O Carnaval de 1997 foi, pela primeira vez, um estrondoso sucesso nacional. A transmissão da TV Globo bateu picos de audiência de 35 pontos durante a madrugada e os desfiles ganharam repercussão em todo o país. São Paulo, naquele Carnaval, praticamente acabava com o monopólio do Rio de Janeiro na atenção dada pela mídia para os festejos de Momo em termos de escola de samba.

Junto à responsabilidade por fazer um belo espetáculo, cresceram ainda mais as fontes de renda para as escolas paulistanas. A atenção do público cresceu, mais gente passou a acompanhar e os patrocínios aumentaram ainda mais em relação ao boom do ano anterior. Embora ainda tivéssemos poucos enredos nitidamente patrocinados, os “incentivos” ficavam explícitos em certos pontos dos temas trazidos pelas 10 escolas do Grupo Especial.

Falando nisso, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo dava naquele Carnaval de 1998 o primeiro passo rumo ao ousado plano de fazer os desfiles do primeiro grupo em dois dias, tal como acontecia no Rio desde 1984. Para tal, não haveria rebaixamento naquele Carnaval e nem no seguinte, chegando assim a 14 escolas em 2000 e com os desfiles divididos em dois dias. A melhor novidade, contudo, ficava por conta da adoção dos critérios de desempate em caso de igualdade em pontos por parte de duas ou mais escolas.

Uma outra novidade para 98 estava na ordem dos desfiles. A campeã X-9 Paulistana seria a primeira a desfilar, seguida pelas agremiações vindas do Grupo de Acesso, Acadêmicos do Tucuruvi e Camisa Verde e Branco. A decisão, naturalmente, prejudicou a escola da Parada Inglesa, visto que a Passarela ainda estaria fria e o desfile não seria transmitido pela TV (a Globo abriria a transmissão às 21h40, uma hora e dez minutos após o início do primeiro desfile).

Falando em X-9, a escola prometia fazer uma apresentação diferente para tentar o bicampeonato com um enredo sobre os cowboys e lembrando da figura de Beto Carreiro. Era só uma, no entanto, das muitas escolhas surpreendentes daquele Carnaval. Vice-campeã, a Vai-Vai, oriunda do italianíssimo bairro do Bixiga, também surpreendeu ao adotar a imigração japonesa como tema, ao passo que a Nenê, um ano após enfim voltar a brigar pelo título, ousou e ousou muito: fazer uma homenagem a uma escola de samba carioca, ainda mais com o salto de popularidade dos desfiles paulistanos, já seria diferente, mas a escola em questão ser a Mangueira, tradicional rival de sua madrinha Portela, pegou a todos de surpresa. Não que Portela e Mangueira fossem inimigas ou que os sambistas paulistanos não gostassem das escolas cariocas, longe disso, mas foi surpreendente.

A Rosas de Ouro, após uma pequena queda de rendimento em 97, escolheu exaltar o samba paulistano através da figura do inesquecível Adoniram Barbosa. A Gaviões da Fiel resolveu homenagear o Corinthians, enquanto a Mocidade Alegre tentava se recuperar com um interessante enredo sobre mulheres ousadas.

A Leandro de Itaquera falou sobre os laços entre Brasil e França, enquanto a Unidos do Peruche mais uma vez optou por exaltar os negros. Voltando ao Grupo Especial, o Camisa Verde e Branco adotou as fotografias como tema e, a Acadêmicos do Tucuruvi, também voltando à elite, falaria sobre os piratas.

A X-9 Paulistana entrou na Avenida para tentar a missão quase impossível de ser bicampeã abrindo a festa. Primeira escola a desfilar, a X apresentou o enredo “Sonhos de um cowboy brasileiro”, do Carnavalesco Augusto Oliveira, que era do Camisa Verde e Branco. Desde o grito de guerra, o intérprete Royce do Cavaco tentava levantar o público ainda frio na base dos gritos. Competente como sempre, fez o possível e o impossível, mas não obteve êxito e ainda esteve rouco durante o trecho final do desfile.

Os desfilantes até que estavam animados, o desfile até que estava bonito, mas foi uma apresentação apenas regular. Menos luxuosas que em 1997, as alegorias e fantasias estavam bastante corretas, mas não era, definitivamente, uma apresentação campeã. O enredo, embora ousado, não conseguiu ser corretamente desenvolvido e em alguns momentos caiu na mesmice. Alguns problemas de evolução comprometeram de vez o desfile e a possibilidade de título estava completamente descartada.

