Os leitores mais antigos do blog devem estar achando estranho que passadas mais de duas semanas da grande bomba do pós-Carnaval, a contratação do revolucionário Paulo Barros pela sisuda e tradicional Portela, nenhum dos quatro portelenses fanáticos do blog: eu, o editor, o Rodrigo Farias e o Alex Cardoso, tenha escrito sequer uma linha sobre o fato, deixando toda a análise do blog nas mãos dos mangueirenses Leonardo Dahi e Fred Sabino.

Poderíamos bancar os santos e fingir que era mera imparcialidade, que tal fato fora proposital para demonstrar a imparcialidade do blog em seu editorial carro-chefe. Essa desculpa “pegaria muito bem” e talvez até ajudasse a vender a imagem deste veiculo. Mas não seria a verdade e não mentimos para os nossos leitores. Então, respondo-lhes com apenas uma palavra sincera: susto.

O Migão, até por sua posição na escola, provavelmente não escreverá, mas percebi nas nossas conversas que demorou para a “ficha” dele “cair”, se é que já caiu ou ele só pensará nisso quando as férias dele acabarem. O Alex também parece estar na mesma vibração. Já o Rodrigo sumiu até da minha timeline no Twitter.

Foi muito impactante para nós portelenses, que sempre gostamos da tradição e do bom samba, receber a notícia de que a escola não só mudou de carnavalesco, como contratou aquele que sempre dizíamos que “nunca daria certo na Portela”. Por isso, antes de falar qualquer besteira por impulso, preferi deixar a situação se acalmar, pensar bem sobre as consequências de tal notícia, mas principalmente refletir os motivos que levaram a competente diretoria a tomar tal atitude.

Inicialmente, permitam-me algumas breves palavras sobre aquele que saiu, Alexandre Louzada. Particularmente, já acreditava que ele não continuaria desde antes do Carnaval. Não que ele tenha tido algum problema com a escola ou que a escola não tivesse gostado do trabalho dele, muito pelo contrário. Louzada não só é portelense de coração como é sócio da escola. Tem um talento nato e conhece como funciona a nação portelense como ninguém. Seus dois últimos trabalhos na escola foram aclamados pelo bom gosto seja pelo público ou pela própria comunidade.

Porém, por uma situação bem pontual e transitória, estava sendo sacrificante para ele trabalhar dentro da filosofia da escola, o que mesmo assim foi feito com louvor. Tanto é que, passando esse momento, não duvido que Louzada volte para a escola em algum ponto futuro caso seja demandado.

Tentemos pensar com a cabeça de um dirigente. Uma escola que está sendo a mais visada nos últimos dois anos, a qual vem se reestruturando e almejando um título o mais rápido possível para quebrar um jejum que já dura três décadas está sem carnavalesco. Quem você contrataria?

A maioria dos portelenses deve ter respondido Renato Lage ou Rosa Magalhães. Os dois são sonhos de consumo antigos dos torcedores de Madureira pois têm um estilo clássico, mais parecido com o da escola, além de inegável talento e vasta experiência exitosa e vitoriosa em suas carreiras.

Porém, Renato Lage já havia renovado com o Salgueiro antes mesmo do Carnaval e Rosa Magalhães estava muito bem acomodada na São Clemente, escola para a qual ela deu nova vida neste ano e tem total liberdade para fazer o que quiser. Para uma carnavalesca em “final de carreira” (como a mesma se auto-denomina) deve ser muito prazeroso fazer enredos há muito tempo desejados mas reprimidos. Ou seja, ela renovou rapidamente com a Auri-Negra e também ficou fora do mercado.

Sem Renato e Rosa, quem você procuraria para ser o carnavalesco da Portela? Talvez alguns tenham pensado em Alex de Souza. Porém, apesar de excelentes trabalhos, falta a ele um resultado de peso na carreira, além do fato de conceber fantasias ainda mais difíceis de desfilar do que as de Louzada (única pequena reclamação que se tem dele), as quais a Ilha não se adaptou. Aliás, seu melhor trabalho até hoje, Vila-2009, foi feito em parceria com Paulo Barros.

