A lista dos mais de 50 políticos que serão investigados de maneira mais atenta por conta do escândalo de corrupção na Petrobras veio carregada de expectativa e de simbolismos. Em um país em que a existência da corrupção não choca mais ninguém, os nomes envolvidos acabam montando um quebra-cabeças, formando um mosaico do que é o Brasil nesses 515 anos. A corrupção na Petrobras é, de certa forma, a síntese de todas as outras.
Vemos na lista a presença de Roseana Sarney, a segunda representante de maior importância de uma das famílias que por mais tempo esteve presente na política nacional. Ela, que em dezembro do ano passado renunciou ao Governo do Maranhão no último mês de mandato, acabou sendo o símbolo da nefasta atuação de oligarquias locais nos mais diversos escândalos. Ao lado dela, aparecem nomes completamente desconhecidos do grande público, como o Senador pelo Acre Gladson Camelli, provando que a corrupção não se restringe a “picaretas famosos”.
Um dos grandes simbolismos da lista da Lava-Jato é a última pá de cal na moralidade do PT. O partido que surgiu, independente das bandeiras que levantou ao longo do tempo, para ser diferenciado, para ser moral e para combater a roubalheira que, àquela época, já era coisa antiga. Trinta anos depois, restou uma legenda que entrará para a história do Brasil por ter feito uma verdadeira revolução social, mas também por ter sido talvez a maior decepção da nossa história. Hoje, analisamos o PT como analisamos todos os outros, relativizando escândalos para poder avaliar seu legado.
Se é mesmo verdade que Lula e Dilma nada sabiam desse escândalo, o PT, além de imoral, também é incompetente, mas agora incompetente como ninguém nunca foi. Convenhamos, é difícil de acreditar. Porém, a presença de apenas seis nomes petistas em uma lista com 54 componentes mostra que o problema é maior que o PT. Ver a base aliada de Dilma Rousseff envolvida no esquema (SD, parte do PMDB, parte do PP e PTB) mostra que o sistema cria um monstro quase incontrolável. A necessidade de coligações gigantescas e de se lotear o país em legendas sem qualquer significado ideológico e/ou representativo, cria um sistema totalmente passível de corrupção.
Uma olhada mais atenta na lista, porém, acaba com qualquer esperança. Ver o PSDB, através do ex-governador de Minas Gerais Antonio Anastasia, envolvido em todo esse mar de lama prova que não há ideologia para que haja corrupção. Anastasia, porém, não é nem o maior símbolo disso. A mim, choca mais ver o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que tem se mostrado um opositor cada vez mais declarado ao Governo Dilma (e também um ídolo dos setores mais conservadores da sociedade), na lista. Soa a mim mais inacreditável que todos os deputados federais do PP do Rio Grande do Sul (que, na contramão de uma outra corrente da legenda, fazem oposição) tenham conseguido entrar na farra.
O Partido Progressista, que, aliás, é praticamente um esqueleto vivo do que havia de minimamente democrático na Ditadura Militar. Essa mesma Ditadura que muitos inconscientemente querem de volta, ajudou a criar uma sucessão de partidos que desembocaram no PP. E aí está ele, liderando o time dos corruptos. Nenhum partido teve mais nomes que o PP. Nem o PMDB, que era o MDB, a oposição à Arena, a única resistência oficial à ditadura, e que nesses últimos 35 anos virou uma espécie de câncer da política nacional. Um partido com uma influência absurda em todo o país sem o qual é impossível governar.
Esse mosaico mostra como a corrupção se alastrou pela política nacional. Virou, sem querer defender corrupto nenhum, algo quase automático. Mais que isso: parece ser uma questão de sobrevivência. Por exemplo: quando a lista saiu, nada me soou tão simbólico quanto Fernando Collor de Mello, atual Senador pelo PTB/AL e ex-presidente que deixou o cargo para não sofrer impeachment, dividindo espaço com Lindbergh Farias, o também Senador (pelo PT/RJ) que entrou no cenário político nacional como… líder do movimento que queria o impeachment de Collor.
Agora vamos pensar: será que aquele Lindbergh de 1992 não tinha mesmo um ideal? Será que ele não estava mesmo chocado com a corrupção? Será que ele não queria mesmo um país mais justo? Não ponho minha mão no fogo por ninguém, mas tenho quase certeza que sim. Não era teatro. Mas, quando deixou de tacar pedras para ser vidraça, se tornou mais um. É a prova definitiva de que, atualmente, um político honesto não transforma a política. É o contrário. E isso é muito mais que a filosofia antiga de que “o meio transforma o homem”. Com todo o respeito aos filósofos, é algo muito mais concreto. O Brasil, hoje, não existe sem corrupção. Quem pode aproveitar, aproveita. Quem não pode, reclama.
Mas cerca de 48 horas depois da dobradinha Lindbergh-Collor me levar a essa conclusão, descobri que a Lava-Jato tem um simbolismo muito maior, mas que só se manifestou de maneira indireta. Quando a presidente Dilma Rousseff entrou em rede nacional para discursar em homenagem às mulheres e para tentar apagar a chama do circo que está pegando fogo, panelas começaram a se chocar com colheres. Luzes se acendiam e se apagavam. No que pode ser o primeiro ato simbólico de um momento histórico, o Brasil iniciou, de maneira inequívoca, o movimento que lutará pelo impeachment de Dilma.
