Com o fim do ano chegando, surgem nas redes sociais pessoas maldizendo o ano e seus 365 dias. Colegas de faculdade e conhecidos do mundo virtual se unem, num inconsciente coletivo, para implorar a chegada do dia 31 de dezembro. É aquela tendência que sempre se repete nos balanços pessoais, com o ano que se encerra sendo maldito para muitos (cada um com suas razões, logicamente), mas isso já é papo para outra coluna, quando 2014 estiver mais perto do seu fim.

Entretanto, se alguém tem total direito de querer esquecer deste ano, este é o futebol brasileiro. Não falo apenas do 7×1, a infame derrota na semifinal da Copa do Mundo – mesmo que o resultado por si já seja suficiente para manchar a temporada. Todo um contexto de fatos botou, definitivamente, o país mais bem-sucedido na modalidade com suas entranhas expostas.

A sucessão de desgraças começou ainda em dezembro de 2013. Dois tumores do futebol brasileiro foram reavivados: as batalhas campais entre torcedores dentro dos estádios, e os campeonatos tendo seu palco final nas salas dos tribunais.

Independente da opinião do leitor quanto à justiça da punição a Portuguesa e da manutenção do Fluminense na Série A, vamos combinar que é vexaminosa a decisão de resultados fora dos campos, já que mostraria, no mínimo, a incompetência dos organizadores do campeonato e dos dirigentes. Digo “mostraria”, porque o Ministério Público indica que a Portuguesa colocou Héverton em campo, na fatídica partida contra o Grêmio, de forma deliberada. Assim outra ferida do futebol tupiniquim fica exposta: a manipulação – independente de quem possa ter aliciado o clube, hipótese investigada pelo MP.

32edfa57-e8a0-4f7f-af02-1a44cf245cf9Após o Lusagate, tivemos o Brasília perdendo – e depois recuperando – o título da Copa Verde 2014 (e a vaga na Sul-Americana 2015) e o América/MG sendo punido na Série B, assim perdendo o acesso, pela falta de competência da CBF em informar aos clubes quais jogadores estão ou não punidos para os jogos. Detalhe: o Corinthians foi absolvido em um caso semelhante…

Também em 2014, o Brasil passou o primeiro semestre vendo estádios às moscas nos combalidos e, atualmente, insossos estaduais e, na mesma época, nenhum time brasileiro chegou sequer à semifinal da Taça Libertadores, isto em um ano onde: Nacional (do Paraguai, e não o tradicional uruguaio), Defensor  e Bolívar chegaram nesta fase. Apenas o San Lorenzo poderia ser considerado um time de tradição continental, e ainda assim não é o mais poderoso da Argentina.

No segundo semestre, a sorte do futebol brasileiro em competições internacionais não melhorou. O São Paulo, melhor representante na competição, parou nas semis, para o colombiano Nacional de Medellín.

Contudo, na Copa do Brasil, um alento: Cruzeiro x Atlético/MG, clássico local, protagonizando uma final histórica, tanto pela rivalidade, quanto pela qualidade dos dois times, os melhores do país na atualidade. Jogo para estádio cheio sem nem pestanejar?

Que nada. No jogo da volta da decisão, um “clarão” constrangedor ocupava todo o setor lateral do Mineirão. Fruto da extorsão que se tornaram os preços dos ingressos no Brasil. A entrada para tal setor estava na casa de 800 mangos. Nem mesmo os mais apaixonados se atreveram a tanto.

17073217Os preços absurdos não são só exclusividade da final da Copa do Brasil. Embates de “alto nível técnico” do Brasileirão como Atlético/PR x Sport tiveram entradas de 150 reais, para quem não é sócio. Fica caracterizada uma clara tentativa de forçar a associação aos clubes e de faturar alto, mesmo que o produto vendido seja de qualidade questionável – haja passes errados de dois metros…

Os estádios de alto nível, que a Copa proporcionou, subiram à cabeça dos dirigentes, fora as privatizações das Arenas, que também elevam os custos dos tickets. O que nós vimos no pós-Copa? Estádios que tiveram ocupação de mais de 95% no Mundial não têm sequer 40% de lotação no cenário nacional.

“Ah, mas a Minas Arena é que a culpada pelo Mineirão vazio”. Até compreendo, mas três dias antes, no jogo do título cruzeirense do Brasileirão, o estádio estava repleto. Será que o clube não poderia ter auxiliado para evitar o setor às moscas na final da Copa do Brasil? A questão é ainda mais pertinente, se observarmos o cenário de picuinha entre as diretorias do Galo e da Raposa. A rivalidade que deveria permanecer em campo, se tornou uma guerra de acusações entre os cartolas, prejudicando os fãs.

