Quando Muhammad Ali desafiou Joe Frazier para tentar recuperar o cinturão unificado dos pesos pesados do boxe, o mundo imediatamente decretou: seria a “Luta do Século”. Ambos invictos – Ali só perdeu o título em 1967 por se recusar a lutar no Vietnã e Frazier estava no auge da forma – e procura absurda por ingressos no Madison Square Garden. Frank Sinatra não conseguiu sua entrada e se credenciou como fotógrafo, vejam só.
Frazier dominou o combate e venceu por pontos, depois de levar Ali à lona no último round. Pela competitividade do evento e por toda a rivalidade Ali x Frazier criada no período anterior ao combate, foi mesmo a “Luta do Século” até então. Mas três anos depois, outro evento tomaria essa condição…
Frazier reinou soberano nos pesos pesados e seguiu invicto até janeiro de 1973, quando foi desafiado pelo emergente George Foreman. Campeão olímpico em 1968, Foreman impôs uma trajetória fulminante, com nocautes rápidos e golpes devastadores. Outro invicto. Foreman assustou o mundo ao aniquilar Frazier em dois rounds. Alguém poderia detê-lo?
Após a primeira derrota na carreira, apenas no seu terceiro combate após um período de três anos sem lutar, Ali retomou a trajetória de triunfos e, após derrotar Frazier por pontos no começo de 1974, desafiou Foreman. O promotor do combate seria o até então desconhecido Don King, que surpreendeu ao anunciar o Zaire como local da luta.
Por que o Zaire? Porque o ditador Mobutu se dispôs a pagar uma bolsa até então irreal aos boxeadores: cinco milhões de dólares! E lá foram Ali e Foreman lutar em Kinshasa, num ringue montado no suntuoso estádio 20 de Maio, erguido naquele mesmo ano.
O combate foi marcado para o dia 25 de setembro, mas Foreman se lesionou durante um treino e a luta foi remarcada para o dia 30 de outubro. Os lutadores permaneceram no Zaire e Ali tratou de ganhar o público local, dizendo que Foreman era o representante da elite branca americana e que ele, Ali, lutaria pelos negros.
De fato, Ali angariou a torcida para ele e os incitou, criando uma música que seria entoada antes, durante e depois da luta: “Ali, buma ye” (Ali, mate-o). Mesmo considerado azarão, Ali chegava com uma força extra para a luta, que, lembrem-se, seria num estádio de futebol.
Ali garantiu que sua estratégia seria dançar, dançar, dançar e contra-atacar Foreman, para fazer valer o bordão “voar como uma borboleta e picar como uma abelha”. Porém, no primeiro round o que se viu foi um Ali veloz e tomando a iniciativa da luta. Por pelo menos três vezes ele acertou combinações contundentes.
Mas Foreman também assustou Ali no fim do round e este percebeu que não conseguiria manter tal ritmo durante os 15 rounds. A partir do segundo assalto, Ali pôs em prática uma estratégia batizada de “rope a dope”, na qual Ali deitava nas cordas e chamava propositalmente Foreman para acuá-lo e dispender energia socando-o selvagemente nos braços e corpo.
Claro que havia um componente adicional – e bem maroto – na história: o treinador de Ali, o lendário Angelo Dundee mandou afrouxar as cordas antes da luta para que estas tivessem mais elasticidade e proporcionassem que Ali deitasse nelas e colocasse em prática sua estratégia.
A aposta do desafiante era cansar Foreman, que em apenas dois de seus quarenta combates anteriores havia disputado mais de cinco assaltos. Por outro lado, dada a potência dos golpes de Foreman, era uma tática arriscadíssima. Em sua autobiografia, Ali reconheceu que em dado momento no terceiro round “viu tudo preto” e achou que fosse cair.
Mas Ali foi resistindo e os golpes do impaciente Foreman passaram a não surtir mais efeito. Isso porque Ali protegia bem a cabeça e usava os braços para neutralizar os demais socos de seu oponente. Sem contar que, o fato de Ali estar literalmente deitado nas cordas, muito da força dos golpes de Foreman era dissipada.
No quinto round, Foreman efetivamente começou a ficar cansado. Seus golpes passaram a sair mais fracos e bem menos precisos. No fim do assalto, já percebendo que o adversário se descuidava da defesa, Ali acertou excelente combinação que abalou Foreman pela primeira vez na carreira segundo os comentaristas da época.
Em bom momento na luta, Ali passava a provocar, provocar e provocar Foreman ainda mais, dizendo que seus socos não tinham força e perguntando se era só aquilo que ele conseguia fazer no ringue.
Nos dois assaltos seguintes, um exausto Foreman passou a oferecer ainda menos risco e sua guarda estava ainda mais exposta. No fim do oitavo round, como escreveu Norman Mailer no célebre livro “A Luta”, Ali parecia aquele soldado que contava suas balas e desferiu o golpe que guardava para toda a vida. E desferiu a combinação que determinou o fim da luta.
Uma vitória histórica, pois levava Ali de volta à condição de campeão do mundo sete anos depois da cassação do cinturão. Um triunfo da técnica e da inteligência ante uma força que parecia inabalável. Uma superação que colocou Ali definitivamente na galeria dos maiores nomes do esporte mundial. Como disse Ali na coletiva, ele continuava sendo “The Greatest of All Times!” – O Maior de Todos os Tempos!.
O vencedor da luta do século XX.
Veja a íntegra do combate
http://www.youtube.com/watch?v=55AasOJZzDE
Fotos: Reuters, Getty Images
Ali é um dos meus ídolos no esporte. Um ídolo além de talento tem que ter carisma e personalidade e Ali tinha tudo isso de sobra