No último domingo a Portela realizou seu ensaio técnico na Marquês de Sapucaí, visando ao desfile do dia 16 de fevereiro. Foi um ensaio bastante elogiado por público e crítica, apesar da chuva, um dilúvio bíblico que se abateu sobre a escola exatamente no momento em que se preparava para se iniciar o seu ensaio – como a foto do alto do post mostra.

Em que pese o temporal, o público que lotava o Sambódromo não somente não arredou pé como ensaiou junto com a escola, cantando o samba e saudando a escola no Setor 1 aos gritos de “a campeã voltou” e “campeã”. Os componentes também não se abateram e cantaram com ainda mais fibra o samba enredo da agremiação.

Não tenho como avaliar se o ensaio da Águia foi o melhor da temporada, pois foi o único em que estive presencialmente – e ensaiando, o que muda a nossa percepção. Entretanto, os leitores desta revista eletrônica tem à disposição as séries de colunas assinadas pelo Aloísio Villar e Fred Soares, e, a partir delas, o leitor pode tirar suas próprias conclusões.

O que é certo é que a Portela vive uma fase diferente, como não vivia há bastante tempo. Como o próprio Villar escreveu anteriormente, não é uma nova fase: é a volta aos velhos tempos. Tempos em que a Azul e Branca entrava sempre como uma das favoritas, era temida.

O clima que vem se observando neste pré-Carnaval tem refletido e reflete estes novos velhos tempos. Após um longo inverno em que o portelense mais do que brigar com as demais escolas, brigava com as próprias deficiências de origem gerencial, hoje ele se permite sonhar com o título. Sabe que precisa trabalhar e trabalhar dobrado, duramente, mas hoje sabe que pode ser recompensado com a taça e o fim do jejum na Quarta Feira de Cinzas.

A própria energia do ensaio técnico mostrou isso. Era algo difícil de se explicar, mas é diferente. Sentia-se isso. O pequeno vídeo que fiz acima talvez ajude a explicar, porque não consigo encontrar palavras que definam. Apenas dizer que ocorreu. A chuva batia, a chuva encharcava, e nós cantávamos mais. E mais, e mais…

Obviamente que nestes novos tempos há o mérito da diretoria que assumiu em maio de 2013 – e, como vocês estão cansados de saber, da qual faço parte. O trabalho de estruturar e reerguer a terra arrasada deixada pela administração anterior foi bastante árduo no primeiro ano. Em nove meses se precisou levantar a herança anterior, renegociar e equacionar dívidas, estabelecer um modelo de gestão e ainda fazer um carnaval do zero.

Enfrentamos muitas desconfianças de que conseguiríamos reerguer de forma rápida a Portela. Antes do Carnaval-2014 me recordo que expressava confiança em um grande desfile, e era olhado com incredulidade até por pessoas do meio. Entretanto, via os preparativos e sabia que viria coisa boa, como veio.20150201_193958Para 2015, com mais tempo de trabalho e enredo definido desde janeiro do ano passado, a preparação pôde se estabelecer de forma mais tranquila. Ainda há dívidas (muitas), ainda aparecem “surpresas” da administração anterior, mas a base de 2014 permitiu um trabalho mais estruturado. Que se ressalve: sem um centavo de patrocínio oficial da Prefeitura, ao contrário do que muitos pensam e o enredo sugeriria.

Escolheu-se  o samba que a escola queria – embora à ocasião não fosse o meu preferido mas o errado, no caso, sou eu e aqui faço o “mea culpa” – e a soma de uma administração séria e competente com profissionais gabaritados e uma comunidade apaixonada colocou a Portela, de novo, na rota de voltar ao seu lugar de direito.

Os ensaios na quadra tornaram-se verdadeiros cultos à Mãe Águia, comandados pelos “pastores” Wantuir e Wander. A comunidade canta o samba como se fosse música “gospel” à brasileira, cultuando a expressão popular representada pelo samba. Tudo sob as bênçãos de Nossa Senhora da Conceição e São Sebastião, nossos padroeiros, na Catedral da Rua Clara Nunes.

