A pouco mais de um mês para os desfiles das escolas de samba, venho agora trazer para o Ouro de Tolo, depois de analisados os sambas do Rio de Janeiro em seus dois principais grupos, minhas análises para os sambas das 14 escolas do Grupo Especial de São Paulo. Uma safra que em dado momento das disputas se anunciava trágica, mas que acabou saindo melhor que o esperado.
Para quem não viu os meus pitacos para os sambas do Rio de Janeiro, lembro novamente que tento ao máximo fugir do meu gosto pessoal para fazer essa avaliação porque ele é, vejam, pessoal. Então, tomo como base o manual do julgador. Em São Paulo, as notas vão de 8,0 a 10,0 sem divisão específica para letra e melodia. Assim, leva-se em conta a adequação da letra ao enredo, sua riqueza poética, a construção melódica do samba e seu entrosamento com os versos. Agora vamos aos sambas que passarão pelo Anhembi na sexta e sábado de Carnaval.
Sexta-Feira, 13 de Fevereiro
Mancha Verde
Enredo: “Quando surge o alviverde imponente – 100 anos de lutas e glórias”
Compositores: Silas Augusto, Marcelo Casa Nossa, Aquiles da Vila, Bruno Mancha e JC Castilho
Intérprete: Freddy Vianna
Voltando ao Grupo Especial com uma homenagem ao centenário do Palmeiras, a Mancha Verde teve uma das disputas de mais alto nível que já vi até hoje. Ao meu ver, sete dos 22 sambas que participaram das eliminatórias poderiam representar tranquilamente a escola na Avenida. Ganhou o que inicialmente eu julgava o menos interessante desses sete, mas que, agora, já desponta como um dos bons sambas dessa safra 2015.
Os compositores acertaram em cheio ao tentar fazer um samba muito bonito tanto em letra, quanto em melodia. É, inegavelmente, um samba para o palmeirense se emocionar, mas até torcedores de outros times, desde que tenham a mente um pouco aberta, podem cantar com força algumas passagens da obra. Gosto muito do refrão principal que diz “de braços abertos, vou me declarar / eu amo você Palmeiras”. A primeira parte é menos emotiva, opta por traduzir mais os pontos iniciais do enredo e faz isso com muita competência. Destaque para trechos como “nem sei por onde começar / de tanto amar seu manto sagrado” e “em solo brasileiro, dos povos o mais guerreiro”.
Considero o refrão do meio o ponto negativo da obra. A ideia da transformação do Palestra Itália para Palmeiras foi muito bem passada na letra, mas a melodia fica um pouco cansativa por causa dos dois “olê” que são muito longos. A segunda parte é simplesmente brilhante com versos maravilhosos como “heroico, no ardor da partida / ostentou sua fibra / com as cores do meu Brasil / brilham na Academia / estrelas de um lindo jardim / Divino a luz que me guia…”.
Vale lembrar também os versos finais: “sagrada, nas mãos de um Santo minha devoção” e “em verde e branco quero eternizar / a nova casa, meu orgulho meu lugar”. Apesar da melodia ser muito bem construída, sinto falta de uma ousadia maior, de algum momento de maior explosão no samba. A melodia é muito linear. Freddy Vianna tem, mais uma vez, ótimo desempenho na gravação.
Nota: 9,8.
Acadêmicos do Tucuruvi
Enredo: “Entre confetes e serpentinas, Tucuruvi relembra as marchinhas do seu, do meu, do nosso Carnaval”
Compositores: Fábio Jelleya, Henrique Barba, Leandro Franja, Serginho Moura, Gabriel, Fabinho Chaves, Edu Borel e JC Castilho
Intérprete: Clayton Reis
O samba que vai cantar o enredo das marchinhas de Carnaval, mais um acerto da Tucuruvi, é mais um na linha que já virou marca da parceria tetracampeã e que também é a cara da escola: simples, bonito e muito gostoso de cantar. É samba pro componente sair sem voz do Anhembi. Pessoalmente, considero esse o melhor samba de todos os que a parceria já venceu porque os compositores mantiveram o alto padrão da melodia, mas fizeram uma letra mais inteligente.