Na sequência, a Acadêmicos do Tucuruvi pisou na Avenida para apresentar o enredo “Na Trilha do Tesouro, Nem Todo Mar é Azul, Nem Todo Amarelo é Ouro”. Voltando ao Grupo Especial, o Zaca prometia uma apresentação leve e divertida para tratar dos piratas. O enredo dividiu a história dos piratas em uma cronologia simples e de fácil entendimento: passado, presente e futuro.

O primeiro setor contou a participação dos piratas nas navegações europeias e alguns casos interessantes relacionados ao Brasil, como a “Guerra da Lagosta” entre os piratas franceses e as embarcações brasileiras para que os primeiros não levassem as nossas lagostas. O bom humor esteve presente em um desfile marcado por alegorias simples, porém de bom gosto e bom acabamento.

O segundo setor, dedicado ao presente, teve ainda mais empatia com o público. A venda de CDs, DVDs, cigarros, tênis, roupas e demais produtos piratas foi retratada em alas que simbolizavam também a relação dos “clientes” com os vendedores ambulantes espalhados por São Paulo e por todo o Brasil. Por fim, os carnavalescos viajaram e tentaram imaginar a pirataria no futuro, com “piratas biotecnológicos” que roubavam espécies de plantas e o DNA alheio para fazer clonagens – vale lembrar que, um ano antes, houve o caso da ovelha Dolly.

No presente, a Tucuruvi foi a primeira prejudicada por um problema que perseguiria praticamente todas as escolas naquele Carnaval: a péssima qualidade do som do Sambódromo do Anhembi. O primeiro carro de som perdeu um cabo de energia a cerca de 300 metros do fim da passarela e a escola teve alguns problemas de harmonia. No fim das contas, foi uma apresentação no mínimo simpática, ainda que o abre-alas tenha se desmanchado ao longo da Avenida por conta das fortes chuvas que assolavam São Paulo e prejudicaram muitas escolas nos dias que antecederam os desfiles.

camisa1998Voltando ao seu lugar de fato e de direito, o Camisa Verde e Branco apresentou o enredo “Fotografia aos olhos do mundo, nas lentes da verde e branco”, sobre o mundo da fotografia. O desfile do Trevo da Barra Funda sofreu um considerável atraso por conta dos problemas do som que, no entanto, não foram resolvidos após a entrada da agremiação na Avenida. A grande questão envolvendo o sistema de som era a falta de sincronia entre o carro de som e a bateria: os intérpretes não ouviam a bateria e a bateria não ouvia o canto dos intérpretes. Esse seria um problema que perseguiria praticamente todas as escolas que viriam depois do Camisa.

De todo modo, o Camisa Verde e Branco voltou para a elite resgatando aquilo que fora perdido gradualmente em anos anteriores e que a levou ao segundo grupo: a garra. Depois de alguns anos afastado daquilo que faz de melhor, o Camisa fez um desfile de Camisa: de chão, de canto, pisando forte na Passarela. A resposta do público, assim, não poderia ser melhor. As arquibancadas corresponderam ao samba apenas regular da verde-e-branco e acabou levantando um desfile apenas regular.

O enredo era bastante simplório e tinha alas de difícil execução. Algumas, que faziam alusão a certos retratos, tinham que inevitavelmente ser representadas com “quadros”, o que prejudicava consideravelmente a beleza das fantasias. As alegorias também demonstravam um potencial econômico mais reduzido do Camisa. O acabamento não estava de todo ruim, mas o luxo passou longe. A divisão cromática também não me agradou muito e mais uma vez usou mais do verde que deveria. Gostei bastante da comissão de frente que lembrava as fotografias tiradas pelas classes mais altas nos séculos passados, trajada com roupas típicas daqueles tempos.

No mais, foi um desfile comum, simples, típico de meio de tabela, mas que, por ser com o Camisa Verde, ganhou outra dimensão. Não havia nenhuma expectativa quanto a título, mas, dependendo da boa vontade dos jurados, uma boa colocação não estava descartada.

