Muito se falou do Carnaval-2015 e ainda vai se falando porque teve desdobramentos em 2016, como o troca troca nas escolas de samba. O eleito como vilão foi o enredo sobre Guiné Equatorial feito pela Beija-Flor de Nilópolis, assunto já debatido aqui.
Focaram muito no enredo e escolheram a escola para vilã colocando fotos de buracos seus, tentando de todas as formas mostrar quesitos em que a escola poderia perder pontos e não estão errados. Realmente, apesar de a escola ser merecedora do campeonato, foi mal julgada e poderia ter perdido mais pontos.
O que não aceito, por exemplo, é falarem “Tinham que ter tirado ponto em enredo e evolução da Beija-Flor e o título era do Salgueiro que veio perfeito”.
Epa! Peraí! Como assim perfeito? Samba-enredo ainda é quesito. Não sei até quando, mas é.
Falarmos que uma escola foi perfeita quando desfilou com um samba fraco é comprarmos o que tentam nos vender nos últimos vinte anos. Que samba-enredo é supérfluo, não tem que ter beleza e poesia, e sim servir para um desfile.
O.K. Concordo. Samba-enredo é uma música diferente, ele tem uma função específica que é contar uma história. Realmente essa é sua função.
Mas, calma lá. É uma música diferente, mas não deixa de ser música. Música tem que ter beleza, tem que ter poesia sim, não importando sua função. O nome da brincadeira é “escola de samba”, sim, de samba, não de alegorias ou fantasias. Escola de samba. Então, o samba devia ser tratado com maior carinho.
Como já falei inúmeras vezes em vários lugares. apesar de o gênero sofrer uma queda nos anos 90 pra cá, ele vinha ressurgindo na última década desde a feitura do “mar de fiéis” da Imperatriz em 2010. Tivemos grandes obras depois como os da Vila em 2012 e 2013, Portela nos últimos quatro anos, Salgueiro em 2014, Mangueira, Beija-Flor e imperatriz em 2015 e a paulistana Vai-Vai em 2011, que sempre digo que é o samba do século.
Apesar da queda de vendas, de nível e de conhecimento sobre os sambas ele é o melhor gênero musical do país e se não vende mais, não chega mais ao grande público é culpa de quem tinha que divulgar o produto e não divulga.
É. Mas o samba sofre uma ameaça agora.
O quesito vinha sendo muito bem julgado. Portela em 2012 só voltou às campeãs por causa do samba-enredo e a Vila ganhou o carnaval de 2013 pelo mesmo motivo. O julgamento em 214 foi um grande exemplo com todos os sambas ruins ou “funcionais” perdendo pontos, entre eles o da Beija-Flor, que dificilmente perdia pontos no quesito.
Graças a isso, as escolas caprichavam mais nas escolhas dos sambas e o nível melhorava a cada ano.
Mas algumas escolas se consideraram mal julgadas e três julgadores foram trocados para 2015, causando consequências ruins para o gênero.
Sambas que mereciam receber 10 receberam, como os de Portela, Mangueira e Imperatriz. O problema não foi esse, mas vem daí também. O excesso de notas 10 eo medo dos julgadores de também serem trocados acabaram desqualificando o quesito.
Sambas ruins, como o do Salgueiro, e animados, mas não de grande qualidade, como o da Grande Rio, também foram 10, tirando a importância de ter samba bom ou não. O disparate foi tal que a Beija-Flor acabou perdendo décimos em samba-enredo, o quesito em que menos merecia.
Durante a apuração, existiu a possibilidade do Salgueiro ganhar o Carnaval sobre a Beija-Flor em samba-enredo, o que seria o maior absurdo da historia dos desfiles.
Nada contra o Salgueiro, que pra mim teve o samba do ano em 2014. Mas uma vitória dele em ano com samba ruim faria um grande mal ao gênero, assim como faz mal a busca por um novo Ita que a agremiação faz desde 1993.
Assim também como o fraco samba de 2015 ganhar mesmo número de pontos do excelente de 2014 fará mal para a agremiação, que com certeza virá com o mesmo estilo musical em 2016.
A Grande Rio fez grandes sambas nos anos 90 e só começou a disputar títulos quando os deixou de lado. A Tijuca fez grandes obras nos anos 90 e 00, passou a disputar títulos também quando deixou o estilo de lado, a ponto de o presidente da escola declarar que samba-enredo tem que servir como trilha de filme.
Só posso lamentar e discordar.
Os grandes filmes da história são aqueles que têm grandes músicas. Você lembra de “O mágico de Oz”, “E o vento levou”, “O Poderoso Chefão”, “E.T.” e lembra logo de suas músicas. Música, mesmo em cinema, não é complemento.
E um samba ruim bem cantado não vira um samba bom, apenas vira um samba ruim bem cantado.
Fica a dica para o samba-enredo voltar a ser 10.
Perfeita análise!!
Não poderia deixar de parabenizar, pela delicadeza nas suas palavras. Chegou ao ponto, com muita elegância e sem ofender nenhuma Escola.
Assino embaixo.
Obrigado amigos. Acho que podemos e devemos manter o respeito mesmo que não haja concordância com o rumo das coisas. Isso que eu quis mostrar
grande abraço
Bom dia!
Prezado Aloisio Villar:
O julgamento de 2015 pode ser avaliado quesito a quesito como foi visto neste texto.
Você tocou num aspecto bem delicado e pra lá de interessante: notas 10 por medo de substituição.
Como se não bastasse o bom e velho “peso da bandeira”, agora teremos que somar isto.
…e o samba continua sambando…
Parabéns pelo texto!
Atenciosamente
Fellipe Barroso
Análise perfeita. Samba-enredo deveria ter peso 2 na apuração das escolas de samba.
Abraço!