A brincadeira com as muitas marchinhas de sucesso através da história rendeu ótimas sacadas porque o samba é cantado em primeira pessoa, o que é outro acerto. Assim, as marchinhas contam sua própria história em versos como “eu fiz de tudo pra você gostar de mim / a minha história vai te conquistar”, “jardineira, vem meu amor / não faça como a Colombina que deixou chorando o seu Pierrot”, que é o meu preferido, “Allah, meu bom Allah / cachaça não é água, quero me acabar / sou da turma do funil / tenho a cara do Brasil” e “hoje faço a festa na Avenida / ta-hí o Carnaval da minha vida”.
Os compositores misturaram essas brincadeiras a uma nítida preocupação em mostrar o que é o enredo, que não se limita a um recorte de marchinhas famosas. A melodia também foi muito bem construída, com boas variações, onde se destaca a passagem “tão bela, a noite dos mascarados”. No entanto, creio que as duas mudanças melódicas da segunda parte (dos versos 3 para 4 e 9 para 10) prejudicam um pouco a sequência rítmica do samba. O intérprete Clayton Reis, estreando como cantor principal, não se destacou, mas também não comprometeu e cantou bem o samba.
Nota: 9,9.
Enredo: “Adrenalina”
Compositores: André Ricardo, Biel, Carlos Dorea, Marquinhos, Douglas, Xande Werner, Rafa do Cavaco, Imperial, Tião, Lucas Donato, Gabriel Sorriso e Rafael Santos
Intérprete: Renê Sobral
O simplório enredo sobre a adrenalina rendeu à Tom Maior um samba de qualidade. Resume bem o enredo, tem uma letra com boas sacadas e uma melodia interessante. Mas, ainda assim, um samba que tem suas falhas. A junção feita pela escola deu muito certo em termos de letra, mas complicou toda a melodia. Para que a mudança de um samba pro outro no refrão do meio não fosse notada, o último verso da primeira parte, “nem com o tempo se desfaz”, está sendo cantado em um tom mais acima, o que quebra a sequência rítmica do samba.
Lá nos dois versos finais, é visível a mudança do estilo da composição, por maior que tenha sido o esforço da escola para camuflar essa mudança. Mas, para começar os elogios, destaco o refrão principal, que pode não ter uma sacada brilhante, mas é animado. Na primeira parte, muito boa a alusão ao grito de guerra do intérprete Renê Sobral (que, aliás, teve mais um desempenho que beirou a perfeição e acrescentou muito ao samba) em “a sirene tocou, uma vez ecoou / canta Tom Maior” e muito bonitos os versos “os olhos se cruzam no ar / num doce bailar, faz arrepiar”. O refrão do meio também passa muito bem.
Na segunda parte, porém, a letra me soa desconexa em duas passagens. Primeiro em “vai coração, sem limites quero superar / vale o risco, vale o grito, eu aposto pra ganhar” e depois em “e a força que invade leva o povo sempre a sonhar que a ilusão não acabou em cinzas / a fantasia traz a luz de um novo dia”. Os dois versos finais, que são da parceria de André Ricardo, faziam parte de um conjunto de cinco ou seis versos que estariam entre os mais interessantes do ano. No fim, foi aproveitado o ótimo “vermelho, amarelo, minha vida, meu pavilhão / graças a Deus o povo grita é campeão”.
Nota: 9,6.
Dragões da Real
Enredo: “Acredite se puder!”
Compositores: Godoi, Galo, Thiago SP, Gordinho, Carlos Jr., Lagrilinha, Sidney Caló, Edson Liz, Rodrigo Atração e Tigrão
Intérprete: Daniel Collête
O confuso enredo da Dragões que pretende mostrar ao público que é sempre preciso acreditar ganhou uma safra de sambas além do esperado, com três obras de muita qualidade. No fim, vitória da parceria encabeçada por Rodrigo Godói. Uma vitória justa não só porque era o melhor samba, mas porque, no ano anterior, a parceria também já havia apresentado uma obra de muita qualidade e acabou não vencendo.