Passado o desfile do Camisa, foi a vez de outra gigante tentar se recuperar: a Unidos do Peruche, que flertou com o rebaixamento em 1997, cruzou o portão principal do Anhembi para cantar o enredo “Mamma Africa”. Ainda que não tenha tido uma apresentação arrebatadora, a Filial do Samba fez um desfile bastante superior ao do Carnaval anterior.

O Carnavalesco Raúl Diniz, de quem sou fã declarado, não pecou onde vinha pecando na Gaviões da Fiel: no desenvolvimento dos enredos. Ao chamar a atenção para a “sociedade escravocrata em que o Brasil vivia no final do Século XX”, ele pretendia exaltar os negros de uma maneira diferente. Pretendia mostrar ao público tudo aquilo que o negro tem de melhor, mas colocando o dedo na ferida e mostrando o preconceito e a desigualdade envolvendo esta raça até aqueles tempos – e até os tempos atuais, aliás.

Raúl foi mais uma vez brilhante na concepção das fantasias. Usou muitas palhas e muitas tonalidades que remetiam à terra, o que causou o melhor efeito possível. O visual provocado pela excelente divisão cromática foi o ponto alto do desfile, compensando as alegorias que, mais uma vez, não eram das melhores. A escola visivelmente tinha problemas financeiros, mas, em todo caso, o desfile resgatou parte da auto-estima perdida no desastre do ano anterior.

Dando sequência aos desfiles, a Nenê de Vila Matilde pretendia continuar a evolução demonstrada no ano anterior com a homenagem aos 70 anos da Estação Primeira de Mangueira. O enredo “Estação Primeira de Mangueira, Semente do Samba, União de Gente Bamba” reuniu figuras conhecidíssimas da verde-e-rosa como Dona Zica (torcedora do Camisa Verde e Branco, aliás) e a cantora Alcione, que saiu elogiando muito a folia paulistana e criticando pesadamente o sistema de som. O ator Miguel Falabella também marcou presença e ajudou a levantar a Passarela.

Não que fosse preciso, aliás. O enredo, de leitura facílima, conquistou rapidamente o público presente no Anhembi. O samba, que estava entre os melhores da safra, também sacudiu a galera. A Nenê foi, sem dúvida, a escola que mais agradou o público a ponto de, em certos momentos, as arquibancadas repetirem as coreografias que a Águia da Zona Leste fazia na pista.

O enredo pretendia destacar as semelhanças entre a Nenê e a “mais popular, mais tradicional e mais respeitada” escola de samba do país. A principal, delas, claro, o fato de serem formadas por comunidades simples e guerreiras. Achei interessante a opção por não “passear” por Carnavais famosos da verde-e-rosa e sim exaltar sua história de fato. De início, os baluartes envolvidos em sua fundação. No fim, os projetos sociais e a preocupação com a função de uma escola de samba na cidadania. No meio, os bambas e as histórias que fazem da Mangueira uma escola única.

O visual da escola, se não foi impecável, foi bastante correto. Boas fantasias, boas alegorias e um bom contraste entre o verde e o rosa da Mangueira e o azul e o branco da Nenê. Foi, de longe, o melhor desfile da noite até então e, por conta do sacode nas arquibancadas, a Águia da Zona Leste se colocava como uma grande favorita a levantar a taça. A escola, porém, errou em alguns momentos. Um setor onde desfilaram alguns diretores tinha parte deles com camisetas da Nenê e parte com camisetas da Mangueira, o que certamente acarretaria perda de pontos no quesito fantasia. Em todo caso, um grande desfile.

De uma das escolas de samba que melhor representam o samba carioca para o sambista-símbolo do samba paulistano. A Rosas de Ouro foi a sexta escola a entrar na Avenida para contar o enredo “Samba na Garoa”, que viajaria pelas canções memoráveis do poeta Adoniram Barbosa. A escola pretendia repetir a fórmula de sucesso do final da década de 80 e começo de 90: excelente visual misturado a um enredo de forte apelo popular e que despertasse no público o orgulho de ser paulistano.

Após um trabalho apenas razoável em 1997, os jovens carnavalescos Neto e Mona acertaram em cheio no desenvolvimento do tema. O desfile foi um delicioso passeio pela São Paulo retratada nas músicas de Adoniram e ganhou alas de fácil leitura e carregadas de bom humor. O malandro boêmio que chega tarde em casa e, para não dormir na rua, promete que não perturbará nunca mais o sono de seu amor, o morador do Jaçanã que não pode perder o trem das onze, o convidado do samba do Arnesto que não encontrou ninguém, os amigos moradores da Saudosa Maloca onde passaram dias felizes de suas vidas, dentre muitos outros personagens, estiveram presentes no desfile.