Não precisa pensar muito para concluir que a manifestação que ganhou boa parte da cidade de São Paulo, além de outras cidades como Belo Horizonte e Brasília não foi espontânea. Havia um movimento na internet e havia a ideia de se mostrar contrário à presidente. E assim foi feito. Portanto, já é possível perceber os primeiros sinais de organização que caracterizam qualquer movimento revolucionário. Particularmente, sou contra o impeachment e acho praticamente impossível que ele ocorra, mas simplesmente não dá mais para negar que há, sim, um movimento em favor do fim do mandato de Dilma.
Neste domingo algumas pessoas espalhadas pelo Brasil deixarão isso bem claro. Não sei se serão uma, duas ou cinco. Se serão dezenas, centenas, milhares ou mesmo milhões. Só sei que serão. E fico realmente preocupado com o nível do imediatismo do movimento. A corrupção na Petrobras é, incontestavelmente, um dos fatores que mais incentivam as pessoas a protestar e, dois dias depois da divulgação da lista de Janot, ficou claro que ninguém entendeu o que ela representa. As pessoas continuam achando, e não é, acredito eu, por desonestidade, que é um escândalo exclusivo do PT.
Se as pessoas tivessem entendido o que de fato aconteceu, teriam batido panelas contra a Dilma, sim. Mas também contra todos os envolvidos na Lava-Jato. Estão, sim, todos indignados. Mas não percebem o efeito nulo do objetivo que procuram. Se a Dilma sair, entrará Michel Temer. O país ficará com o PMDB, aquele que, definitivamente, está longe de ser um bastião da moralidade. Tiremos o Temer! Agora fica melhor. Entrará Eduardo Cunha, do mesmo PMDB, e que figura na lista do Janot. Tiremos Cunha! Entra Renan Calheiros e que também está na lista. É totalmente natural que se proteste contra o PT, afinal de contas é quem comanda. Mas o movimento, se quer mesmo ajudar o país a mudar, precisa entender que existe algo muito maior acontecendo.
A propósito: o povo ajudou a derrubar Collor e o que aconteceu? A corrupção só aumentou. É hora de parar de lutar contra personagens e tentar matar o problema em sua origem. Sinceramente, não sei como fazer isso. A história nos mostra que todas as tentativas fracassaram miseravelmente, da Revolução Francesa à Cabanagem no Pará. Mas, ainda assim, qualquer revolta contra esse sistema que vem saqueando o país nos últimos 500 anos é mais útil que uma simples revolta insana e inconsciente contra um líder. Pode não parecer, já que ajudar a derrubar um presidente é bem mais espetacular, mas é.
O problema é que no meio de tudo isso existem ideologias. O que eu vou dizer pode parecer forte e talvez vá te deixar irritado, mas, em minha análise, uma ideologia política é a maior desgraça que pode acontecer em uma sociedade. Ideologias cegam, ideologias fazem quem as seguem lutar contra si próprio pelo simples prazer de ganhar uma discussão. Isso ocorre desde um voto ideológico (quando na verdade o voto deve ser em quem cumpra uma demanda de um país/estado/cidade naquele quadriênio) até um verdadeiro Fla-Flu entre os que querem a cabeça de Dilma em uma bandeja e os que contam os segundos para votar 13 mais uma vez em 2018.
Tenho acompanhado desde domingo nas redes sociais um inacreditável movimento a favor de Dilma. Confesso que admiro quem conseguiu defender o discurso patético que a presidente fez em rede nacional, mas isso não me surpreende. Agora, fico realmente preocupado ao ver que existem pessoas inteligentes que realmente acreditam que um movimento deixa de ser popular ou legítimo porque tem a companhia dos ricos. Me choca notar que muitas pessoas admirariam um movimento cujo panelaço ocorresse no Capão Redondo, mas que debocham de maneira absurda do mesmo panelaço só porque aconteceu em bairros nobres.
Como eu disse, não dá mais para negar que há um movimento que quer o impeachment. Mas, para o PT, claro, é conveniente lançar um discurso comprado com muita facilidade pela militância e pelos demais simpatizantes em geral. É muito conveniente resumir o pensamento de milhares (ou talvez milhões) de pessoas das mais diversas classes e das mais diversas regiões a uma histeria de meia dúzia de alienados que vão fazer compras em Miami. É fácil dizer que as pessoas que querem o fim do governo do PT com suas convicções querem, na verdade, um golpe de Estado e a volta da ditadura militar. Eu sou contra o impeachment, mas não posso impedir alguém de ser a favor. Pelo menos é o que sempre disseram, mas agora não tem sido mais assim.
No discurso petista, mais que na fala da presidente, fica claro o medo. O PT sabe que há um movimento cada vez maior contra ele e precisa abafá-lo o quanto antes. O melhor caminho para isso é a descaracterização, acreditam. É como se dissessem aos mais pobres que o movimento do qual participarão não lhes pertence. É coisa de socialite e de milionário. Pensam que, assim, a tempestade passará. Ledo engano. A estratégia apenas evidencia o desespero e aumenta (bem pouco, é verdade), as chances do impeachment.
Se este ocorrer, o PT entrará em colapso, Dilma ficará marcada na história de maneira negativa e viveremos anos de bastante tensão e incerteza. Enquanto isso, vários escândalos acontecerão em Brasília enquanto renovamos nossas esperanças com um salvador da pátria qualquer.
Depois não adianta fazer panelaço.