Com todos estes fatores, é natural que a escola seja apontada por público e crítica como uma das favoritas ao Carnaval-2015. O portelense e sua diretoria sabem que ainda precisam trabalhar muito para fazer valer este favoritismo junto de outras escolas, mas é reflexo do caminho de resgate traçado pela escola desde maio de 2013. Somente após 82 minutos de desfile poderemos ter certeza desta condição, mas se está traçando o caminho.

Trabalho que começou lá atrás, após aquele que considero o pior momento da história da Portela, pior até a meu juízo que a tragédia de 2005: o incêndio ocorrido na Cidade do Samba e, pela primeira vez, a escola ficando de fora do desfile oficial competitivo.

Primeiro com a união para impor um novo modelo de sambas-enredo – e a composição de 2012 é considerada por boa parte do público e crítica especializadas o melhor samba enredo deste terceiro milênio, depois para se estruturar politicamente a fim de sanar o maior problema que havia: o gerencial e de liderança.

20150201_210502E este trabalho de resgate que vem desde 2011 culmina neste momento que estamos vivendo: poder novamente viver um pré-carnaval com a confiança de que sim, é possível quebrar o jejum. Trabalhar duro, ainda há muito a se fazer, mas sabemos que entraremos no desfile em condições de igualdade, não derrotados antecipadamente pelas nossas próprias deficiências.

Com o perdão do clichê, o gigante acordou. E está com fome. Como diz o samba de 91, que se transformou em uma espécie de samba exaltação após a tragédia, “posso perder, posso ganhar, isso é normal. 21 vezes campeã do carnaval”.

E que vai em busca da vigésima-segunda.

Cabe ressaltar também o papel das nossas lideranças, o presidente Serginho Procópio, nosso vice presidente e superintendente de carnaval Marcos Falcon, nosso presidente de honra Monarco e tantos outros mais que dão seu tempo e sua colaboração ao resgate deste patrimônio brasileiro.

E, finalizando, tenho orgulho e terei orgulho de contar para meus netos que escrevi e escrevo uma nota de pé de página neste processo de resgate da Mãe Águia. Sei que estamos fazendo História com letras maiúsculas.

Pelo menos um milagre esta fase da Portela já fez: como os leitores podem ver pela foto abaixo, estou até sorrindo… Ou, como disse minha filha mais velha, estou parecendo uma criança que ganhou um chocolate muito ansiado. Mas chocolate é o que queremos oferecer dia 16 de fevereiro. Pra cima deles!

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6 Replies to “O momento da Portela”

  1. Prezado Pedro,
    Eu fui para o centro da arquibancada lotada do setor 10, justamente para sentir esse momento mágico que é o resurgimento da Portela e pude testemunhar aquele fenômeno indescritível que você tentou descrever não só da participação dos componentes da Portela, mas de toda a arquibancada: de fato parecia uma louvação, um batismo dos céus (com muita água) ao renascimento da Portela. Simplesmente inexplicável e emocionante. Nunca vi nada igual!

  2. Parabéns pela sua coluna e você descreveu perfeitamente o sentimento de todos nós Portelenses: Com muita humildade e com muita coisa a se fazer ainda, vamos para a briga só que em condições de igualdade com as co-irmãs e vamos em busca do nosso 22° campeonato!

    Avante Portelenses Rumo a Vitória!

  3. portela campeã e beija-flor vice,eu acredito,rsrs,em terceiro a imperatriz,em quarto a tijuca,em quinto a grande rio,em sexto,o salgueiro.esse é o meu sábado das campeãs,concorda,discorda.um abração,migão,e voce acredita no acesso da tradição,quem são as maiores rivais.

  4. Com certeza, o ensaio da Portela na Sapucaí foi uma experiência espiritual. Pra bom entendedor meia palavra basta.Salve ela!

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