No fim do ano passado escrevi sobre mais um ano lamentável do futebol carioca em termos de administração dos clubes. Mais uma vez Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco foram coadjuvantes no cenário nacional, com o agravante de o Alvinegro de General Severiano ter sido rebaixado pela segunda vez para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.
Pois bem, às vésperas de mais um Estadual, surge uma notícia que nada contribui para uma evolução deste quadro ridículo em que se encontra o futebol do Rio: numa decisão que lembra os tempos do “Ame-o ou Deixe-o”, ficou estabelecido que os clubes podem pagar multa de até R$ 50 mil caso algum profissional fale mal da competição publicamente.
Em resumo: quem se sentir incomodado com ausência de público, estádios em péssimo estado de conservação, horários das partidas, arbitragens incompetentes, formato da competição, tabelas malfeitas, entre outras coisas, terá de ficar com o bico calado sob pena de ver o seu clube multado – isso se a agremiação não repassar a multa para o “reclamão”.
O que mais causa indignação é que tal medida foi aprovada por unanimidade. Ou seja, os clubes – em conluio com a federação – querem mesmo é calar na marra quem se posiciona contra a série de desmandos que eles mesmos perpetuam. Tal como Médici (ou Castelo Branco, Costa e Silva, Geisel e Figueiredo, escolham vocês) e o Congresso faziam nos Anos de Chumbo.
Para piorar, nos últimos dias a Polícia Militar informou que as condições dos estádios que farão parte do Carioca são tão ruins que o policiamento terá de ser reforçado nos dias de jogos. Simplesmente o efetivo para proteger a população nas ruas será reduzido para não deixar os palcos das partidas do “grandioso” Carioca desguarnecidos.
Confesso que estou extremamente desanimado para acompanhar os jogos do Cariocão. Terei de fazê-lo por compromissos profissionais, mas uma queda no meu índice de motivação, que vinha aumentando, parece ter chegado no ponto mais baixo.
No ano passado, o título conquistado pelo Flamengo não me satisfez nem 2% do que ocorrera em todas as vezes anteriores. Primeiro porque foi um campeonato chatíssimo, com estádios vazios (foto) e partidas desinteressantes. E, segundo, porque o time não merecia dentro de campo levar a taça (embora tenha feito a melhor campanha e jogado com empenho na final) e foi beneficiado por um gol escandalosamente irregular no apagar das luzes.
Já escrevi aqui no Ouro de Tolo que sou favorável à manutenção dos Estaduais. Afinal, nossas lembranças mais agradáveis no futebol ocorreram em partidas domésticas, nas quais a rivalidade desperta grandes sentimentos. Mas, não resta a menor dúvida, o formato desses campeonatos precisa ser revisto.
Para este ano, foi mantido o esdrúxulo formato com uma interminável primeira fase, em que todos jogam contra todos, seguida por semifinais e finais. Até o charme das decisões de turno e returno eles conseguiram jogar por terra…
E uma forma de manter viva essa chama dos Estaduais seria reconhecendo os erros existentes e tentando melhorar. Nem sempre se acerta, mas a tentativa de se evoluir merece ao menos um crédito de confiança por parte do torcedor e da imprensa.
Mas certamente o que eles estão fazendo é querer varrer a própria incompetência para debaixo do tapete e fazer do Carioca um quintal de desmandos. Lembrem-se que a eleição da federação passa – e muito – pelos votos dos clubes “pequenos” e do interior…
Lamento pelo torcedor, lamento por nós jornalistas que temos de cobrir uma competição de nível cada vez pior, e, sobretudo, lamento pelos jogadores de futebol, que são obrigados a participar deste circo para poderem exercer a sua profissão.
Tragam meu Cariocão de volta…
Fotos: Globoesporte.com e Lancenet
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