Basta abrir os jornais, acessar a internet ou ligar a TV para “saber” que o Brasil passa por uma grave crise econômica. Não importa que o país tenha passado de uma situação de ser um dos maiores devedores internacionais para ser, hoje, um dos cinco maiores credores do governo dos Estados Unidos. Não importa que o País tenha deixado de ter uma das maiores taxas de desemprego do mundo para chegar ao menor índice de desemprego de sua série histórica, em meio a um mundo em que o desemprego é uma epidemia. Não importa que o mundo inteiro esteja sucumbindo à maior crise econômica em mais de 80 anos, enquanto o Brasil fica entre os três maiores crescimentos do PIB desde o início desta mesma crise. Não importa que a Petrobras tenha quintuplicado seu lucro, ganhado prêmios de qualidade e se tornado a maior empresa petrolífera de capital aberto do mundo, “todo mundo sabe” que a empresa está “quebrada”. Para seus arautos, esta crise é nossa, tupiniquim, exclusiva e, obviamente, como todo o resto, é “culpa do PT”.
Se você rebate um absurdo desses, se não é um robotizado que se alimenta apenas do noticiário pré-fabricado dos grandes grupos de comunicação nacional, se você acessa dados reconhecidos no mundo como base de comparação, se você tem uma mínima noção da realidade do Planeta no qual vive, se você não suporta ser feito de bobo em prol de interesses que nem são seus, então você será chamado de petista, petralha, comunista, radical, comprado, vendido, alugado, corrupto e daí para pior. Tristes tempos em que ter capacidade de leitura e interpretação, pesquisar os dados originais disponíveis em vez de engolir a papinha já mastigada que a imprensa dá, ter pensamento livre e próprio, saber o básico de economia, perceber a manipulação de grupos políticos e econômicos, em vez de te valorizar, te transforma em inimigo.
E, por estas e outras, por meios tortos, eu sou obrigado a concordar que o Brasil realmente vive uma crise. É uma sinuca de bico, na qual nos metemos por conta própria. Eu sou absolutamente contra a “síndrome de vira-lata” que assola brasileiros pouco orgulhosos de sua condição. Mas também não vou ao oposto ufanista de achar que vivemos numa nação de sábios. E estamos pagando por nossas idiossincrasias.
Há becos estruturais, coisas que têm a ver com a gestão macro e política. Em geral, questões como investimento em infraestrutura, prazo e custos de grandes obras etc. Há outras em que o público e o privado se misturam bem, como a baixa capacidade de poupança e investimento nacional. Mas isso é histórico, não é pontual.
O atual governo federal faz muita bobagem. Como todo governo, daqui e de qualquer parte. O atual faz mais bobagem do que fazia o governo Lula. Em compensação, faz muito menos bobagem que o governo FHC, que era um prodígio em erros inaceitáveis.
Mas, tanto antes quanto agora, é um bocado injusto que o governo (ainda que fossem somadas as três esferas) leve toda a culpa pelas crises e “crises” pelas quais passamos. A gestão pública é apenas um reflexo da gestão privada que, no Brasil, é uma coisa de arrepiar os cabelos. E isso que se reflete nas grandes empresas, que não conseguem competir internacionalmente; isso que se reflete nas empreiteiras, cujos contratos são tocados como se fossem assinados pela Máfia; isso que se reflete em qualquer departamento de compra, em que negócios e negociata se tornam sinônimos; nasce nas ruas, no dia-a-dia, cresce com o pequeno empreendedor até que ele, eventualmente, se torne um pouco maior.
Eu tive 15 dias de férias e, como não viajei, aproveitei o tempo para tentar resolver algumas pendências domésticas. São exemplos simples e cotidianos de uma mentalidade sobre a qual está erigida toda a sociedade brasileira. Vejam se é suportável.
No primeiro sábado, marcamos de ir aqui numa área rural a uns 30km de casa (ainda na Grande SP, e tem área rural), porque uma das opções aqui em casa seria comprar um terreno para fazer nossa “biblioteca de final de semana”. Na verdade, não nos falta espaço para viver. Falta espaço para algumas “tralhas do bem”, como discos e livros. Uma forma de “aumentar a casa” seria fazer um “puxadinho” de final de semana.
Quando chegamos em Ouro Fino Paulista, a proprietária da imobiliária (e do terreno, pelo que entendi) estava ao telefone, e disse que o marido dela me acompanharia lá. Ele foi, gente boa que só. Mas não tardou a explicar que não era corretor, só estava ajudando a esposa. Uns quilômetros e chegamos ao empreendimento. Lugar simpático, murado, mas sem guarita na porta. O sujeito abriu uma porteira de fazenda, indicou que eu estacionasse em frente à varanda de uma casa ampla. Ele explicou que era onde ele morava. Colocou o mapa da incorporação numa mesa, marcou qual seria o terreno no mapa, apontou para a direção do lote e disse: “é por ali”.
