No último dia cinco de outubro, por volta das nove horas da noite, quando foi decretado o segundo turno entre Dilma e Aécio, milhões vestiram a camisa, pegaram a sua bandeira e saíram pelas redes sociais defendendo seu lado favorito. Uma atitude que se estenderia às ruas, empresas, restaurantes, botequins e rodas de conversa nos dias seguintes. Qual é o mais bonito, ético e heroico: o vermelho ou o azul?
Subitamente, o país se viu mergulhado numa discussão embebida de coração e paixão, quase sem razão. Duas frentes separadas numa rivalidade, da mesma forma que as discussões entre Senna ou Prost, Beatles ou Rolling Stones, Peyton Manning ou Tom Brady, Louis ou Schmelling, Flamengo ou Fluminense, bolacha ou biscoito, democratas ou republicanos… opa, esta rivalidade entre petistas e tucanos não está se tornando como a americana?
Um pouco, mas está.
Mesmo com 32 partidos, só dois conseguem, atualmente, cativar a grande maioria: PT e PSDB, esses coirmãos que, lá no fundo, são como Freddy Kruger e Jason Voorhees para o Brasil. Ok, faço uma exceção para os partidos de viés esquerdista, principalmente o PSOL que vai se firmando como uma representação ideológica necessária neste oceano de partidos à deriva esperando para onde o vento e a maré vão apontar.
No decorrer da campanha, não só os militantes abraçaram o tom bélico, mas também os próprios candidatos e os principais nomes de cada partido. Marqueteiros, percebendo a tendência das redes sociais, investiram em temas populares na internet, transformando o horário político numa versão televisiva de uma timeline de Facebook.
Além disso, com todo o crescimento de Aécio ao final do primeiro turno, João Santana, idealizador da campanha petista, fez Dilma subir no tanque de guerra e apontar a artilharia para Aécio, da mesma forma com que foi feito com Marina. Do outro lado, não era necessário armar nenhuma artilharia. Os mais fanáticos tucanos já fazem uma campanha rasteira desde que se tornaram oposição.
Para encampar as duas raivosas correntes, temos a presença ilustre de formadores de opinião que, pelo jeito, nunca tiveram tempo para formar as deles de uma maneira decente. Pessoas que conseguem propagar um ódio aos eleitores do PT como se fossem a escória da sociedade; ou então taxam os tucanos de malvados genocidas. Nomes que, em um país sério, não estariam sequer empregados na mídia têm espaços nobres nos grandes veículos do Brasil.
Completando a saraivada de flechas nesta campanha atual estão os caciques-mor de PT e PSDB. Lula chama Aécio de “filhinho de papai” e outros adjetivos – só faltando o “cheirador”, enquanto FHC diz que “só vota no PT quem é menos informado”. Ambos esquecendo-se do direito de ficarem de boca fechada…
Enquanto amigos e familiares duelam nos Facebooks, o PT tem seu teto de vidro, tanto quanto o PSDB. A situação fez uma gestão recente claudicante quanto à economia, enquanto a oposição tem péssimo histórico quanto à saúde e educação. Escândalos são emanados, como se um lado fosse angelical e o outro diabólico, provando a valorização extrema do fator “corrupção” no debate político brasileiro.
Com todo o radicalismo presente na sociedade, ganham notoriedade nomes que bradam contra a corrupção e problemas endêmicos do Brasil, sempre prometendo bravatas como soluções milagrosas. Não vai demorar para um deles se lançar à presidência, e com votação significativa (se o leitor lembrou de Jair Bolsonaro, não é mera coincidência). É o ovo da serpente sendo formado, como o Migão volta e meia lembra.
Finalmente, no domingo, o grande ápice desta batalha épica em terras tupiniquins. Teremos pessoas se martirizando, jurando sair do país e prevendo a tragédia e o caos, além de entrar em colapso nervoso de tanto rodar a baiana – temos representantes deste fenômeno nos dois lados.
Um palpite: eu e o Bruno Malta, que relatou seu dia de voto no PT aqui no OT, chegamos à conclusão de que, se Dilma fizer mais que 35% dos votos em São Paulo, ela ganha. Caso Aécio faça mais de 65% em terras paulistas, ele será o novo presidente.
O Datafolha do dia 20 indicou vitória tucana por 60% x 40% na “locomotiva do país”, que detém “apenas” 31 milhões de votantes. No primeiro turno, a maioria do eleitorado paulista já indicou que prefere ficar sem água a ver o PT no poder. Assim, se fez necessária uma redução de danos para Dilma naquele estado.
Enquanto pais e filhos se digladiam, ou então amigos de longa data acabam com seus laços fraternais por causa de dois candidatos a um cargo de presidente, elegemos o Congresso mais conservador após a redemocratização. Com isto, reformas essenciais, como a política, se tornam praticamente impossíveis de serem feitas decentemente.
Políticos de 28 partidos conseguiram uma vaga no Congresso. Tirando poucas legendas, temos partidos à deriva (olá, PMDB!) e/ou de aluguel que podem tornar gestões inviáveis. Tudo isso faz com que esquemas perniciosos se tornem quase uma necessidade. Ou seja, mesmo com Dilma permitindo investigações da Polícia Federal, ou então com a “mudança” de Aécio, a chance da corrupção na alta esfera política diminuir o mínimo que seja torna-se nula.
É muito bom o interesse que o brasileiro vai desenvolvendo, gradativamente, pela política, mas ainda é necessária muita evolução para enriquecer o debate completamente, deixando de lado as brigas infantis que fazem uns se sentirem como se tivessem o seu brinquedo roubado, ao acusarem o adversário de “bobo e feio”.
Vamos com calma com o andor, porque o santo, ele é de barro. E você que se indispôs com um amigo ou familiar, nas redes sociais, por causa de política: faça as pazes, pegue uma pipoca e curta o frisson da noite do dia 26.
Imagens: Uol, Reuters e Terra
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