O estado do Acre passa hoje por uma situação de calamidade. Se na região Sudeste a preocupação é a seca, no Acre a cheia preocupa moradores, governos e já deixou uma vítima fatal.
São cerca de 790 mil habitantes, segundo o IBGE, espalhados em 164.123 km² e 22 municípios. Uma terra que foi integrada ao Brasil no começo do século passado após uma revolução liderada por Plácido de Castro e se destacou pela grande produção em seringais. Alvo de piadas e preconceito, por ‘não existir’, o Acre tem grande importância na construção do Brasil. Além do destacado nome de Plácido, que é gaúcho, mas lutou pelo estado, o Acre também é a terra do seringueiro Chico Mendes, que se destacou pelo mundo na luta pelos trabalhadores, e de Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, ex-senadora e candidata duas vezes derrotada à presidência da República.
Com um passado de luta, o estado do Acre passa por mais um momento difícil. As chuvas dos últimos tempos fizeram com que os rios subissem mais e o Rio Acre já tem a sua cheia recorde e já afeta mais de 83 mil pessoas.
Na capital, Rio Branco, o rio tem sua média de seis a oito metros, mas atingiu, neste domingo, o nível de 17,47m. Pouco abaixo do recorde registrado em 1997 quando chegou a 17,66m. Na cidade, são mais de cinco mil desabrigados. A prefeitura e o governo do estado construíram três abrigos para receber a população afetada. O primeiro deles, construído no Parque de Exposições Marechal Castelo Branco, já atingiu a cota máxima de pessoas e abriga 1395 famílias, num total de 4933 pessoas. O segundo foi feito no último sábado no Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte e tem capacidade para mais 300 famílias e um terceiro, feito no Serviço Social do Comércio do Bosque, para recepcionar mais 100 família. Todos os bairros da capital que ficam às margens do rio Acre já sofreram com a cheia. O governador e o prefeito de Rio Branco, a capital, já decretaram estado de calamidade pública e ponto facultativo nas repartições. O ano letivo das escolas estaduais na cidade foi suspenso durante a crise.
Foi na capital que foi registrada a primeira morte pela cheia. Uma inspetora escolar de 64 anos morreu após receber uma descarga elétrica. A vítima teve contato com a água que invadia o quintal da casa de sua filha e que recebeu uma carga de eletricidade. Para evitar outros casos como esse, a empresa fornecedora de energia elétrica está realizando cortes em áreas que são atingidas pela enchente, Além de corte de energia, o estado tem cortes também no setor de telefonia.
Pelo interior, a situação não é diferente. Alguns municípios estão isolados pela água. Nas cidades de Basiléia e Epitaciolândia, a Defesa Civil estima que 900 famílias tenham sido atingidas. São cerca de 1.017 vítimas atingidas na área de fronteira com a Bolívia.
Em Xapuri, são cerca de 1.000 pessoas afetadas, 228 desalojadas e outras 64 famílias desabrigadas. Em alguns momentos da cheia, a cidade teve registrada o maior nível do rio Acre.
Haitianos
O estado é ponto principal para imigrantes haitianos que chegam ao Brasil em busca de uma melhor oportunidade de vida após o momento crítico que o país de origem vive. Segundo o governo estadual, desde 2010, mais de 32 mil haitianos já chegara ao estado.
Eles chegam a partir da fronteira com o Peru, na cidade de Assis Brasil, e seguem, principalmente, para o município Brasiléia.
A cidade está totalmente isolada com cerca de 90% da sua área alagada pelo rio Acre. Sem energia, serviços telefônicos e até comida, o atendimento de socorro é feito por 450 homens do Corpo dos Bombeiros e de dez secretarias estaduais.
O governador do estado, Tião Viana (PT), pediu ajuda ao governo federal para que o Haiti não forneça mais vistos para haitianos visitarem o Acre. No texto, o governador pede que “pelo menos avise ao governo do Haiti a restrição da saída de pessoas de Porto Príncipe. E, se saírem, que saiam com visto para entrar em qualquer Estado brasileiro, mas não venham para o Acre. Que escolham outra rota, porque nós não temos condições de fazer acolhimento dessas pessoas”
Ajuda federal
Nesta carta, o governador também pediu por ajuda do governo federal na ajuda à população acriana. Na última sexta-feira, o ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi e o secretário Nacional de Defesa Civil, Adriano Pereira, visitaram as regiões atingidas no estado. Segundo o ministro, 2,5 toneladas de medicamentos já foram enviados ao Acre para o atendimento das vítimas e mais 17 mil kits serão enviados ainda para o estado.
Além disso, o governo federal irá liberar R$400 mil para que o governo estadual pague o aluguel social para os desabrigados e técnicos da Defesa Civil visitam o estado para identificar casas e famílias atingidas pela cheia para que sejam integradas no programa Minha Casa, Minha Vida.
Campanha
O governo estadual lançou uma campanha de ajuda aos desabrigados pela cheia. A campanha ‘Acre Solidário’ busca receber alimentos não perecíveis, principalmente leite em pó e massa para mingau e outros produtos como fraldas descartáveis, roupas e calçados.
Para aqueles que moram em outros estados e querem ajudar, a campanha aceita depósitos pelo Banco do Brasil na Conta Corrente 500-2, Agência 0071-X.
Em tempo: Há de se destacar a posição do governador Tião Viana e do prefeito da capital, Marcus Aleandre, na internet durante a crise. Em seus perfis pessoais do Twitter e em suas páginas do facebook, Viana e Marcus prestam serviço ao público ao atualizarem números a atender a população. Algumas ocorrências, como resgate da animais que estão sendo deixados por moradores nas casas, foram atendidas por pedidos da população via twitter.