Enfim, o samba é bom, mas não conseguiu explicar bem o enredo. Era uma tarefa difícil, claro, já que a sinopse era bem complicada, mas, ainda assim, há de se dizer que, pelo samba, é difícil entender exatamente qual o enredo da Dragões. A letra narra fielmente a sinopse e, se a sinopse é confusa, o samba se torna confuso também. Ainda assim, algumas partes do samba se destacam como “para acreditar não é preciso ver / sonhando também pude aprender”, “vou crescer e sonhar / voar, voar, voar e superar” e “e venha o que vier / acredite se puder!”.
Por outro lado, os versos finais da primeira parte – “eu quero tudo que eu posso imaginar / numa floresta, o seu encanto / não pude acreditar” – são um pouco confusos. A melodia é muito bem construída, agradável para se cantar, mas poderia ser um pouco mais ousada. Para encerrar com um destaque positivo, os dois refrões são muito bons. Acho até que o do meio se sobressai em relação ao principal. Daniel Collête, ao contrário do que disse na primeira vez que ouvi a gravação oficial, teve mais um desempenho brilhante. Incrível como canta cada vez melhor.
Nota: 9,7.
Enredo: “Depois da tempestade… O encanto”
Compositores: Armênio Poesia, Diego Poesia, Kadu, Leandro Oliveira, Wellington da Padaria e Xandinho Nocera
Intérprete: Darlan Alves
Outro enredo dos mais confusos, porém com uma sinopse mais esclarecedora, a história da menina que encara uma tempestade e volta com mais força para superar seus desafios ganhou mais um bom samba vindo da parceria de Armênio Poesia. A sinopse mais bem explicada, em um comparativo com o samba da Dragões, gerou um samba de mais fácil entendimento, contando uma história com início, meio e fim bem definidos.
O problema do samba é que falta uma maior comunicação, falta um momento de maior explosão, aquele momento para inflar o componente. Ele passa bem o tempo todo, tem uma melodia que, à parte a subida de tom em “estrelas vão iluminar o meu caminhar”, é muito agradável, uma letra muito interessante, dois refrãos muito pertinentes ao enredo, mas não te surpreende em nenhum momento. Não faltam variações melódicas, o problema não é esse, mas falta algo a mais.
Ainda assim, é um bom samba, com uma letra inteligente e com versos bonitos como “o que importa o tempo? / se quem me leva é o vento”, “lutar, jogar a partida / saber ganhar ou perder / ter fé no tabuleiro da vida / você pode avançar e vencer” (esse é um ótimo refrão do meio) e “se o amor prevalecer / tudo vai se transformar / verá o arco-íris nascer / o tesouro está dentro de você”. Minha crítica fica por conta dos primeiros versos: “uma tempestade louca / me deu mais força e o poder de superar / ao cortejo que fascina…”. Não fica explícito o que vai ser superado. Isso aconteceu depois da escola mudar a letra nesse trecho. Na versão inicial, era bem nítida a passagem. Darlan Alves apresentou uma evolução interessante, mas ainda não fez boa gravação.
Nota: 9,7.
Águia de Ouro
Enredo: “120 Anos do tratado da amizade Brasil e Japão”
Compositores: Pelezinho, Sergio Igor, Chanel da Vila e Ivanzinho
Intérprete: Serginho do Porto
Exaltando os laços de união entre o Brasil e Japão, a Águia de Ouro não trará um samba de muita qualidade para a Avenida em 2015. Mais uma vez apostando em um samba “caseiro”, ou seja, sem disputa de samba, a escola da Pompéia tem um hino que tem como principal, e talvez único, mérito, o fato de ser muito animado e, assim, ter alguma chance de render bem.
Os problemas do samba começam já no refrão principal, que não foi bem construído e em alguns momentos chega a ser gritado na passagem “voa Águia e vai buscar”. A primeira parte até tem uma boa letra, mas escorrega no verso “hoje é modernidade… Guerreiros da criação”. Os Guerreiros em questão não dialogam com a modernidade, nem com o corpo onde se guarda o tesouro, verso seguinte. Ainda na primeira parte, há uma descida de tom incômoda em “colher… e semear os frutos da Mãe Natureza” que destoa do conjunto melódico.