A escola mais uma vez esteve muito longe de repetir os seus desfiles mais luxuosos, mas apresentou um visual interessante, com uma divisão cromática que usou de muitas tonalidades diferentes e um bom acabamento. Impecável em evolução e harmonia, a escola se colocou como favorita ao fazer um desfile praticamente sem erros, mas que, apesar do enredo, não conquistou o público. Apesar da animação dos componentes e do bom desempenho da bateria, trajada de “Tiro ao Álvaro”, a apresentação acabou sendo um pouco fria. O destaque foi sem dúvida o carro que já era genial desde o título: “O poeta dos pobres na Saudosa Maloca”, que trazia uma escultura de Adoniram à frente de casas simples. A Roseira, de todo modo, era uma forte candidata ao primeiro lugar.

A sétima escola a iniciar o seu desfile foi a Leandro de Itaquera, que levou os laços de união entre Brasil e França para o Anhembi com o enredo “França e Brasil, Unidos pela Sedução”. Era um enredo muito interessante. O Leão Guerreiro da Zona Leste começou seu desfile mostrando a influência francesa nas artes e costumes dos brasileiros no período imperial. “Era chic”, como dizia a sinopse, falar francês e se vestir como os habitantes da terra de Napoleão.

O desfile também lembrou o sonho dos franceses de “espalharem eldorados” pelo mundo e o convite da França aos índios brasileiros para uma apresentação para a Corte Francesa, lá em 1550. Sim, justamente aquela história-base do enredo da Imperatriz Leopoldinense quatro anos antes, “Catarina de Médices na Corte dos Tupinambás”. A Leandro lembrou também a inegável a influência dos ideais da Revolução Francesa – “liberdade, igualdade, fraternidades – nas posteriores revoluções que ocorreram em solo brasileiro que, tal como todo o resto do Mundo, não ficou imune ao movimento ocorrido lá em terras francesas.

Quase sem querer, o país europeu ainda mudou completamente a vida do Brasil em 1808, quando expulsou a Corte Portuguesa que veio para cá se esconder. O Rio de Janeiro foi lembrado a todo momento, principalmente por conta do período da “bellé epóque”, quando os Governantes tentaram transformar a Capital Carioca em uma espécie de Paris. Por fim, foram lembradas as relações comerciais entre os dois países no fim daquele Século XX. Foi um desfile simples, sem luxo, marcado pela melhor comissão de frente da noite e que deveria ficar ali no meio da tabela, principalmente por conta dos erros na evolução e da harmonia, que não foi das melhores.

Depois do desfile bastante irregular de 1997, a Mocidade Alegre foi a oitava agremiação a desfilar com o enredo “Essas maravilhosas mulheres ousadas”, do Carnavalesco Wagner Santos. A escola, que ainda contava com a presença da Globeleza Valéria Vanessa, apostava em muito topless e em muitas artistas conhecidas para levantar o público.

As arquibancadas não chegaram a corresponder como a escola esperava, mas foi um bom desfile. O enredo era bastante interessante e corajoso e foi bem desenvolvido, ao passo em que as alegorias e fantasias tiveram uma melhora considerável em relação à 97. A primeira “mulher ousada” do desfile era ninguém menos que Eva, que convenceu Adão a morder a maçã, provocando a fúria de Deus. A segunda, era Princesa Isabel que, com sua luta, conseguiu abolir a escravidão no Brasil. A terceira, Maria Bonita, era a mulher de Lampião e lutou na miséria do Sertão.

Na sequência, vieram Carmen Miranda, Chiquinha Gonzaga, Luz del Fuego, Marilyn Monroe, Evita Perón e Madonna que, de diferentes formas, ousaram e revolucionaram o modo da sociedade encarar o universo feminino. A Morada do Samba fez uma apresentação bastante correto do ponto de vista estético e também errou pouco em quesitos como evolução e harmonia. Não foi um desfile no nível da Rosas de Ouro ou da Nenê de Vila Matilde, mas havia a expectativa por uma boa classificação.

vaivai1998cDepois de perder o título para a X-9 em 1997, a Vai-Vai chegou pisando forte como sempre para defender o enredo “Banzai, Vai-Vai!”, já com o dia amanhecendo. O samba, se não era inovador e tinha uma melodia muito semelhante à sambas de anos anteriores, sacudiu a arquibancada com seu refrão: “aí fiquei maluco / no desfile da Vai-Vai / sacode, povão, banzai”. Mais uma vez, Thobias da Vai-Vai foi fundamental no processo de incendiar a Passarela com mais uma apresentação inesquecível.

