Depois de muita espera, enfim está nas lojas de todo o Brasil o CD oficial com os sambas das 12 escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Então, como fiz ano passado e como fizeram outros colunistas, faço aqui a minha análise de uma safra bastante inferior às três anteriores, mas que ganhou o CD mais bem produzido de todos os tempos, em minha visão.

Não quero aqui pagar de especialista ou ter a pretensão de ser jurado, mas deixo aqui um esclarecimento sobre os critérios que uso para esse texto. É que eu parto do princípio que os sambas não são escolhidos pelas escolas com base no que eu vou gostar ou não (e acredito que esse meu palpite tenha boas chances de estar correto), mas sim para atender aos critérios definidos no Manual do Julgador. Portanto, acho um pouco injusto julgar as obras por conta do meu gosto pessoal. Primeiro porque, vejam, ele é pessoal. Depois, porque não foram feitos pra isso.

Desse modo, dou as notas como manda a cartilha dos jurados: notas de 4,5 a 5,0 para a letra, com base na riqueza poética, a coerência com o enredo e o entrosamento com a melodia e de 4,5 a 5,0 para a própria melodia, baseado no bom gosto, na adaptação ao canto do componente e suas características rítmicas.

Para começar, eis as notas para os sambas que passarão pela Marquês de Sapucaí no dia 15 de fevereiro, domingo – amanhã falo sobre os de segunda-feira.

Domingo, 15 de fevereiro
Unidos do Viradouro
Enredo: “Nas veias do Brasil, é a Viradouro em uma dia de graça!”
Compositor: Luiz Carlos da Vila (Adap.: Gusttavo Clarão)
Intérprete: Zé Paulo Sierra

viradouro1Voltando ao Grupo Especial, a Unidos do Viradouro inverteu a ordem natural das coisas. Em vez de escolher um enredo para originar um samba, escolheu dois sambas do grande Luiz Carlos da Vila para cantar o enredo sobre a influência dos negros no Brasil. A junção melódica das músicas “Nas veias do Brasil” e “Por um dia de graça” ficou a cargo de Gusttavo Clarão, Presidente da escola e um dos compositores que mais entendem do riscado.

Assim sendo, não havia dúvidas de que sairia coisa muito boa dessa história. Só que quando foi divulgada a primeira gravação, lá no começo do ano, muita gente, inclusive eu, dizia que era um ótimo samba, mas que não era um samba-enredo. Agora, com a versão do CD, uma produção mais específica para o gênero samba-enredo e um acompanhamento mais notório da Bateria, dá pra dizer: é um samba-enredo. Mais do que isso: é um excelente samba-enredo.

Pode não ser um samba-enredo aos moldes do Carnaval atual, mas é espetacular. Falar da letra é chover no molhado. Versos como “os negros trazidos lá do além-mar / vieram para espalhar suas coisas transcendentais”, “ao índio veio juntar o amor à liberdade”, “em cada palma de mão, cada palmo de chão / semente de felicidade” e, os meus preferidos, “o samba corre / nas veias dessa Pátria mãe gentil / é preciso a atitude de assumir a negritude / pra ser muito mais Brasil” estão na história da música brasileira e tem tudo a ver com o que qualquer amante de Carnaval espera de um samba-enredo.

A melodia foi muito bem construída por Gusttavo Clarão, que encaixou uma estrofe de “Por um dia de graça” com maestria após o refrão do meio, e, como se viu, a obra serve tanto como samba de meio de ano, quanto como samba-enredo. Gostei muito do acompanhamento da Bateria Furacão Vermelho e Branco, que parece não ter optado por seguir sua característica maior de acelerar demasiadamente os sambas. A única ressalva que faço à obra enquanto samba-enredo é quanto ao “oooooooooo / ooooooooooo / ooooooo, Brasil”, que é a ligação entre o refrão principal e o início da primeira parte. Acho que prejudicará o canto dos componentes e poderia ter sido tranquilamente suprimido da obra.

Letra do Samba: 5,0. Melodia: 4,9. Nota: 9,9.

mangueira4Estação Primeira de Mangueira
Enredo: “Agora chegou a vez, vou cantar: mulher de Mangueira, mulher brasileira em primeiro lugar”
Compositores: Renan Brandão, Cadu, Alemão do Cavaco, Paulinho Bandolim, Deivid Domênico e Almyr
Intérprete: Luizito (Part. Especial: Alcione)

O enredo sobre as mulheres que fizeram a história de uma das maiores escolas de samba do Brasil ganhou, em minha análise, o melhor samba da Estação Primeira de Mangueira desde 2011. A obra, que derrotou o samba da poderosa parceria tricampeã comandada por Lequinho, é diferente do que vinha sendo apresentado pela escola: os compositores mantiveram a riqueza poética dos sambas, mas conseguiram encaixar uma melodia mais envolvente, mais ousada, mais bem trabalhada. Não que os sambas de 2012 e 2014, por exemplo, não o tivessem, mas esse tem mais a cara da Verde-e-Rosa.

