Em 1998, pela primeira vez desde a redemocratização o Brasil tinha um candidato de fato Governista em uma disputa Presidencial. Em 1989, nenhum dos 26 candidatos era sequer mais próximo do Presidente José Sarney e, em 1994, Fernando Henrique Cardoso era apenas um membro do Governo. É claro que ele era mais situação que Lula, mas não dava para dizer claramente que era um candidato da continuidade.
Voltando para 1998, foi ali que, pela primeira vez, surgiu um conceito que eu chamo de “Eleições Plebiscito”.
Basicamente, isso ocorre quando o eleitor não escolhe entre dois candidatos, mas sim em duas opções: esse Presidente (ou esse Governo) merece continuar ou não? No geral, quem vota faz uma análise simples: o país está bem? Se sim, continua com quem está. Se não, muda. Aliás, permitam uma correção. Nem sempre o pensamento se resume a “está bem ou está mal”. Muitas vezes, a simples sensação de estar melhor já serve para que o candidato governista vença.
Isso fica muito claro já em 1998, quando o Brasil não andava lá as mil maravilhas, mas, por conta da estabilidade da moeda e do controle da inflação, Fernando Henrique Cardoso foi reeleito ao bater muito nessa tecla. O país melhorou, não melhorou? Então me deixa aqui. Consequentemente, o papel de Lula era convocar o eleitor a pensar o contrário, a escolher entre dois candidatos, dois projetos e não em “sim” ou “não”.
Só que, nesses quatro anos, o país piorou e os papéis se inverteram. Foi a vez de Lula – um outro Lula – clamar pela Eleição Plebiscito e forçar o eleitor a pensar que aquele Governo não merecia mais continuar. A campanha de José Serra, por sua vez, tentou ir na mão contrária: escolha entre dois projetos. “A mudança é azul”. Não deu certo e Lula levou. Levou e melhorou o país. Melhorou tanto, que a coisa chegou a níveis absurdos em 2006.
A campanha de reeleição de Lula era praticamente toda pautada na ideia de que ele merecia mais tempo porque fez muito em quatro anos. Com pouquíssimas chances, coube a Geraldo Alckmin admitir que, sim, o país melhorou, mas dava pra melhorar mais. Outro fracasso. Quatro anos depois, a situação se repetiu e, em dado momento, o único argumento que coube a José Serra era o de que Dilma “não iria dar conta”. Pois bem, ela venceu, bem ou mal deu conta e chegamos a 2014.
É uma tendência natural de qualquer partido em qualquer país, quando há muito tempo no poder, sofrer um desgaste. O PT, com 12 anos de Presidência, tinha esse desgaste como principal adversário. E era o principal adversário porque, seja verdade ou seja mentira, as pesquisas de avaliação indicavam que o brasileiro sentia o Brasil de 2014 pior que o de 2010. Isso era um risco gigantesco para a vitória de Dilma Rousseff.
Só que, até então, o PT era favorecido por um projeto mambembe da oposição. Chega a ser engraçado, mas se o PT sofreu um desgaste com 12 anos de situação, o PSDB sofreu um ainda maior com 12 anos de oposição. A reeleição de Dilma ainda era muito provável porque Aécio Neves não parecia conseguir capitalizar os votos desse sentimento de que o país não caminhava muito bem.
Só que, nos últimos 15 dias antes do primeiro turno, Aécio conseguiu. A “onda Aécio” foi tão grande, que reduziu os votos de Dilma Rousseff a 40%, praticamente o piso do PT em uma votação Presidencial. Não restava dúvida: se Dilma seguisse apostando na “Eleição Plebiscito”, fatalmente perderia. Sua votação foi a mais baixa de um primeiro colocado no primeiro turno desde 1989 e era difícil acreditar que Aécio não conseguisse um pouco mais da metade dos votos de quem claramente optou pela mudança.
Noves fora a batalha sangrenta que foi a campanha eleitoral, os papéis mais uma vez se inverteram: se o PSDB já havia apostado na “Eleição Plebiscito” no primeiro turno, no segundo foi a vez de Dilma rechaçar esse sistema. Mas então, o que fazer? Aécio bateria na tecla de que o país piorou – chegou a dizer várias vezes que ela foi a primeira Presidente desde FHC a entregar um país pior que recebeu, o povo claramente concordava com ele, então o que restou para João Santana? Comparar projetos? O PT estava desprevenido, não tinha projeto nenhum, apostar nisso era suicídio.
E então o PT partiu para o tudo ou nada.
Um golpe que poderia escancarar o desespero e jogar de vez a Eleição no lixo, ou garantir a vitória: a comparação entre o Brasil do PT e o Brasil do PSDB. Essa arma sempre foi pano de fundo das campanhas petistas em 2006 e 2010, mas virou tema central. É por isso que um segundo turno contra Marina poderia ser muito mais difícil. Marina tinha o benefício da dúvida; Aécio já foi Governo. Não diretamente, mas em legenda.
