Nem mesmo o mais fanático e saudosista petista é capaz de negar que o PT, para chegar e, principalmente, se manter no poder, abandonou completamente suas raízes. Após ter negada por três vezes a chance de fazer um governo de esquerda, o partido, mesmo com o naufrágio da política neoliberal do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, resolveu assumir uma postura mais apresentável ao eleitor brasileiro (que nunca foi muito com a cara da esquerda), o que se mostrou uma tática acertada.
Com o passar dos anos, o PT foi cada vez mais se distanciando daquilo que era quando nasceu (o que inclusive criou um núcleo de resistência ao PT dentro dos fundadores e de parte dos filiados, o que acabaria desembocando no PSOL) e, à parte o momento em que abriu mão da “filosofia” de não ser uma legenda corrupta, acho isso até bom. Confesso que me agradam Governos que abrem mão de ideologias que mais atravancam a governabilidade que ajudam o país.
Porém, à medida que o partido foi cada vez mais se afastando de suas raízes, foi também perdendo sua identidade. Se o PT só foi ganhar uma Eleição quando deixou de ser PT, também só chegou a esse patamar, ou seja, só teve essa chance, pelo que construiu até 2002. A imagem de um PT como esquerda radical tirou e ainda tira muitos votos da legenda, mas também ganha vários outros. Não por ser esquerda, mas por ser um partido alinhado com o povo. O povo se sente representado pelo PT como não se sente representado pelo PSDB.
Isso não fez muita diferença em 2006 e 2010, mas foi simplesmente fundamental no segundo turno das Eleições de 2014. Na hora do vamos ver, quando tudo estava praticamente empatado, muita gente acabou hesitando em votar em Aécio Neves por não se sentir representado por ele, dando assim um voto de confiança para Dilma. E isso não aconteceu apenas por conta das raízes do PT, mas porque, mesmo abdicando de quase todas elas, o partido ainda era o único dos grandes a entender o povo.
A falta de traquejo do PSDB com o eleitor chega a ser bisonha. Alckmin, Serra e Aécio (este apenas no segundo turno) pareciam nunca ter pisado no Brasil em suas campanhas. Não conseguiram, como o PT sempre conseguiu, essa aproximação. O eleitor não vota, na maioria das vezes, em quem lhe soa mais competente, mas sim em quem lhe soa mais confiável, mais representativo. O PT sempre soube passar essa imagem por conta de um discurso muito bem feito, que irrita a alguns e afaga a muitos. A diferença entre PT e PSDB não aparece tanto no modo de Governar, mas sim no modo de discursar. E isso, queira a oposição ou não, vem do fato de que o PT conhece as ruas. O PT, desde o alto escalão até a militância, entende as ruas. Os outros, não.
Ocorre que nesse último dia 15 de março, o PT chegou ao ápice do momento em que provou estar muito perto de perder esse único diferencial. Após um dos mais belos domingos da democracia brasileira, quando o povo mais uma vez mostrou sua participação política e, de maneira absolutamente pacífica, gritou contra Dilma, o PT provou que não entende (ou está fingindo não entender) mais as ruas. O discurso dos Ministros José Eduardo Cardozo, da Justiça, e Miguel Rossetto, da Secretaria-Geral da Presidência, prova que o partido que mais entende as ruas simplesmente não entendeu nada do que aconteceu. E basta ver o discurso da militância para notar a mesma coisa.
O PT virou um partido arrogante. Na verdade, sempre foi e isso é algo bastante incômodo. O PT sempre teve a irritante pretensão de se colocar como o único que poderia Governar para o povo – e, posteriormente, como o único que pode continuar Governando. O problema é que, ao reagir assim quando exposto aos escândalos que provocou, o partido subestima a inteligência do eleitor. É como se dissesse: “estou roubando, mas estou fazendo. Contente-se”. Nos últimos 12 anos, essa arrogância vem aumentando de maneira gradual, mas há pouco tempo vem trazendo problemas.
Para mim, o ponto de partida do fim do traquejo do PT para entender o povo aconteceu antes mesmo das Eleições. Foi naquele 12 de junho em que a Presidente Dilma foi vaiada e xingada na abertura da Copa do Mundo. O que deveria ser um sinal de alerta para o partido, virou a chance para um dos discursos mais patéticos que um partido poderia ter: o PT jogou o povo contra o povo, assumiu o termo “elite branca”, de um racismo e de um mau gosto impressionantes, e tentou se fortalecer com os mais pobres. Criou uma guerra de classes, se aproveitou do pensamento de uma minoria para estereotipar a maioria e mostrou aos mais pobres: eles não te representam.