Some-se a isso a aparente incompetência da polícia em conter eventuais confusões entre torcedores dos dois arquirrivais – que costumam ser bem violentas, segundo relatos dos belo-horizontinos – e tivemos uma partida de ida com torcida única. Como vingança, a volta com preços na casa dos quatro dígitos para os atleticanos. Para piorar, situações do gênero não são exclusividade de Minas Gerais.

Para coroar tudo isso, o 7×1.

O mais simbólico massacre da história do esporte, se mensurarmos o contexto da partida e o histórico da Seleção Brasileira. O Minerazo expôs a má qualidade das safras recentes de jogadores brasileiros, uma compreensão tática defasada de treinadores e transformou a arrogância que cinco títulos proporcionaram numa piada. Por mais que o resultado tenha sido extraordinário, mesmo se fosse acidental e se o futebol brasileiro tivesse às mil maravilhas, ele já seria trágico.

brasil e alemanha 1O grande problema não é o simbolismo do 7×1 (que era 7×0 até os 45’ do 2º tempo). Se Brasil e Alemanha jogassem mais cem vezes, dificilmente o resultado se repetiria. A questão é que é impossível ver o Brasil como favorito contra uma seleção de grande porte no cenário atual. Situação desastrosa para a magnitude do futebol brasileiro, que não é aliviada nem pela qualidade de comando, já que as três eliminações recentes em Copas – todas para seleções de grande porte e de forma inquestionável – tiveram participação enorme da falta de controle dos técnicos. A farra de 2006, o descontrole emocional em situações adversas de 2010 e 2014, somado a uma falha bisonha de estratégia neste ano, contra a Alemanha.

E pior, os cartolas parecem embalsamados ao passado, ainda acreditando que somos o “macho-alfa” do futebol mundial. “Craques brotam nas nossas terras, nas esquinas, não precisamos mudar”, dizem os dirigentes, classe formada pelos preparadíssimos e jurássicos José Maria Marin, Marco Polo del Nero, dentre outros – lembrando que Eurico Miranda voltou ao Vasco em 2014.

Sim, os talentos brotam, mas a base não os lapida. É um trabalho amador que privilegia os jogadores mais altos e fortes, já que a busca por resultados é a tônica, e não a formação concreta de talentos.

Busca por resultados que se tornou um Nemesis do nosso futebol. Uns dizem que vale tudo para ganhar, usando a falácia de que o jogo ofensivo não ganha campeonatos. Outros, saudosistas, acham que temos de implantar a “cultura do jogo bonito” e danem-se os títulos. Poucos são capazes de entender que você tem que usar o material que tem, adequar a estratégia e disputar títulos, que são sim os objetivos, mas que o jogo ofensivo pode dar resultados frutíferos e de longo prazo, se bem montado – as duas últimas campeãs mundiais estão aí para provar isso.

Não é necessária a dicotomia entre as viúvas de 1982 e os que querem um título a qualquer custo, com base no imediatismo. Vale lembrar que para muitos o time de 82 é melhor que o de 1970, o que mostra toda a dificuldade de uma seleção daquela voltar a se repetir. Por outro lado, o futebol atual não premia mais os trabalhos na base da raça, camisa e do coração.

suarez1A profundidade do debate sobre o jogo é um problema que se estende também a imprensa esportiva. No jogo contra a Alemanha, por exemplo, muitos bancavam uma formatação tática errônea para ambos os times envolvidos – como observado pelo jornalista do Grande Prêmio, Pedro Henrique Marum, à época. Mesmo a ESPN, paladina da justiça do esporte brasileiro, é errática neste sentido. Os programas de mesa-redonda da casa, em diversos momentos, são pautados, quase que totalmente, nas discussões sobre arbitragem ao invés das características dos jogos, como se o futebol fosse disputado por 22 árbitros e cinco jogadores, e não o inverso.

Tudo isto faz com que 2014 seja o pior ano do futebol brasileiro desde que ele se tornou a potência histórica que é, um verdadeiro Annus Horribilis, que se encerra tendo o seu maior símbolo, Pelé, em estado de saúde delicado. O Brasil caminha a passos largos para ser um Uruguai em larga escala, um país que quando alguém dizia que era favorito para uma Copa, por exemplo, todos concordavam e respeitavam. A se seguirem as pataquadas relatadas, se o Brasil for apontado como favorito, nas conversas cotidianas daqui em diante, algum gaiato responderá: “só se for para cair nas quartas-de-final”.

One Reply to “2014: O Annus Horribilis do futebol brasileiro”

  1. A pachecada pira no seu belo texto! Eu só não estendo o assunto, pq no meu Face já falo mto sobre isso… Mas adiciono uma coisa: A série B ainda pode ser decidida no tapetão! Ou seja, não mudou nada!

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