Andamos “por ali”, no meio do mato, ele parou e disse: deve ser “MAIS OU MENOS ONDE NÓS ESTAMOS PISANDO”. Não havia ruamento, nem postes, nem marcadores, nem nada para demarcar lotes. E o loteamento, segundo ele, tem já um ano e está quase tudo vendido. Eu perguntei quando os lotes estariam devidamente demarcados. Ele respondeu que seria em breve, que o engenheiro estava inclusive em atraso com ele. Mas que, uma vez demarcados, o preço subiria muito.
Agradeci, pedi que me avisasse quando fosse demarcado, mas intimamente comecei a desistir de comprar um lote rural tão cedo.
Na terça-feira seguinte, levei meu carro à revisão. Um dia depois, um moço me ligou da JAC. Eu até pensei que fosse para fazer um pós-venda do serviço, medir satisfação. Não, era para AGENDAR a minha revisão. Uma empresa chinesa, com pouco tempo de Brasil já “tropicalizou” seu atendimento. Ou o contato estava sendo feito por um vidente, porque o carro, que foi para a revisão em perfeito funcionamento (era uma revisão obrigatória), passou a vazar óleo dois dias depois.
Na quinta-feira, eu liguei para um senhor que é “marido-de-plantão”, este tipo de faz-tudo que conserta de tomada à caixa-d’água. Eu não mexo com estas coisas, então era a oportunidade de contratar alguém e estar junto em casa. Como combinado, ele veio no dia seguinte para fazer um orçamento para os nove itens que eu preciso arrumar. Fazia quase tudo, só o meu tipo de antena que ele não mexia. É um senhor mais velho que eu, cara de responsável, jeito sério, passou confiança. Ficou de me dar o orçamento na sexta à tarde. Não deu. No sábado, eu liguei. Estava no trânsito, a esposa pediu desculpas, ele retornaria mais tarde. Não retornou. Liguei na semana posterior. Pediu mil desculpas, disse que retornaria até o final do dia com o orçamento. Minhas férias acabaram e o cidadão não me retornou com o orçamento. Ele perdeu o cliente, eu perdi meu tempo.
Afastada temporariamente a opção de uma “casa de campo”, chegamos à conclusão de que seria menos complicado comprar um terreno urbano – ainda que 10 vezes mais caro – e construir do nosso jeito. Mas dávamos preferência a um condomínio fechado. Marcamos com um corretor num condomínio que eu conheço, tem conhecido morando lá. O corretor pareceu enrolado ao telefone, mas até aí, tudo bem. No dia seguinte, que seria o da visita, às 11h00, ele me liga PARA CONFIRMAR a visita. Confirmei. Era para às 16h00. Às 15h50, eu estava a metros da portaria, me liga novamente ao celular. Pediu desculpas mas, “por causa da chuva” estava preso numa avenida grande a uns poucos quilômetros do local. Eu conheço bem o lugar, ele estaria a uns 20 minutos de mim. Com chuva e trânsito ruim, talvez 30. Ok, eu espero. Às 16h40, portanto depois da minha projeção mais pessimista, eu liguei para ele. Estava já “bem perto”. Às 17h00 eu cansei de esperar sentado dentro do meu carro, na portaria. Fui para casa. Às 17h15, o cidadão me liga, eu já na porta da minha casa, pedindo desculpas e me dizendo que havia “se enrolado” lá no bairro, e que não havia achado a rua, mas que agora havia chegado. Com UMA HORA E QUINZE DE ATRASO. Eu dei um passa-fora no cidadão. Não resisti a ligar para a imobiliária e falar com o gerente. Fiz questão de dizer que não pretendia prejudicar o “profissional”, mas que não podia deixar de relatar o atendimento, para que eles pudessem melhorar. Disse que, se eu tivesse dado muito azar, o corretor seria uma pessoa comprometida e eficiente, que estaria errando com um cliente pela primeira vez. E que, neste caso, o gerente deveria compreender, mas alertá-lo. Segundo ele, era o caso. Agradeceu minha devolutiva.
Eu havia anotado os números telefônicos de outra imobiliária, cuja placa ofertava terrenos na porta do dito condomínio. Liguei para o primeiro número. Era particular. Conferi o número, era aquele mesmo, mas era particular. Liguei para o segundo número. Tocou e ninguém atendeu. Às 17h30 de um dia de semana. Não havia mais ninguém na imobiliária. No dia seguinte, porque eu insisti umas três vezes na hora do almoço, consegui ser atendido. Marquei com a corretora, que finalmente fez um serviço bem feito.
