Quarta-feira tivemos a despedida do lateral-direito Leonardo Moura do Flamengo. É um bom jogador e com uma boa história no Flamengo. Nada de supercraque, nem sua fase no clube podemos dizer que será lembrada daqui a cem anos (talvez lembrem do fato de o capitão em seu único título brasileiro no clube ser um assassino frio e esquartejador), mas nada demais.

Então, o que fez Léo Moura marcar a ponto de ter uma partida de despedida que muitos jogadores melhores e mais importantes não tiveram? É só lembrar, por exemplo, que Leandro, um dos maiores laterais da história do futebol, não teve.

Acho que tudo se deve à carência pela qual o futebol brasileiro passa.

Léo Moura ficou dez anos no Flamengo, só Rogério Ceni atualmente ficou mais tempo em um clube, o tempo todo como titular e esteve presente nos melhores e piores momentos do clube no período. Não foram poucos os bons e ruins momentos nessa década. O Flamengo viveu de extremos, como a tomada da soberania estadual e vexames sul-americanos.

leomoura2Léo Moura foi o cara que bateu o último pênalti e garantiu o título estadual de 2007 contra um Botafogo superior. Foi o cara que passou um vexame involuntário dando entrevista a uma televisão na hora que o Emelec fez um gol que eliminou o Flamengo em 2012.

O clube teve times horrorosos no período, outros muito bons, mas de jogadores irresponsáveis que deram certo por um tempo e depois desandaram. Léo sobreviveu a tudo isso. Sobreviveu a Patrícia Amorim.

Formou por um tempo com Juan a melhor dupla de laterais do futebol brasileiro mesmo os dois nunca emplacando uma sequência na Seleção. Passou pela decadência física que todos passam, sejam jogadores ou em suas vidas. Mesmo assim, se manteve titular absoluto da camisa 2 porque, mesmo em decadência, se manteve acima da média e porque outros laterais eram contratados e não emplacavam.

Mas o tempo é cruel, assim como a torcida corneta.

A decadência física era cada vez maior, o que prejudicava seu desempenho e o time (como se o time virasse a seleção holandesa de 74 sem ele).

A torcida do Flamengo em redes sociais, chamada de Fla Twitter (meia dúzia de torcedores iguais a todos os outros que se acham uma mistura de PVC e João Saldanha) a cada época escolheu um jogador pra banir do clube. Passaram por Renato Abreu, Wagner Love, Ibson, até chegar em Léo Moura.

Apesar de toda a imprensa sempre lembrar a importância do jogador. Apesar de a torcida em estádio sempre lembrar de sua importância, a meia dúzia da Fla Twitter se acha a dona da razão como a meia dúzia que pede impeachment da Dilma em becos da internet achando que fala por um todo.

Léo Moura botou 30 mil pessoas numa quarta-feira às 22h no Maracanã, com ingressos a 60 reais e jogo televisionado. Muita coisa pra uma mente pequena que cabe em 140 caracteres como da Fla Twitter.

Como eu disse. Léo ficou dez anos no Flamengo numa época em que jogadores beijam camisas e mudam de clubes a cada seis meses pedindo liberação na Justiça. Passou por títulos, quase rebaixamentos, glórias, vergonhas e esteve lá o tempo todo. Salários atrasados e sempre lá. Antes dele, tivemos capitão que se recusou a jogar Libertadores e outro que matou mulher e deu seu corpo a cachorros. Com humildade, Léo passou a faixa de capitão a um que hoje cobra 80 milhões do Flamengo na justiça. Isso, a Fla Twitter não entende.

Perguntam se ele é ídolo baseando-se nos anos 80 que não existem mais. Léo Moura não seria nem banco do grande Flamengo. Mas no século XXI ele é sim símbolo do Flamengo. Nessa escassez de jogadores que o clube vive desde o fim da era Zico, Léo é símbolo de toda uma geração e das grandes conquistas do clube nesse século. Podem não ter sido muitas, mas ele estava lá.

LeoQuem tem menos de 20 anos e não viu Zico, Junior, Leandro, Adílio, Andrade ou viu pouco Romário, Pet e Edilson viu Léo Moura e não devemos contestar idolatria que é um senso único e pessoal. Sim, respeitar.

E convenhamos. Ser ídolo não é só jogar muita bola, é um todo e eu prefiro ver o Léo ídolo que um Adriano por exemplo que só pode ser ídolo de donos de bar, garotas de programa e grupos de pagode.

Contam duas mentiras que acabam passando por verdades. Uma que as instituições são maiores que as pessoas. Mentira. As pessoas que fazem a força de uma instituição. A outra é que um clube é maior que qualquer jogador dando exemplo “Flamengo sobreviveu sem Zico, sobrevive sem qualquer um”. Não. Só ver o Flamengo da era Zico e de hoje pra ver o quanto perdeu.

É evidente que o Flamengo vai sobreviver bem sem o Léo Moura, mas, querendo ou não, ele é uma página da história do clube e sem ele o livro estaria desfalcado. De parágrafos importantes na lateral direita.

Valeu, capitão. Obrigado por tudo.