Nesta última sexta, 28 de Novembro, perdemos um dos maiores gênios da arte mundial, Roberto Gomes Bolaños.
Sim, ele era mexicano, mas parecia tão íntimo, tão familiar, que poderíamos confundi-lo com alguém muito próximo, como se fosse nós mesmos. Partiu cheio de glórias, de reconhecimento, de amor. Além do talento para escrever e atuar, soube como poucos, traduzir com perfeição e sensibilidade a alma e a mente de uma criança, tanto que foi além: fez com que crianças, adultos e idosos de três gerações, por 90 países, se encantassem e se apaixonassem.
Bolaños começou a atuar como Chaves e Chapolin logo após completar 40 anos. Mas não era um homem de meia idade que víamos todos os dias na TV. Tal qual era a sua entrega e sua astúcia em encarnar a personagem, enxergávamos ali sim, um menino de oito anos. Cheio de pureza, com uma certa pitada de rebeldia e sarcasmo, mas ainda assim uma criança. Não bastasse entregar seu próprio corpo a este papel, ainda deu vida a toda uma vila. E quantos e quantos personagens e histórias podemos lembrar. De qual deles gostamos menos? Qual escolheríamos para deixar a série? Impossível. Seu Madruga, Chiquinha, Quico, Dona Florinda, Professor Girafales, Dona Clotilde, a bruxa, Seu Barriga, etc, etc, etc….foram tantos e tantos.
Com um primor irretocável, fez cada um com personalidade própria, distinta. Cada um deles tinha seu gestual, seu modo de falar e agir, seu temperamento e a união de todos formava a receita inigualável, perfeita. Fez rir com quase nada. Fazia humor com o normal, o comum, o tolo e ainda assim era genial. Cada história parecia ser vivida em nosso dia a dia. Vizinhos em briga, a mãe coruja que defendia com unhas e dentes o filho, o professor de todo dia, nem sempre reconhecido, o malabarismo para fugir das dívidas, as brincadeiras e emoções de cada dia.
Fazia humor ingênuo, circense, quase caricato. Nunca, em mais de trinta anos assistindo a série, e por dezenas de vezes, o mesmo episódio, ouvi um palavrão, uma palavra agressiva, uma cena de nudez. Na vila não havia espaço para isso. É verdade que, de vez em quando, havia um flerte com o malfeito, com o sentimento de vingança, com as brigas entre as crianças (muitas vezes os adultos também), mas tudo permeado de forma tênue pela leveza do humor de Bolaños. Nunca havia final triste: havia sempre espaço para lembrar e mostrar o amor e a amizade. E era sempre isso que vencia, no final.
Quando Bolaños encarnava Chapolin Colorado, não havia limites para a imaginação. Como não lembrar do pirata Alma Negra, da casa mal assombrada, do doutor Chapatim, dos fora-da-lei Quase Nada e Tripa Seca, esses épicos. O Chapolin era um pouco de todos nós, o herói do terceiro mundo. Sem forças, sem poderes especiais, mas com muita vontade de salvar, de cuidar, de resolver os problemas do mundo, mesmo que dentro do seu quarteirão. Ainda hoje me pergunto se eram “pedras” ou “aerolitos”. Se o Tatatatatatatatataravô realmente existiu, se as pedras em Marte podem mesmo voar, se a pílula de nanicolina funcionava mesmo, se os movimentos eram, mesmo, friamente calculados, se as anteninhas de vinil podiam detectar o inimigo. Genial, simples e genial.
Sei que fomos privilegiados, pois fomos contemporâneos de um homem singular. Não tive a oportunidade de ver Chaplin em vida, mas o privilégio de ver sua obra imortal, anos depois. Que seja assim com Chespirito. Que nunca o deixem cair no esquecimento, que a vastidão e relevância de sua obra seja perpetuada por décadas, séculos. Pois foram daqueles seres tocados por Deus que surgem como um cometa, de século em século. Demoraremos algum tempo para que outro Bolanõs surja. Não como ele, claro, mas o show deve continuar.
Hoje você, que tantas e tantas vezes me fez rir, me deixou escapar uma lágrima no rosto. Mas eu entendo, pois sei que foi sem querer, querendo. Continuaremos lembrando você e rindo das mesmas piadas. Que nossos filhos e netos também possam rir.
Que Deus abençoe a todos nós, Chespirito!
[N.do.E.: não era fã do seriado, mas as imagens do velório que compõem este post são absolutamente impressionantes. PM]
Imagens: Globo.com