Com a chegada do Carnaval, também emergem várias pessoas bradando palavras de ordem contra a festa momesca. Os que acreditam que o Carnaval é o grande problema do país vão à desforra, principalmente nas redes sociais, para menosprezar a festa e suas tradições, que são um grande ingrediente na cultura nacional.

Dentre este contexto todo se inserem, logicamente, as escolas de samba. Não faltam opiniões (principalmente fora do Rio de Janeiro) de que o evento é uma tranqueira, cultura de baixo nível e o reino da promiscuidade.

Quem é apaixonado, ou que já tentou acompanhar o mundo do samba, sabe boa parte das bravatas ditas acima – e que se pode fazer diversas outras críticas à festa com um embasamento bem maior.

Um fato é a queda na popularidade das escolas de samba. Um produto que estava no auge nos anos 1980, tinha o disco de sambas-enredo vendido a rodo, e diversas obras caindo no gosto nacional, atualmente foi reduzido a um nicho de fanáticos.

Dúvida: o que as escolas de samba e a Liesa, entidade carioca principal dentre as que deveriam reger o evento fazem para mudar a situação? Muito pouco.

Capa do Cd do Grupo Especial 2013

Apesar de uma queda latente nos anos 2000, a qualidade dos sambas-enredo foi retomada a um bom nível em diversas obras desta década de 2010, e a divulgação é pífia. Tanto que mesmo em desfile com sambas que não devem a vários clássicos, como Portela-2012 ou Vila Isabel-2013, a reação das arquibancadas era muito mais tímida que outrora. Claro que a elitização dos preços para assistir o carnaval in loco (outro fato lamentável) ajuda, mas muitas das pessoas, mesmo dos setores populares, só conhecerem os sambas na hora do desfile é algo ridículo.

No texto do colega de site Aloísio Villar, há uma crítica ao desleixo com que a Rede Globo trata as escolas de samba, também cornetando a leniência da Liesa com o assunto. Uma das grandes questões disso tudo é que uma péssima cobertura, também calcada em comentários vazios e pouco informativos, dificulta a chance de o Carnaval conquistar novos fãs.

Sim, novos fãs. Pessoas que perpetuem a tradição.

Quem já é fanático por Carnaval vai dar um jeito de acompanhar os desfiles de Viradouro e São Clemente, pela internet ou pelas rádios. Mas aquela pessoa que não tem pique para ver toda a noite, gosta, mas não acompanha tanto? Ou então quem tem curiosidade para conhecer e se depara uma transmissão que não informa e só valoriza os artistas da casa?

Na falta de exigir um carinho melhor é que a Liesa peca. Em vez disso, temos a Globo atrasando ensaio para gravar cena de novela – que deve passar exatamente na hora do desfile de segunda-feira de Carnaval que ela preteriu.

Também falta um melhor cuidado em questão de relacionamento com o público fiel do Carnaval. Ingressos que sejam vendidos de maneira mais fácil, e não pelo jurássico fax; preços mais acessíveis.

Falta uma melhor projeção da Liga e das escolas via redes sociais. Exemplo: a Lieses, que cuida do carnaval capixaba, tem uma página no Facebook com movimentação intensa de informações e até sambas divulgados de todas as escolas em SoundCloud. A Liesa não chega nem perto de fazer isso, ou de oferecer um acervo via Youtube com composições do ano, ou desfiles históricos – apesar de que isso deve depender daquela viciosa relação com a detentora da transmissão.

Além disso, há reclamações de falta de eventos que usem o Sambódromo ou exponham mais as escolas durante o ano, fora a inexistência de produtos relacionados ao Carnaval e às agremiações na Sapucaí.

Toda essa falta de fé na força do produto – leia-se, uma publicidade fraca – faz com que, cada vez mais, escola de samba seja vista com menos importância e como uma cultura que fica abaixo de outros elementos.

Isso gera críticas fáceis ao patrocínio de uma Petrobrás (apesar de que a crise da empresa colabora), ou mesmo da subvenção pública, a um evento que é cultural, atrai turistas que vão deixar muita grana em vários setores da cidade, movimentando a economia local.

E aí, chegamos a outro ponto: as finanças e os gastos das escolas de samba. Não é sensato que haja uma dependência tão grande de subvenções e patrocínios, a pontos de enredos bizarros irem à avenida apenas pela necessidade de grana – e, também, pela falta de traquejo de se lidar com os parceiros comerciais. O caso mais recente é o contraditório patrocínio da ditadura de Guiné Equatorial à Beija-Flor, apesar do enredo parecer não ser desenvolvido como um merchandising puro.

beijaflor_edit02-7

É necessária uma maior profissionalização da gestão das grandes escolas, que, em maioria, são amadoras, no sentido pejorativo. Deveria haver um esforço para que as agremiações pudessem ser autossuficientes, não sendo tão dependentes de subvenções, por exemplo. Com isso, dependendo dos mecanismos, fosse possível até uma mudança nas regras de distribuição de dinheiro, privilegiando as escolas abnegadas de grupos menores, assim aumentando o nível num geral.

Outro ponto, ainda na questão financeira, é a megalomania alegórica que tomou conta do Carnaval do Grupo Especial carioca nos últimos 15, 20 anos. Fato que eleva os custos da preparação a níveis estratosféricos. Hoje, estima-se que uma escola que desfile num nível de campeonato torre de dez a doze milhões de reais. E o valor aumenta, ano a ano, de forma exponencial.

Curiosamente, esta época de desinteresse crescente pelas escolas de samba coincide com a supervalorização dos quesitos visuais em detrimento dos elementos de chão, e também com a queda do nível dos sambas-enredo, citada no começo deste texto.

Ora, os quesitos visuais dão o toque ao espetáculo, mas o que emociona e empolga é uma boa composição, uma bateria acertada, uma harmonia concisa e uma evolução leve. Afinal, o nome desta brincadeira é escola de samba, não de alegorias, fantasias, ou comissão de frente. Não que estes quesitos devam ser desprezados, mas sim, conviver em conjunto com os outros.

Tudo isso é digno de ser avaliado já que as escolas de samba são um elemento cultural que se impôs como algo relevante e simbólico, se tornando um ícone à parte no Carnaval. Como disse Joãosinho Trinta, antes do lendário e popular Ratos e Urubus: larguem a minha fantasia (Beija-Flor, 1989), “escola de samba não é mais oba-oba de cCarnaval, mas sim um grande momento da vida brasileira”.

Dito isto, é importante que haja um esforço para retomar este posto de importância, fazendo com que este mundo chegue ao grande público, para evitar as rasas opiniões já mencionadas aqui e almejando o ganho a granel de novos fãs da festa, para que ela não mingue.

Entretanto, esperar isso da Liesa e das grandes escolas de samba, que atualmente se preocupam mais em talhar jurados competentes, só porque eles deram notas diferentes de dez, é a mesma coisa que acreditar em coelhinho da Páscoa.

One Reply to “A pior venda de produto da Terra”

Comments are closed.