comoção pela morte de Eduardo Campos e euforia pelo crescimento da candidata nas pesquisas.

O primeiro é o grande trunfo de Marina. Ela, que abandonou o PT – e o fato de ter abandonado, ao contrário do que alguns militantes virtuais do PSDB querem acreditar, é um ponto positivo para sua estratégia -, de fato é uma terceira via, uma nova alternativa. Não que isso seja necessariamente bom, mas é verdade. Marina não é de nenhum dos dois partidos que governam o país há quase 20 anos e que já esgotaram a paciência da população. Esse eleitorado, Marina dificilmente perderá. Portanto, se a influência for grande, ela tem meio caminho andado para vencer. Principalmente porque ainda há os eleitores que defendem uma das duas primeiras vias ferrenhamente e, consequentemente, fazem de tudo para não ver a via oposta no poder. Em suma: o eleitor da via tucana deve se transferir, em sua maioria, para ela no segundo turno.

quem-e-silas-malafaia-2A questão da nova política é muito delicada. Marina vai tentar, vai insistir, mas não sei por quanto tempo conseguirá enganar o eleitor com essa mentira deslavada de que faz algo novo. Não faz. Saiu do Partido Verde, tentou criar uma legenda nova para poder se candidatar, não conseguiu e, meses depois de dizer que Eduardo Campos estava “no mesmo diapasão” de seus dois principais adversários, se uniu à ele. No fim da semana passada, divulgou um Programa de Governo defendendo a legalização do aborto e uma série de medidas a favor dos direitos da classe LGBT. Achincalhada pelo Pastor Silas Malafaia e por parte dos evangélicos, falou em “erro na divulgação do material” e publicou a “versão correta” com a questão do aborto excluída e as defesas à classe gay expostas de maneira mais rasa. Não colou, o Pastor ficou ainda mais bravo e ela ainda desapontou uma parte dos seus eleitores – gays ou não.

Isso deixa claro que ela não faz uma “nova política”. Outra evidência disso é que os próprios apoiadores rebatem críticas, como a aceitação das exigências da bancada evangélica, comparando a atitude dela com a de Dilma. Mas se ela faz a mesma coisa que a Dilma, onde está o novo? Mais do que isso, essa tentativa furada de agradar gregos e troianos prova também que, como política, Marina deixa muito a desejar. Tem um jeito muito mambembe de se posicionar, uma dificuldade imensa em deixar clara sua posição e, quando confrontada, perde a paciência com facilidade. Prova disso é que, no debate da Bandeirantes, quando não foi atacada por Dilma e Aécio – sabe Deus por que motivo, se saiu bem. No dia seguinte, ao tomar uma série de pancadas de William Bonner na bancada do Jornal Nacional, usou das mesmas táticas de Dilma: gaguejou, fugiu das perguntas, bateu boca e passou vergonha.

No momento, o eleitor ainda usa da boa vontade que tem com a candidata para relevar esse tipo de coisa, mas essa paciência dificilmente vai durar até o fim. Esse problema nesse segundo item pode ser o eixo central que arrebentará com o terceiro, a simpatia natural com a candidata. O discurso mambembe de Marina funciona bem no seu um minuto e meio na TV, mas facilmente cai no vazio quando tem de ser ampliado. Em um segundo turno, com 10 minutos para cada um, isso pode ser fatal. O eleitor parece burro, mas não é. E entender isso é fundamental para vencer.

Marina subestima a inteligência do eleitor ao tentar fazê-lo acreditar que a única coisa que ele precisa é mudar. Sem nenhuma garantia de que vai dar certo. Assim não adianta. Principalmente depois do mandato de Fernando Collor de Mello, o eleitor brasileiro criou uma relação esquizofrênica com a política: reclama a todo momento que tem que votar nas mesmas figuras e nas mesmas legendas, mas tem um medo enorme da mudança. Portanto, só vai sair da sua zona de conforto – que lhe traz cada vez mais problemas, é verdade – se estiver 100% certo de que aquilo é seguro. E, essa certeza, Marina dificilmente conseguirá dar ao brasileiro.

celso russomanoUm grande exemplo disso são as Eleições de 2012 em São Paulo. Celso Russomanno (foto), em uma postura muito semelhante com a de Marina Silva, se apresentava como a terceira via, a alternativa ao PT de Haddad e o PSDB de Serra. Disparou, liderou até a semana anterior à votação. Quando caiu um pouco, se desesperou, falou um monte de bobagem e, entre o dia da última pesquisa, na véspera, onde aparecia empatado com Serra, e a eleição, perdeu a confiança dos eleitores. Na hora da urna, meu amigo, o camarada pensa 30 vezes antes de votar. Celso acabou fora do segundo turno.