O refrão do meio tem um bom início, mas apela para um clichê no seu verso final: “respeito à vida, religião / é paz no coração”. A melodia na segunda parte é mais bem trabalhada, a letra também apresenta uma melhora considerável e o único erro fica por conta da subida de tom em “em forma de arte unindo o folclore / é cultura popular”. O samba melhorou bastante depois que a bateria optou por acelerá-lo e tem o seu trecho mais inspirado em “e mostrar ao mundo inteiro / mais um samba verdadeiro / no Carnaval de Asakusa”. Serginho do Porto não fez boa gravação.
Nota: 9,5.
Nenê de Vila Matilde
Enredo: “Moçambique, a lendária terra do Baobá sagrado”
Compositores: Afonsinho, Rubens Gordinho, Dedé, D’Malva e Jair Brandão
Intérprete: Agnaldo Amaral (Part. Especial: Afonsinho)
E no fim da primeira noite temos o primeiro samba que não é apenas um grande samba. É um sambaço. Um samba afro, com melodia envolvente, gostoso de cantar, com um andamento mais acelerado e uma letra perfeita. É a cara da Nenê de Vila Matilde e muito pertinente a um enredo sobre Moçambique. O refrão principal é, com folga, o melhor do ano por conta da espetacular melodia: “bate o tambor do meu samba / surdo, tarol e repique / a Vila hoje canta Moçambique / vem Bateria de Bamba / quem esperou pra me ver / chegou, Nenê”.
A primeira parte já leva o público ao espírito do enredo, que é narrado em primeira pessoa por Baobá, a árvore sagrada. Como já dito antes, tem um andamento acelerado na medida certa, muito por conta da excelente construção melódica. Um dos compositores do samba, Afonsinho disse recentemente que a parceria acertou na melodia e é isso mesmo. Eu falei do refrão principal, mas, na minha visão, o ponto alto do samba é o refrão do meio. Não bastasse a ótima melodia em “o mar virou, mar virou, mareia / ao longe ouço cantar sereia”, ele ainda tem um final bem forte: “eu vi chegar o invasor, dragões e filhos de Alah / demônios de além-mar”.
A segunda parte alterna passagens aceleradas com outras mais cadenciadas, o que é uma variação interessante, e também guarda trechos inspirados como “testemunha de batalhas, resistência / eu não me curvo jamais”, “hoje a savana renasce / a vida floresce nos braços da paz”, “surge o Leão da Tecnologia / vejo um futuro promissor” e “eu vim pro Carnaval / trazendo o sorriso dessa gente / minha Águia espalha essa semente”. As duas mudanças melódicas da segunda parte (do verso 5 para o 6 e do 7 para o 8) poderiam ter comprometido o samba, mas, pelo contrário, acrescentaram ainda mais à obra.
Agnaldo Amaral optou por uma interpretação que foge um pouco ao seu estilo e cantou muito bem o samba. Afonsinho se destacou nos cacos e gritos de empolgação. Destaque para o belo alusivo, um dos melhores momentos do CD.
Nota: 10,0.
Abaixo, os áudios deste dia de desfile e, amanhã, a análise das escolas de sábado.
Realmente os sambas da Nenê, Tucuruvi e Mancha salvam o desfile de sexta. E que a Nenê tenha sorte este ano. Em 2014 fez um desfile para ficar entre 8° á 10°luguar, mas apenas quase foi rebaixada. Ansioso para ver o q vc vai falar do samba da X-9 e a decepção da minha Vila Maria.
Leonardo, na sua opinião, quais os outros sambas que disputaram na Mancha poderiam ter vencido?
Infelizmente só vi seu comentário agora. Gostava muito dos sambas do Freddy Vianna, do Juninho Berin, do Vaguinho, do Celsinho e do Rodrigo Atração. Na verdade eram seis e não sete, como eu disse no texto.