A Saracura conseguiu aliar sua força em quesitos de chão àquele que talvez tenha sido o seu melhor desfile em termos plásticos no Anhembi até então. O enredo que contava a história de um mulato que dormiu, sonhou em ser um Imperador do Japão e acordou no desfile da Vai-Vai foi muito bem desenvolvido e destacou a influência dos orientais na cultura paulistana, lembrando que a Capital Paulista era a cidade de maior concentração de japoneses fora do Japão.

A sempre impecável bateria de Mestre Tadeu garantiu um bom andamento para o samba que, apesar do agravamento dos problemas no som, foi bem cantado. As fantasias apresentaram muito luxo e imponência e representavam muito fielmente o mundo dos orientais. A bateria, por exemplo, veio trajada de “ninjas paulistanos” com o rosto todo coberto. A Comissão de Frente apresentou a melhor indumentária da noite e uma coreografia impecável. O abre-alas foi de longe o maior da noite, com muitos adereços e muitas cores, além de dragões alados que soltavam fumaça pela Avenida.vaivai1998

Apesar do número considerável de fotógrafos espalhados pelas alas da Escola do Povo, a evolução foi bastante correta durante quase todo o desfile, mas o número excessivo de componentes – 4.600 – cobrou sua conta. O tempo de desfile ficou curto e, no final, alas tiveram que correr para que a Saracura não estourasse o tempo máximo de desfile. Certamente haveria uma penalização, mas as chances de título ainda eram muito altas.

Para encerrar, com o Sambódromo ainda lotado e já totalmente iluminado pela luz do dia, a Gaviões da Fiel chegou para exaltar “a razão do seu viver” com o enredo “Corinthians, o meu mundo é você”, do polonês Roberto Szaniecki. Apesar do samba não ser dos melhores, a Fiel Torcida foi a única que conseguiu repetir a euforia causada pela Nenê de Vila Matilde nas arquibancadas, que cantaram o samba do primeiro ao último minuto.

Szaniecki usou muito do branco, aproveitando-se do horário do desfile, e foi muito feliz na concepção e na execução de algumas fantasias, que apresentaram um considerável luxo. O desfile, todavia, ficou marcado por muitas falhas no acabamento das alegorias e também das fantasias. Algumas alas passaram com muitas fantasias danificadas e os adereços de cabeça eram privilégio de pouco mais da metade dos componentes.

O enredo, simples, foi desenvolvido mais como um tratado histórico sobre o Corinthians do que como uma declaração de amor que exaltasse a torcida. A Gaviões foi, claro, encaixada no último setor, quando o Timão foi abandonado no enredo, mas, de resto, um passeio rápido pelo cenário do futebol paulista em 1910 – um esporte de elite – e a importância do Corinthians no papel de aproximar o povo do esporte. Além, claro, de um passeio pelas glórias e pelas conquistas mais importantes. As falhas na parte plástica tiraram qualquer chance de título da Gaviões que, aliás, foi vendo a euforia do público diminuir à medida que o desfile avançava.

Depois de anos com novatas como Gaviões, X-9 e Leandro de Itaquera roubando a cena, o Carnaval de 1998 prometia três velhas adversárias na briga ponto a ponto pelo título: a Vai-Vai desfrutava do maior favoritismo, mas Nenê de Vila Matilde e Rosas de Ouro também eram muito cotadas para levantar a taça, enquanto Camisa Verde e Branco, Mocidade Alegre e Peruche estavam na expectativa por boas colocações.

A apuração começou recheada de surpresas. Por desfilar com 22 baianas a menos que o mínimo exigido – 50 -, a Gaviões foi penalizada em cinco pontos, assim como a X-9, que trouxe os três casais de mestre-sala e porta-bandeira com pavilhões oficiais, o que era proibido. A Vai-Vai, mesmo sendo a maior favorita, surpreendeu ao disparar na frente da Nenê de Vila Matilde.