Vira e mexe eu leio relatos de amigos sobre serviços mal executados, atendimentos negligentes, tratamentos inadequados a clientes. Seja de profissionais liberais, seja de grandes empresas. O nível de gestão no Brasil é terrível. Governos, em quaisquer esferas, não são ilhas, senão que reflexo das sociedades em que estão inseridos. Portanto, seja qual for o partido hegemônico, não é de se esperar que a gestão pública no Brasil dê um salto de qualidade.
Em razão da minha atividade profissional, eu tenho tido a oportunidade de fazer uma apresentação na qual eu devo discorrer, por uns poucos minutos, sobre a implantação das primeiras ferrovias no Brasil. E recorro, entre outros, ao caso da construção do trecho entre a Baixada Santista e o topo da Serra do Mar, na Estrada Santos Jundiaí, obra realizada no Segundo Império. Apesar de contar com uma carta de permissão de Pedro II, era um empreendimento privado tocado pelo Barão de Mauá e seus sócios ingleses. A obra levou mais que o dobro do tempo para ser entregue.
A crise é grave. E não é de hoje.
Concordo com quase tudo; discordo de poucas coisas.
Basta entrar em um supermercado para perceber que o salário não dá pra mais nada. Não tô botando a culpa em ninguém, mas acho que nossa “presidente” deveria parar de falar que a culpa de tudo era do FHC e começar a fazer mais.
O brasileiro comum até se importa que a Petrobrás quintuplicou seu investimento, mas como ele vai acreditar nisso se a gasolina – quem nem é 100% gasosa – custa um absurdo – mais ainda comparado aos nossos vizinhos argentinos?
De que adianta ser credor da terra do Tio Sam se os alimentos aumentam de preço sem parar? Usei outro dia um exemplo do leite. Dispararam o preço por causa da “entressafra”. Juraram baixar. Pois bem, passaram-se cinco, seis anos e o leite nunca mais voltou a custar, proporcionalmente, o que era.
E vai ser assim com água e luz. Nunca mais teremos redução na conta! Essa era a hora do Governo Federal se impor e ordenar certas medidas. Mas parece que a preocupação é dar benefícios para esposas de deputados, aumentar os próprios salários, ao passo que para aumentar 6% do salário mínimo é uma briga enorme.
Eu mesmo sofro com isso tudo. Trabalho com informática e, vez ou outra, arrumo computadores de forma avulsa. O aumento no preço das peças é absurdo. “Ah, mas tem que valorizar o que vem daqui”. O daqui é uma porcaria. Ou existe alguma marca de placas-mãe, processadores, memórias e HDs que seja nacional e reconhecida mundialmente? Aí eu cito o exemplo da “carroça” do Collor. Os carros nacionais melhoraram depois daquilo.
O problema é que falta um Governo pulso firme para fazer a engrenagem funcionar. Que exija dos serviços públicos eficiência e qualidade. Que se exija do Judiciário rapidez nos julgamentos. Que trate o bandido assassino como assassino, e não como “vítima da sociedade branca opressora”. Que entenda que “ajuste na economia” não seja tirar de quem trabalha (cada vez mais impostos e uma merreca de salário) para dar a quem não quer se esforçar por nada. Que reduza o próprio salário e acabe com benefícios, transformando esse dinheiro em melhorias para a população, diminuição da carga tributária e, por consequência de mais consumo, mais empregos serão gerados. Que faça as obras de que o país precisa de verdade, mesmo que “não dê voto”. Que acabe com cotas e, no lugar disso, invista PESADO e de verdade em educação, inclusive ordenando que os Estados cumpram as metas, sob risco de intervenção.
Porque do jeito que está, eu serei mais um entre tantos a condenar a gestão atual. Independente de partido!
Rodrigo, eu mesmo afirmo no texto que o governo faz burradas. E seu direito de protesto é justo e sagrado.
Mas vamos separar um pouco as coisas, por favor.
Se você entrar no supermercado, vai constatar que os preços aumentaram. É fato. Como aumentam todo ano. A diferença para o período atual, de uns 2 ou 2,5% não é tão significativa no bolso do consumidor. Daí a dizer que o salário perdeu o poder de compra, é exagero. Os salários, há mais de 10 anos, não só tem acompanhado a inflação como, na média, têm sido reajustados acima dela. Portanto, sobe preço, e sobe salário também. Mas é verdade que inflação alguma é boa, e o FHC não tem nada a ver com isso.
Outra coisa: a gasolina não “custa um absurdo”. Um levantamento feito entre 60 países do mundo colocam a gasolina brasileira bem no centro da média do preço mundial. Não é saudável cobrar tão baixo quanto Venezuela e Arábia (grandes produtores, aliás), nem tão caro quanto a França.
No mais, por favor, confira os limites constitucionais do que um governo pode ou não fazer. Por exemplo, governo algum pode “pressionar a Justiça”, como você sugere. Nem “ordenar que Estados cumpram as metas”. Nem por bons fins se pode atropelar a Constituição.