Haddad, por sua vez, não se apresentou como uma terceira via, mas sim como um novo político – o que é diferente de fazer uma nova política. Seu discurso demorou a conquistar o eleitor, demorou a conseguir a confiança dos paulistanos. Conseguiu e foi eleito mesmo com o PT tendo dois mandatos recentes mal avaliados na Capital. É um caminho que Dilma terá que trilhar, mas em situação um pouco diferente porque quem está mal vista pelo eleitor não é o PT, mas sim a própria Dilma. O quarto fator, comoção pela morte de Eduardo Campos, terá uma influência cada vez menor, é claro. O quinto e último, euforia pelo crescimento dela nas pesquisas, também, já que a tendência é que ela cresça menos. E, na possibilidade dela cair, a euforia pode virar decepção e aí desmorona tudo de uma vez.

Pessoalmente, acredito que o eleitor, inconscientemente, está dando corda para a Marina se enforcar. Creio que ela está indo com sede demais ao pote e acabará, em um momento ou outro, se perdendo. No entanto, não é algo que eu posso afirmar com toda a certeza. Aliás, ninguém pode afirmar coisa alguma porque é uma situação completamente atípica e que não nos dá margem para buscar referência em alguma outra Eleição para prever como se comporta o eleitor em um cenário como esse.

Apesar de tudo, acho que uma coisa é certa: aconteça o que acontecer, PT e PSDB aprenderam da pior maneira possível que é preciso mudar. Os dois partidos subestimaram a possibilidade do surgimento de uma terceira força – político ou partidário – e, por isso, se acomodaram, não tentaram renovar o seu quadro de eleitores e muito menos se preocuparam em não perder o eleitorado que já tinham. Era algo que fatalmente traria problemas em 2018, muito provavelmente com o próprio Eduardo Campos, mas que foi antecipado por toda essa situação.

Aliás, penso que esse crescimento repentino de Marina mostra que o próprio Campos atingiria esse percentual, porém mais adiante. Talvez não desse tempo de alcançar os 34% no primeiro turno, mas superar Aécio, por exemplo, já acho muito possível. A busca por uma terceira via já era algo falado há muito tempo e Campos, se não era conhecido como Marina, tinha tudo o que ela não tem: era ótimo político, tinha uma fala que conquistava o público e era bem articulado, dialogava bem com as partes interessadas sem se perder.

beto albuquerqueE já que falei tanto de Marina Silva, devo dizer que temo, sim, uma vitória da candidata. Não é o medo Regina Duarte falando do Lula em 2002, mas temo. Primeiramente porque Marina não só não teria base nenhuma no Congresso, como não tem nem o seu partido nas mãos. Isso sem falar na possibilidade de uma mudança de partido caso a Rede seja criada. Não é exatamente um problema já que qualquer Presidente pode dar um jeito nisso, mas nesse caso é porque ela tem uma dificuldade enorme em dialogar. Não sei como ela conseguiria se acertar com a base aliada do PT ou do PSDB e, sem uma dessas duas, dificilmente conseguiria Governar, ainda mais com suas propostas bastante questionáveis em pontos como a geração de energia. Acho que há, sim, uma possibilidade do mandato começar com Marina Silva e terminar com Beto Albuquerque. E isso, ao meu ver, garantiria mais uns 20 anos de polarização PT-PSDB.

Para encerrar, já mudando um pouco de assunto, é triste notar que, depois da, digamos, aposentadoria de Lula, o Brasil ficou sem qualquer liderança política minimamente notável. Independente de concordar ou não com Lula, ele era a única que havia restado após a morte de Leonel Brizola.

E é algo que o próprio Lula fala no excelente documentário “Entreatos”, em 2002 (abaixo). Brizola ainda estava vivo, mas, aos 80 anos, não liderava mais nada. Eduardo Campos poderia ser essa liderança, mas infelizmente jamais saberemos. Penso que para surgir uma nova, será preciso acontecer algo muito grande no país – a deposição de uma Presidente seria algo assim, falando em Marina – e, dado o perfil de quem tem ido às ruas protestar, às vezes acho melhor continuar sem nenhuma mesmo.

http://www.youtube.com/watch?v=CAa9zGxFXWo