A Saracura se sagrou campeã com 298,5 pontos de 300 possíveis, 6,5 a mais que a vice-campeã, a Nenê de Vila Matilde. A grande surpresa da apuração foi o terceiro lugar do Camisa Verde e Branco, que somou 290,5 pontos e ficou à frente da Mocidade Alegre e da Gaviões da Fiel, que, com 289 pontos, teria sido vice-campeã se não tivesse sido punida. A Rosas de Ouro terminou em um inexplicável sexto lugar, logo à frente de Unidos do Peruche e Leandro de Itaquera.

A X-9 Paulistana terminou em uma decepcionante nona posição e lá ficaria mesmo se não tivesse sido punida. A X foi salva pela ausência de rebaixamento, assim como a Acadêmicos do Tucuruvi, que ficou em último lugar. No Grupo de Acesso, a Águia de Ouro voltou ao Grupo Especial (havia sido rebaixada em 1997) como campeã do Grupo 1, acompanhada da Imperador do Ipiranga.

Curiosidades

– Pela primeira e única vez desde que começou a transmitir os desfiles, a TV Globo não exibiu o desfile da campeã vigente. No caso, a X-9 Paulistana. A emissora carioca teve mais uma vez o narrador Cléber Machado no comando da maratona de desfiles ao lado de Mariana Godoy.

– Se o regulamento dos anos anteriores fosse mantido, a X-9 Paulistana teria sido rebaixada para o Grupo 1 um ano depois de ser campeã do Grupo Especial. Seria algo inédito na história do Carnaval Paulistano e que seria concretizado em 2004, quando a então bicampeã Gaviões da Fiel caiu para o segundo grupo.

– A Acadêmicos do Tucuruvi voltou ao Grupo Especial para, pelo menos até os dias de hoje, não sair mais. O Zaca começou a trilhar uma trajetória de relativo sucesso no primeiro grupo, que ficou marcada por apresentações bem melhores do que os resultados obtidos.

– Foi a primeira vez na história que a Gaviões, enquanto escola de samba, escolheu o Corinthians como enredo. A escola voltaria a abordar o clube que deu origem à Torcida em 2010, no centenário do Timão.

– Primeiro desfile do Carnavalesco Roberto Szaniecki no Carnaval de São Paulo. Ele seria campeão com a própria Gaviões da Fiel em 1999 e com a Império de Casa Verde em 2006, além de uma passagem rápida pela Tom Maior.

– O Camisa Verde e Branco foi a última escola a posicionar seus carros no Anhembi e, por isso, foi uma das poucas a não ser prejudicada pela chuva que danificou várias alegorias na concentração nos dias anteriores ao desfile.

– Para um desfile que pretendia falar sobre a destacar as lutas dos negros e a desigualdade que ainda imperava no país, chamou a atenção a presença marcante de brancos, maioria esmagadora no desfile da Unidos do Peruche.

– Primeiro desfile do Carnavalesco Wagner Santos. Depois de sua passagem pela Morada do Samba, ele assinaria belos Carnavais por Unidos de Vila Maria e Acadêmicos do Tucuruvi, onde está atualmente.

– Metade dos enredos que foram apresentados no Carnaval paulistano em 1998 foram ou seriam contados de maneira semelhante na Marquês de Sapucaí: os piratas da Tucuruvi (Imperatriz 2001), a fotografia do Camisa (Tijuca 2005), a luta dos negros da Peruche (Mangueira 1988), a união Brasil-França da Leandro (Grande Rio 2009) e o Japão da Vai-Vai (Porto da Pedra 2008).

– Primeiro ano das chamadas “mesas de pista” no Sambódromo. O setor equivale, à título de comparação, com as frisas da Marquês de Sapucaí, com a diferença de que, no mesmo setor, além das mesas para quatro lugares, podem ser compradas também cadeiras individuais.

– Foi um Carnaval marcado pela desorganização e pelas críticas do público presente no Anhembi. Além do sistema de som ter falhado durante toda a noite, a Liga Independente das Escolas de Samba conseguiu vender, a módicos R$ 4600, vagas em dois camarotes que simplesmente não existiam. Uma confusão gigantesca se instalou e virou caso de Polícia. Na pista, o locutor oficial foi vaiado várias vezes por explicar porque apresentava a entrada das escolas em três idiomas e porque o português era o último deles, atrás do inglês e do espanhol. As arquibancadas, aliás, estavam superlotadas e os portões foram abertos com atraso.