Os pontos altos do samba são os dois refrões. O principal é daqueles que se canta com orgulho, especialmente os versos “eu vou cantar a vida inteira / pra sempre Mangueira, tem que respeitar” e o do meio quebra de maneira interessantíssima a sequência melódica do samba pois é mais leve, digamos assim. A segunda parte se destaca em relação à primeira, especialmente na melodia. Destaque para os trechos: “linda, a beleza tem poesia / a Rainha veste a magia das cores em nossa estação” e, especialmente, “desperta, amor / pra ver a Neuma na Avenida / o povo aplaude Dona Zica / sagrado verde e rosa nessa história / glória a essas divas tão guerreiras / a nossa Maria não é brincadeira / é raça, é fibra, é jequitibá”.

A segunda parte, porém, tem uma passagem que me incomoda, logo ali no começo: a parte que diz “ao som de doces melodias / e as estrelas da nossa canção” é cantada em um tom muito mais baixo que o resto do samba, o que dá uma quebrada na melodia e dificulta o canto. A primeira parte, apesar de menos trechos inspirados, tem uma construção mais correta. Ressalvo apenas os versos “em cada alvorada te agradeço / as maravilhas do meu tempo de criança” que tem um erro grave de concordância. Luizito teve brilhante interpretação e valorizou ainda mais a ótima melodia deste grande samba mangueirense, assim como a participação da grande Alcione.

Letra do Samba: 4,9. Melodia: 4,9. Nota: 9,8.

Mocidade Independente de Padre Miguel
Enredo: “Se o Mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia?”
Compositores: Ricardo Mendonça, Tio Bira, Anderson Viana e Lúcio Naval
Intérprete: Bruno Ribas

O enredo sobre o fim do mundo não era, desde seu nascimento, dos mais propícios para uma obra-prima. No entanto, a safra de sambas concorrentes da Mocidade chamou a atenção pelo baixíssimo nível e, ao meu ver, a escola acabou fazendo uma escolha correta ao adotar um hino que, se levado no andamento correto, pode sim dar certo na Marquês de Sapucaí. Os compositores acertaram a mão na melodia, que é ousada, envolvente, com boas variações e torna o samba fácil de ser cantado.

É um samba que entendeu bem o espírito do enredo, que é talvez dos mais irreverentes desenvolvidos por Paulo Barros. Ele é para cantar, para servir ao desfile e deve, aproveitando-se do momento de êxtase da comunidade, render bem. O refrão principal, por exemplo, é dos mais sensacionais com o seu “invade, se joga na felicidade” e sua boa sacada no “hoje é o dia, vem se acabar”. Só que a impressão que eu tenho é que, se os compositores pegaram o espírito do enredo na melodia, falharam muito na construção da letra, o que prejudicou muito o samba.

Por exemplo: o refrão do meio destoa totalmente do proposto na sinopse e tem dois versos finais claramente “tapando buraco”: “eu já tô louco, sou Vintém, sou Padre Miguel / cada segundo vou curtindo a vida”. Na segunda parte, por sua vez há um erro de concordância no “diga o que vai fazer? / cantava, brincava, sorria?”. Se é uma pergunta, a resposta, ainda que em forma de mais perguntas, deveria ser “cantaria, brincaria”, etc. Por fim, o verso “sem restrições morrer de amor” quebrou todo o sentido que vinha sendo construído em uma letra que, definitivamente, não foi feliz. Bruno Ribas, intérprete do qual não sou fã, teve excelente desempenho e ofereceu algo a mais ao samba.

Letra do Samba: 4,6. Melodia: 5,0. Nota: 9,6.

vilacampea2013Unidos de Vila Isabel
Enredo: “O Maestro brasileiro está na Terra de Noel… A partitura é azul e branca da nossa Vila Isabel”
Compositores: Carlinhos Petisco, Serginho 20, Machadinho, Paulinho Valença e Henrique Hoffman
Intérprete: Gilsinho

Existem sambas que só podem ser levados para a Avenida em determinadas escolas. Esse samba que cantará o enredo sobre a música clássica, por exemplo, não serviria para outra escola que não a Vila Isabel. A ousadia da melodia, a poesia despretensiosa da letra, enfim, pequenas coisas que tornam um samba diferente. E um samba diferente com a cara e o jeito da Vila Isabel e de uma Vila Isabel que precisava, sim, seguir novos caminhos. É uma coisa que já aparece no belíssimo refrão principal, que deve balançar a escola (e pode trazer problemas, pois o começo da primeira parte é mais cadenciado e pode levar a uma queda brusca no canto da Vila): “no ar a mais bela sinfonia / é de arrepiar, comunidade unida a cantar…”.

Esse samba me surpreendeu bastante, pois, à primeira audição, não havia gostado. Mas, ouvindo mais atentamente, prestando mais atenção, notei um entrosamento perfeito entre letra e melodia. As variações melódicas foram construídas não só de maneira inteligente e de bom gosto, mas também em coerência com as passagens da letra, como se vê, por exemplo, em “mais cordas, metais”. A primeira parte se destaca por essas variações ousadas e por alternar passagens mais cadenciadas com outras mais aceleradas sem quebrar as características rítmicas e a beleza do samba. Faço apenas uma ressalva quanto ao verso “eu quero curtir ‘O Guarani’”, que destoou demais da poesia do resto da letra.