Inacreditavelmente, deu certo. Tão certo que foi algo explorado a exaustão nas Eleições. O PT rachou o país no meio (como já havia rachado em 2006 após a inesperada realização de um segundo turno) e, sempre atento ao que os mais pobres queriam ouvir, garantiu a vitória. Só que do fim de outubro para cá, as coisas pioraram muito e não deu mais para enganar o povo. A corrupção na Petrobras atingiu o inaceitável para todas as classes sociais. A nova política econômica, que a mim parece muito positiva, também desagradou aos mais pobres e também aos mais ricos (o que prova que, não, a classe média padrão não é contra a ascensão dos mais pobres) e o PT, já desgastado pela guerra que criou (ninguém ganha uma guerra sem perder alguns soldados) nas Eleições, não foi mais perdoado.
A soma de todos esses fatores levou a um clima de instabilidade política gigantesco no Brasil. Em um país onde só se discute política em época de Eleição, a mobilização em torno de uma causa – no caso, os protestos contra Dilma – ganharam corpo e, em tempos de redes sociais, houve uma intensa organização e articulação para que este 15 de março fosse um recado claríssimo para a Presidente: o país cansou. Eu posso não concordar com a maioria, talvez você não concorde, mas o país cansou sim. A manifestação que ganhou o Brasil não foi só pelo impeachment, mas sim para mostrar o descontentamento da população com a Presidente que é aprovada por 23% dos brasileiros.
O que fez o PT? O que fez a militância? Assumiu o descontentamento geral? Deu alguma resposta positiva aos protestos?
Claro que não.
O PT, através da militância e através de uma interpretação sutil do discurso dos já citados ministros quer convencer o Brasil que as tantas milhões de pessoas que foram às ruas (e não importa o número exato) fazem parte de uma “minoria”. O PT tenta, em um ato claríssimo de desespero disfarçado com uma arrogância lamentável, descaracterizar os protestos. Tenta pintar um movimento que não existiu: de brancos milionários e racistas que querem um golpe militar. Isso é um golpe baixo, sujo, inacreditável. O PT tenta enganar o brasileiro médio para que ele não se sinta representado. Para que o povo não se sinta representado pelo povo.
A militância petista, quem diria, debocha do povo. Tem quem diga que domingo não houve uma “festa da democracia”. Tem quem dê a inacreditável carteirada de que “se houve dois milhões de pessoas nas ruas, houve 51 milhões de votos nas urnas”. Acreditam, como disse o Ministro Rossetto, que o descontentamento veio de quem votou em Aécio e não, não é assim. Em dezembro, a aprovação a Dilma ultrapassava os 40%. Na próxima pesquisa, provavelmente estará abaixo de 20% (está em 23% atualmente, como eu disse). Segundo o Datafolha, 76% dos que reprovam a gestão de Dilma tem famílias com renda mensal inferior a R$ 3,6 mil. Que elite é essa?
O desespero petista apenas inflama ainda mais o povo que fica mais indignado a cada discurso oficial. Porque o PT se salvava por falar o que o povo queria e o que o povo sabia que era verdade. A partir do momento em que não entende mais o povo e que não diz mais o que o povo quer ouvir, cava a própria cova. Não, não estou falando de impeachment pois o acho praticamente impossível. Mas as Eleições de 2018 já já estão aí e a conta vai chegar. O PT e sua militância estão vivendo um conto de fadas, estão fora da realidade, e estão se igualando a todos os outros partidos.
Quando quiserem voltar as ruas, já vai ser tarde demais.
Olha, independentemente de discordar ou não do seu texto, tem um problemão aí: dizer que o partido criou uma “guerra de classes” e que “rachou o país” é falta de compreensão do processo histórico.
Eu entendo o que você diz e até concordo, mas o que aconteceu nas Eleições foi um pouco diferente. O PT estereotipou a elite.
Desculpa, não consigo acreditar que entenda. Você tá tentando justificar um equívoco da sua análise. Pode criticar o PT, sou da turma que acha as críticas bem-vindas, só perde um pouco o valor quando faz com esses argumentos.
Mas, enfim, pode continuar como achar melhor.
Por “Mas, enfim, pode continuar como achar melhor”, quis dizer que talvez seja apenas a minha percepção sobre o que você disse, certo? (sem grilos ou tensões da minha parte. Acho que não teria, mas é bom deixar claro.)
Eu entendo quando você diz que sempre houve uma guerra de classes no Brasil. De fato, houve. Mas em 2014 o PT levou isso a outro patamar. É como se dissesse que os ricos não gostam dos pobres, os paulistas dos nordestinos, etc.
Rafael, então pelo visto você concorda com a “elite branca opressora”, né??
Texto impecável, Leonardo!!
É bem isso, mesmo: o PT está fazendo A MESMA COISA que o deplorável do Hugo Chavez (que o Diabo esteja enfiando uma trolha no toba dele, sem vaselina e com limalha de ferro) fez com o povo venezuelano!
2018 está aí. E se fosse coisa de “elite branca opressora”, não teríamos protestos no Norte e Nordeste. E houve, como todos sabem, protestos em todo o Brasil!