– Nos camarotes, a desorganização foi generalizada também nos dois mais badalados, o da Prefeitura e o da Rede Globo. O segundo ficou rapidamente cheio e o primeiro teve um inacreditável número de quatro mil presentes, o dobro da capacidade. Na confusão, o ator e “muso do Carnaval” Miguel Falabella foi barrado por seguranças e PMs do camarote de Celso Pitta mesmo aplicando o manjado “você sabe com quem está falando?”. A entrada foi liberada por produtores da TV Globo. Vereadores e deputados, por sua vez, conseguiam com apenas um telefonema para o Presidente do Anhembi, a entrada de conhecidos e familiares.

– A ARM, contratada a 15 dias do desfile para cuidar do som da Passarela, justificou os problemas como uma “sabotagem”. À época, a empresa realizava quase todos os eventos da Prefeitura e havia vencido a licitação para fornecer o som do Autódromo de Interlagos no Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1.

– Por falar em Prefeitura, o Prefeito Celso Pitta, mais de um ano após sua posse, já não desfrutava mais daquele prestígio de 1997. Na festa da vitória na quadra, o Presidente Solón Tadeu anunciou que Pitta estava a caminho e o Prefeito, que ainda nem tinha chego, foi vaiado por quase todos os seis mil torcedores presentes. Solón implorou: “Nós temos que mostrar ao Pitta nossa recíproca porque ele apóia o Carnaval de São Paulo. Quem é Vai-Vai aqui? Quem é Vai-Vai tem que apoiar o Pitta!”. Não funcionou e o Prefeito acabou cancelando a presença alegando ter que participar de “uma reunião importantíssima”.

Vídeos

A volta do Camisa Verde e Branco
https://www.youtube.com/watch?v=Dd1MQjvb37s

O samba da Nenê
https://www.youtube.com/watch?v=18o37G7KQ5A

O bom desfile da Rosas de Ouro
https://www.youtube.com/watch?v=bicdqwqpbXM

A campeã de 1998
https://www.youtube.com/watch?v=7INTUMSKyyc

10 Replies to “Bodas de Prata – 1998: Oriental, Vai-Vai desbanca velhas rivais e é novamente campeã”

  1. A Leandro de Itaquera vinha apresentando uma evolução muito interessante no quesito Comissão de Frente. Em 1997, ela havia contratado o Fábio de Melo, coreógrafo da Imperatriz Leopoldinense, e em 1998 repetiria o contrato. Mas, um pouco antes do desfile houve uma confusão, pois o Fábio alegou que não houve o pagamento do contrato por parte do seu Leandro. O Fábio disse que entraria com um pedido de impugnação das notas da CF. Não sei como ficou a situação. As coreografias eram muito bonitas, tanto a 1997 quanto a de 1998.

    Abraços!

    1. Dizem as más línguas que a X-9 abriu o desfile como “castigo” pelo resultado anterior. E impressionante como nunca o Szaniecki termina carnaval…

      1. Eu ia dizer exatamente isso que o Migão citou acima, eu achei bem justo o título da Vai-Vai mas a diferença de pontos foi absurda, além claro da posição inacreditável da Rosas de Ouro. Me permita fazer duas correções, o enredo da fotografia da Tijuca foi em 2007, e o enredo dos piratas da Leopoldina foi em 2003. Agora é esperar a próxima coluna.

      2. Era verdade!! Pedro!!
        Quem disse isso foi o Robson de Oliveira que havia assumido a presidência da Liga naquele ano!!

  2. Sobre ambos, Migão, tanto sobre a posição de desfile da X-9 e sobre a crônica questão do inacabamento dos carnavais do Polonês.

  3. Como citado, um grande desfile do pessoal da Bela Vista.
    A Rosas em 6º foi uma surpresa mesmo, bem negativa por sinal.

  4. A confusão na apuração e bastidores em 1997 fizeram com que a X9 realmente abrisse em 1998.

    Lembrando que outro episódio curioso em 2002 aconteceu com a X9, que claro, o colunista irá abordar com muita propriedade.

    Parabéns pelas crônicas dos 25 anos de Anhembi.

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