O grande problema desse samba, como já vem sendo falado por todo mundo, é esse refrão do meio inventado pela escola que não tem nada a ver com a melodia da obra. Assim, toda a cuidadosa transição entre o fim da primeira parte e o começo da segunda foi jogada no lixo e a obra foi prejudicada. Na segunda parte, destaco a melodia em “seguem no compasso a Swinguiera / a orquestra brasileira, o balé” e a manutenção das variações melódicas que tiram o samba da monotonia. O intérprete Gilsinho conduziu muito bem o samba.

Letra do Samba: 4,9. Melodia: 4,9. Nota: 9,8.

salgueiro2014Acadêmicos do Salgueiro
Enredo; “Do fundo do quintal, sabores e saberes na Sapucaí”
Compositores: Xande de Pilares, Jassa, Betinho de Pilares, Miudinho, Luiz Pião e W. Corrêa
Intérpretes: Serginho do Porto e Leonardo Bessa (Part. Especial: Xande de Pilares)

Depois de dois anos com sambas muito melhores que as sinopses, confesso que fiquei negativamente surpreso com as obras que participaram da disputa para o brilhante enredo sobre a cozinha mineira que o Salgueiro levará para a Avenida em 2015. Os sambas, todos eles, ficaram muito inferiores ao enredo, o que é estranho pela Ala de Compositores que a escola tem. No entanto, a versão final do samba acabou ficando bastante superior à versão que disputou as eliminatórias. Pelas mudanças feitas pela diretoria e também pelo grande desempenho dos intérpretes Serginho do Porto e Leonardo Bessa.

Os compositores captaram bem a essência do enredo e fizeram uma letra solta, leve, fácil de ser cantada. Passearam bem por cada ponto do enredo, contaram bem a historia e, à parte o desagradável clichê “bota a fé no coração” no refrão principal, foram muito bem nesse ponto. Mas, na melodia, o mesmo não pode ser dito. O samba teve uma construção melódica bastante infeliz e, especialmente nos primeiros versos, é acelerado demais. Por conta dessa construção deficiente, a obra é cantada ora em um tom muito baixo, ora em um tom muito alto, o que é bastante incômodo. Ainda na primeira parte, os versos finais, que começam em “é de dar água na boca” se arrastam e há um perceptível esforço para “fechar” a melodia.

A segunda parte tinha uma construção mais regular, era mais agradável, apesar de ainda ser um pouco marcheada, mas a decisão de unir o refrão “é no tacho, na panela, mexe com a colher de pau / saberes e sabores lá no fundo do quintal” aos demais versos arrebentou com tudo nesse sentido. O samba não é um desastre, pode render bem, mas, ainda assim, é um dos piores da safra.

Letra do Samba: 4,9. Melodia: 4,6. Nota: 9,5.

Acadêmicos do Grande Rio
Enredo: “A Grande Rio é do baralho”
Compositores: Rafael Santos, Lucas Donato, Gabriel Sorriso, Leandro Canavarro e Rodrigo Moreira
Intérprete: Emerson Dias

Confesso que estou bastante surpreso com a Grande Rio desse enredo sobre o baralho. Não esperava ver a escola de Duque de Caxias com tanta irreverência – que acabará simbolizada nesse samba -, muito menos apostando em uma jovem pareceria e menos ainda com tanta alegria e descontração como se vê em matérias pela internet. Mas, apesar de achar tudo isso muito legal e de entender esse samba como uma aposta louvável (e cujo sucesso me deixaria satisfeito), considero uma escolha errada analisando única e exclusivamente o samba (e não os quesitos por ele influenciados).

A ideia dos compositores foi excelente, mas não foi bem executada. O refrão principal, por exemplo: foi muito bem pensado, mas a melodia não ficou legal pois pouco remete a um samba-enredo. Além do mais, o verso “eu vou na ginga, jeito malandreado” também não foi feliz. Outro ponto que me agradou demais foi a opção por não ficar totalmente preso à sinopse. Porém, versos como “no castelo de quem ama / sou teu servo minha linda flor” fugiram demais da proposta e isso prejudica a obra.

Na melodia, temos boas variações (como no início da segunda parte), que me agradam muito, mas também temos uma escolha errada do intérprete Emerson Dias, que alternou bons e maus momentos na gravação, em cantar o samba em um tom excessivamente alto. Por fim, o refrão do meio tem uma excelente sacada, mas a melodia não foi fechada corretamente como se vê quando ocorre a repetição. Em suma: palmas para os compositores pela inovação e pela escola pela aposta, mas, pelo menos em minha análise, dava para ser melhor.

Letra do Samba: 4,8. Melodia: 4,7. Nota: 9,5.

Abaixo, os áudios oficiais do dia.

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