Eis que Pelé recebeu alta ontem do hospital após uma cirurgia renal e uma infecção mal explicada que quase o levou à morte. E a internação e o estado de saúde então delicado do ex-jogador levou muitos a debaterem algo que havia passado despercebido até hoje: o legado que deixará o Rei do Futebol.

Pelé se consagrou mito do futebol em uma era ainda não tão conectada e filmada e que, por isso mesmo, talvez não tenha tido o reconhecimento ou o carinho que merecia por parte da população brasileira. Certo, também, que seus posicionamentos em sua vida fora dos campos criaram uma certa antipatia em setores da sociedade, mas é um Mito. E mitos não se contestam. Mitos se reverenciam.

Minha lembrança mais antiga do craque (lembrem-se, leitores, tenho 40 anos e não o vi jogar nos áureos tempos) foi a única vez em que o craque vestiu a camisa rubro negra, em 1979. Era um amistoso contra o Atlético Mineiro em benefício das vítimas das enchentes que assolaram o país naquele início de ano.

Pelé, aos 39 anos, jogou 45 minutos naquela noite onde o Flamengo venceria por 5 a 1 – e um certo ponta esquerda chamado Júlio César “Uri Geller” roubaria as atenções de público e crítica. Aqui a Revista Placar da semana seguinte traz todo o material daquela partida.

Cheguei a ver o Rei do Futebol mais algumas (poucas) vezes em ação pelo Cosmos, de New York, na primeira tentativa de popularização do “soccer” em terras americanas. Em época com poucos vídeos e pouca disseminação da informação, passei a conhecer a lenda pelos relatos dos mais antigos e das imagens mostradas pela imprensa esportiva, aquela época restrita à tv aberta.

Recordo-me de uma brincadeira que meu pai fazia quando era garoto, que as iniciais “CCCP” da camisa da então União Soviética (que, na verdade, eram a sigla URSS no idioma russo) na verdade significavam “Cuidado Com o Crioulo Pelé”. Hoje soaria preconceituoso, mas eram outros tempos, leitor; não podemos deslocar a perspectiva histórica. Era uma amostra do respeito e da admiração que ele despertava.

Placar Pelé no FlamengoMas todos sabemos que Messi, Cristiano Ronaldo ou Maradona, embora tenham se beneficiado da difusão da televisão e posteriormente da internet, não chegaram nem perto do que Pelé foi. O curioso é que na opinião dele, em entrevista concedida em 2010, quem mais se aproximou dele na opinião do próprio foi Zico, Flamengo e Seleção Brasileira.

Imagine o leitor o que representaria Pelé se tivesse jogado em uma época como a atual, onde podemos ver ao vivo partidas de campeonatos longínquos como o russo, o turco ou o australiano? Quanto valeria seus direitos federativos? Em uma época onde o conceito de “ídolo” perdeu um pouco da localidade – e da exigência, a repercussão dos feitos do “Atleta do Século” certamente seria exponencialmente maior.

Três títulos mundiais pela Seleção, duas Libertadores e dois Mundiais Interclubes pelo Santos, incontáveis Estaduais paulistas e “Taças Brasil”. Na época não havia o Campeonato Brasileiro estruturado como hoje, mas imaginem o que ele poderia ter adicionado à sala de troféus do Santos antes de uma inevitável transferência para o exterior.

O leitor consegue imaginar?

Pelé-bicicleta-2 O futebol brasileiro jamais seria respeitado como o é hoje (apesar de seus mandatários, mas este é papo para depois) se não tivesse havido Pelé. Cada criança, cada peladeiro, carrega nas peladas seu legado.

O personagem “extra-futebol”, sem dúvida, é no mínimo controvertido. Suas idas e vindas na política do futebol após encerrar a carreira e o episódio onde se recusou a reconhecer uma filha legítima certamente trouxeram antipatia de muitos. Sua posição no mínimo dúbia no combate ao racismo, também. A sensação que eu tenho é de que nem ele mesmo tem ideia de seu poder como formador de opinião – aquela velha dicotomia entre o “Pelé” mito e o “Édson”, humano.

Coutinho, seu principal parceiro de ataque no Santos, costumava dizer que ele se achava melhor jogador do mundo. Porque Pelé, para ele, era um “extraterrestre”.

Talvez os momentos em que a vida de Pelé esteve por um fio tenham, além de ter provocado o debate sobre seu legado, tornado o mito mais humano aos olhos da população. Não somente na imprensa – que em certo momento, dadas as informações, passou a se preparar para o pior – como no próprio dia a dia das pessoas parece ter caído a ficha do que o astro representa ao futebol brasileiro. A doença e quase partida humanizaram Pelé.

Até que ponto isso se manterá no futuro ou é apenas efeito imediato da “quase perda”, não sabemos.

O tempo dirá. Vida longa ao Rei!