Quando o PT rachou o país no meio, não o fez para ganhar votos dos pobres ou dos Nordestinos, mas sim para conquistar todos os votos possíveis nas classes e regiões que transformou. O PT sabia que, tendo mais de dois terços dos votos no Nordeste, anularia as surras que levaria em São Paulo e no Paraná. E esse foi um ponto fundamental para que Dilma vencesse: enquanto Aécio abandonou o Nordeste, deu como “caso perdido”, Dilma procurou estabilizar e até reduzir a desvantagem na região Sul e em São Paulo, para, assim, abrir no Nordeste e ter alguma folga.
Basicamente, o que o PT fez foi o que qualquer eleitor que vota 13 faz há alguns anos ao discutir política com tucanos.
Quantas vezes você, eleitor do PT, não perguntou para alguém: o Brasil melhorou ou piorou nos últimos 12 anos? Aí está a sacada. Tá bom, o país piorou de 2010 para cá, mas o nosso Governo começou em 2003. É ali que vocês tem que comparar. Partindo dessa lógica, o PT não teve outra alternativa que não fosse criar uma guerra contra empresários e banqueiros, que são os que mais sofrem com a situação delicada do país.
Dilma não rachou o país em Norte e Sul, mas sim em ricos e pobres. Quer um exemplo? Na Zona Eleitoral de Paralheiros, na Capital de São Paulo, ela teve 60% dos votos. Na Terra da Garoa, como um todo, somou 33% contra 67% de Aécio. Essa era, insisto, a única chance de Dilma. A classe alta fechou com Aécio, a baixa está com a gente, quem vai desempatar é a classe média. E a classe média quer mudança! Mas peraí, quem fez a classe média atual virar classe média? Nós! Eles pioraram de 2010 para cá, mas ainda estão bem melhores que em 2002. É só dizer isso para eles.
Bingo.
O pulo do gato, um pulo bem ‘sujo’, diga-se, foi fazer a classe média que cresceu com o PT ter medo do PSDB. Foi fazer com que essa classe média esquecesse a economia e olhasse para o social. Não tenho dúvidas de que foi aí, e não especificamente no Nordeste, no Norte ou em Bangladesh, que Dilma levou esses 3 milhões de votos a mais. Se o Nordeste impediu a vitória do Aécio, é porque é lá que estavam a maioria dos eleitores-alvo de Dilma no segundo turno e não por ser necessariamente o Nordeste.
Isso foi lindo para o dia 26 de outubro, mas se tornou um verdadeiro Inferno para o dia 27 em diante. Dilma rachou o país de tal maneira que essa metade que não lhe deu voto – a elite e uma parte grande da classe média que não se convenceu com a estratégia petista no segundo turno -, que alimentou um monstro que poderá a engolir. Pela primeira vez desde 1998, o resultado das urnas não indicou que o povo quer continuidade, nem que quer uma mudança. Quer uma mudança na continuidade. Quer que os avanços continuem, mas em um país mais sério, mais eficiente e menos corrupto.
O recado das urnas foi um voto de confiança ao PT e um alento ao PSDB. Foi, sobretudo, um recado claro para os dois. Em linhas gerais, podemos dizer que as urnas manifestaram uma grande insatisfação dos eleitores com os rumos tomados pelo PT, mas uma insatisfação relevada pelo conjunto dos últimos 12 anos. Foi, insisto, um voto de confiança: olha, vamos dar mais quatro anos, mas é melhor parar de errar. Na próxima, não vai ter chance. É por isso que, como se diz, o PT precisa calçar as sandálias da humildade ou então não conseguirá nem Governar, muito menos se reeleger.
O PSDB também recebeu um recado, praticamente o recado oposto: ainda estamos bastante ressentidos com o segundo mandato do FHC, mas está passando. A resistência diminuiu. A campanha do partido fez uma aposta errada. Quando o PT rachou o país, os tucanos, em uma mistura de arrogância, prepotência e confiança exagerada, apostaram que levariam a melhor na queda de braço. Era óbvio que daria errado. Ao assumir o racha, o PSDB se assumiu como candidato do “meio para cima” da pirâmide social, contra o do “meio para baixo”.
Só que, quanto mais para baixo, maior a dependência do Estado. Consequentemente, maior a militância nas ruas. Em uma Eleição tão apertada, era óbvio que isso faria diferença.
Quem mais precisa do Estado decidiu o seu Chefe pelos próximos quatro anos.
Imagens: Uol, Terra e site de campanha de Aécio Neves
É uma sensação estranha, essa eleição. A classe média não é tããããão média assim. Mas tá melhor assim do que com o FHC e seus 40% de desemprego.
Isso é o suficiente para que o PSDB continue sofrendo. Quem sabe, como você disse, se eles começarem a pensar nos de baixo… postei no meu blog que é o de baixo que tem que subir, e não o de cima que tem que ser empurrado pra baixo!
É por aí!!