Se sobrevivermos a esse período que vivemos, com certeza a década de 10 do século XXI será conhecido nos livros de história como ‘A era do ódio’. A internet, talvez o meio mais democrático hoje em dia, é o maior celeiro desse ódio, com certeza. Digo que a internet é o mais democrático não porque atende a todos e todos tem acesso, mas qualquer um pode expressar sua opinião. Seja através de um blog, como esse, em sua página pessoal nas redes sociais ou em comentários dos grandes portais que, graças a uma mente brilhante, são moderados e assim evitamos ler maiores absurdos.

Já que a internet é onde o ódio é mais claro, vamos começar por ela. Foi ela, inclusive, que me deu a ideia de escrever esse post. Ontem, a Rosana Hermann, do R7, publicou esse texto. Nele, escreve que foi alvo de misoginia e gordofobia pelo Twitter. Um garoto a xingou porque um post sobre Twitter no blog estaria errado. Em 2015, o garoto buscou um vídeo de 2010 em uma página fechada em 2011. São cinco anos entre a data do vídeo e a data do xingamento. A internet mudou muitos nesses cinco, mas Rosana foi vítima de um garoto que nem olhou a data de quando aquilo foi produzido.

E é assim na internet. Todos os dias seja por colocarmos opiniões ou simplesmente comentarmos algo, podemos ser vítimas desse ódio. Se você acerta, mas não da maneira com que a outra pessoa quer, ela te xinga. Se você erra (e somos humanos, portanto, sujeito a erros), ela te xinga.

O pior é que esse ódio deixou a internet e passou para a vida real, e as vítimas aparecem a cada dia. Ódio por motivos cada vez mais torpes que ferem e matam.

thumbNo último domingo, foi lembrado o Dia Internacional da Mulher, na segunda-feira, a presidente da República, Dilma Rousseff, sancionou a lei do Feminicídio, na qual o assassinato por razões de gênero, menosprezo ou descriminação contra mulheres passa a ser crime hediondo. Um crime que mata 15 mulheres por dia no Brasil.

Assim, como mulheres, os gays são vítimas desse ódio seja nas redes sociais ou nas ruas. No Brasil, ano passado, mais de 200 pessoas foram mortas por crimes de homofobia – que não é crime no país. Aqui, a chance de um gay ser assassinado é de 80 vezes mais que no Chile. São inúmeros casos de agressões pelo país.

1212201112316Em 2010, Luis Alberto Betonio foi atingido por uma lâmpada em plena Avenida Paulista pelo fato de ser gay. Em 2011, em São João da Boa Vista, pai e filho, heterossexuais, foram vítimas da homofobia. Estavam abraçados em um parque de exposições na cidade. O pai teve parte da orelha decepada por um grupo de homofóbicos que, antes de atacar, perguntou se tratava de um casal gay. Mesmo com a negativa, os dois foram vítimas. Eu poderia citar mais uma centena desses casos.

O ódio também atinge as religiões. No começo deste ano, um grupo terrorista invadiu a redação do jornal francês Charlie Hebdo e matou jornalistas e cartunistas. O ataque foi feito por membros da Al Qaeda, mas quem sofreu com isso foram muçulmanos do mundo inteiro. No Brasil, uma pernambucana foi vítima de um ataque. Um homem jogou uma pedra aos gritos de “muçulmana maldita”. Ela sofreu ameaças após a publicação da notícia, mas antes já tinha sofrido xingamentos, golpes de guarda-chuva e pessoas puxando o véu.

Mas com certeza o ódio mais explícito nos dias de hoje é aquele por motivações de opiniões políticas. Eu discuto política desde que me entendo por gente, mas hoje está impossível conversar sobre qualquer coisa da política brasileira.

No último domingo, Dilma Rousseff fez um pronunciamento na TV e um panelaço ecoou em várias cidades. Não vou julgar se a manifestação é certa ou não, todos têm o direito de manifestar, mas, além das panelas, xingamentos para a presidente. As redes sociais se infestaram de ataques à presidente e contra aqueles que a defendem ou que votaram nela e, como o ódio gera ódio, houve a retaliação e a situação ficou insuportável na noite do domingo seja no Facebook ou no Twitter.

2014-762495866-2014102326957.jpg_20141023Já não é de agora esse clima bélico entre tucanos e petistas. No mês passado, em um ato “em defesa da Petrobrás”, militantes dos dois partidos partiram para as vias de fato e uma grande confusão aconteceu no Rio de Janeiro. Briga que já tinha acontecido na Avenida Paulista durante a campanha do ano passado.

Independentemente da crise política, há uma crise de relacionamento. As pessoas não conseguem mais conversar. Qualquer notícia publicada em algum site, qualquer notícia, seja de política, esportes, ciência ou internacional, o ódio político aparece. Uns dizem que a “a culpa é do PT” e outros que “era pior na era FHC”.

A situação deve piorar neste fim de semana. Duas manifestações estão marcadas. Sexta-feira, os defensores de Dilma vão para as ruas, no domingo será a vez dos contrários à presidente.

Seja nas redes sociais ou na vida real. Por qualquer motivo futil. Por sexualidade, religião, política ou futebol. Hoje, o ódio é parte mais evidente na nossa sociedade. O que resta é torcermos para sobrevivermos a essa era.

10636205_742113525857340_3455720209132156572_nEm tempo: Após a eleição do ano passado, um tumblr foi criado ‘pedindo desculpas’ para o amigo que perdeu durante as eleições. Quando esse clima eleitoral passar, o http://coxinhas2petralha.tumblr.com/ deve ser visitado para, com bom humor, as amizades serem refeitas.