Outubro é mês de devoções no Brasil, tempo de festas que ritualizam a vida e revigoraram a ideia generosa da fé como pertencimento. Falo do Círio de Nazaré e da Festa da Penha; em Belém do Pará e no Rio de Janeiro.
A história da Penha é conhecida. Reza a tradição que, no século XVII, um português, Baltazar de Abreu Cardoso, saiu para caçar em suas terras. Subitamente apareceu, traiçoeira, uma cobra venenosa. Apavorado, o portuga apelou aos céus: Valei-me, minha Nossa Senhora da Penha! Feito o apelo, surgiu um lagarto imenso que botou a peçonhenta para correr. Baltazar de Abreu Cardoso ergueu uma ermida no local do milagre e prometeu fazer anualmente uma festança para relembrar o fato. Surgia assim uma das maiores tradições cariocas.
Feita a devida referência ao sagrado, constato que milagre maior que o da santa foi o do povo carioca, que tomou para si a festa e a transformou, no início da República, numa espécie de folia pré-carnavalesca e espaço de exercício da cidadania informal.
A República das oligarquias criminalizava a cultura popular. A onda era modernizar e higienizar o Rio de Janeiro em padrões europeus, adotando Paris, a capital francesa, como modelo de conduta e estruturação urbana. E tome de derrubar cortiços e criminalizar as referências culturais do povo mais humilde. Neste clima, as manifestações populares dos descendentes de escravos – o samba, a capoeira e a macumba, por exemplo – eram duramente reprimidas, vistas como símbolos do atraso e da barbárie.
Mas o povo deu o nó em pingo d´água. A rapaziada virou dona da festa e dela fez seu pertencimento. Os capoeiras cortaram o mato nas rodas de volta ao mundo, as baianas prepararam a comida do santo e os bambas mostraram os sambas que tinham acabado de compor. A festa transformou-se, depois do Carnaval, no maior evento popular do Rio de Janeiro.
Os poderosos fizeram de tudo para impedir o furdunço. Em 1904, 1907 e 1912, a prefeitura proibiu rodas de samba nas proximidades da Penha. A rapaziada foi lá, zombou da proibição e fez. Havia ordem de prisão para praticantes da capoeira. O berimbau puxou o toque de São Bento Grande e o povo gingou. A baiana temperou o acarajé, a cerveja gelou e o Rio de Janeiro mostrou que o espaço da civilização da nossa cidade é mesmo a rua.
Por tudo isso sou dos que acham que a cidade do Rio de Janeiro deveria zelar pelos festejos da Penha com cuidado maternal. A festa é parte integrante da História carioca. A decadência dos festejos – por uma série de motivos que demandariam inúmeras discussões – é emblemática, em larga medida, dos paradoxos de uma cidade que, vez por outra, parece querer negar seus traços culturais mais fecundos; sobretudo aqueles que se manifestam nos bairros suburbanos, distantes da Zona Sul.
A maioria da população pode ter, enfim, se esquecido de Nossa Senhora da Penha. Que a santinha, todavia, não se esqueça do Rio de Janeiro e proteja cada vez mais o povo miúdo, aquele que é o que de melhor existe nas terras sagradas e carnavalescas da Guanabara.
Já o Círio mantém uma vitalidade arrebatadora. A festa recria a história de Plácido, caboclo ribeirinho que, em 1700, à beira do igarapé Murucutu, achou uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Plácido cuidou da imagem, bastante desgastada pelo tempo, e montou um modesto altar em sua casa. Diz o povo do Pará que a imagem voltou, misteriosamente, ao local onde tinha sido encontrada algumas vezes. A santinha queria mesmo ficar no igarapé.
O caboclo viu na volta da santa um sinal divino e, por isso, ergueu uma ermida à beira do Murucutu. O povo, sabendo do milagre da volta da imagem, passou a visitar a ermida e reverenciar Nossa Senhora. A festa do Círio de Nazaré, até hoje, reproduz o misterioso retorno da Virgem ao local onde fora encontrada.
Se a fé me falta, sobra o apreço pelos ritos do povo. O Círio, ao longo dos tempos, se transformou em vigorosa celebração da vida em comunidade. Comidas, cantos, louvores, brinquedos, leilões, namoros, cheiros e licores bordam a festança daquilo que constitui, para mim, o verdadeiro sentimento religioso do Brasil – afeto celebrado em festa e recriação, pelo rito, da miudeza provisória da vida.
Por fim, um alerta: esse Brasil ritualizado, temo, pode estar se perdendo em meio ao desencantamento trazido pela intolerância dos fundamentalismos. Sei, por exemplo, que ano após ano crescem as pregações evangélicas contra a festa paraense.
O meu Brasil, o da Festa da Penha e do Círio do Nazaré, é o que não comporta intolerâncias e inventa celebrações que sacralizam o profano e profanam o sagrado. Um país que ritualiza as maneiras de abraçar afetuosamente a vida naquilo que ela é de mais surpreendente: um milagre dos homens.