O provável quarto nome que se pensaria é do carnavalesco-sensação Fabio Ricardo. Fabinho fez carnavais brilhantes na São Clemente e conseguiu fazer mais um brilhante desfile sobre a pacata cidade de Maricá, algo que nem um nativo imaginava ser possível.

Porém, além de também faltar a ele a experiência desejável para comandar a criação portelense, ele ainda tem os carnavais de 2013 e eu 2015 para se pensar (o trabalho em ambos foi aquém do ideal).

Os outros nomes possíveis também trariam consigo ainda mais dúvidas. Max Lopes? Cahê Rodrigues? Paulo Menezes (e a águia-origami de 2013 injustamente creditada a ele)? Severo Luzardo, talvez o nome perfeito, era complicado por causa de seu trabalho paralelo ao carnaval que lhe suga muito tempo para se dedicar a uma escola do Grupo Especial.

Nisso que você está matutando entre os prós e contras das opções surge um “cavalo selado”¹ trazendo o carnavalesco mais badalado dos últimos dez anos, com desfiles espetaculares e três títulos (com outros dois que poderiam ter sido campeões) na bagagem, com fama de workaholic e minucioso nos detalhes de pista, exatamente onde a Portela pecou neste Carnaval.

Se você fosse o responsável por essa decisão o que faria? Simplesmente descartaria a opção porque ele é “modernoso” demais e não faz o perfil da escola, para contratar outro carnavalesco, que também viria trazendo outros pesos contra? Ou arriscaria e contrataria Paulo Barros? Afinal, já que prós e contras todos tem, se Paulo der certo, será algo fantástico e pode ser uma solução de longo prazo para a escola.

Após pensar em todo esse contexto e deixar a emoção de lado, como gestor da escola e tendo condições financeiras, não titubearia em contatá-lo para iniciar negociações.

Paulo pode ter vários defeitos, especialmente quanto às amarras que nas quais ele enreda os compositores de samba-enredo, que não conseguem fazer boas músicas para os seus desfiles, o que realmente causa estranheza sua contratação pela Portela, que teve 16 notas 10 consecutivas no quesito. Mas com ele chegam inúmeras qualidades. Não só a modernidade, mas também um toque de diretor de harmonia que ele sempre teve e que seria muito útil no nosso desfile de semanas atrás. Alias, será revivida a dupla Paulo Barros/Luis Carlos Bruno, que catapultou a Unidos da Tijuca de escola claudicante para a potência que é hoje entre os anos de 2004 e 2006.

Também ninguém pode dizer que a diretoria da Portela não reiterou seu lema “Quem ousa, vence”. Só encontro comparação com a ousadia e o impacto de tal contratação em dois momentos do Carnaval: a ida de Fernando Pinto para a Mangueira para o desfile de 1982 e a contratação de Renato Lage pelo Salgueiro após o Carnaval-2002. O interessante dessa história é que os dois precedentes citados tiveram desfechos totalmente antagônicos.

Pinto viveu às turras com a Mangueira e fez apenas um desfile mediano para rapidamente voltar para sua modernosa Mocidade, na qual teve a melhor fase de sua carreira até a trágica morte em 1987.

Já Renato Lage, para quem não se lembra, antes da contratação pelo Salgueiro era visto como um carnavalesco “unidimensional”, que só sabia trabalhar no estilo “high-tech”, cheio de néons, tecnologias e efeitos. Isso também não se encaixaria com o estilo mais sóbrio do Salgueiro dos enredos afros e o casamento estava fadado ao fracasso. Ledo engano.

É verdade que o começo foi bem complicado, com três dos quatro primeiros carnavais (2003, 2004 e 2006) bem irregulares, ou até mesmo péssimos. Mas, de repente, o destino mudou justamente em um enredo afro, exatamente daquele tipo que todos diziam que Lage não saberia fazer.

Veio Candaces para o desfile de 2007 e Renato Lage decidiu mostrar ao mundo que ele não era apenas “high-tech” mas sabia trabalhar muito bem um estilo mais barroco. O resultado foi um desfile deslumbrante e ao mesmo tempo totalmente clássico, sem sequer um toque de modernidade, todo calcado no ferro, na madeira, no isopor e nos tecidos que sempre foram usados pelas escolas. Apesar do extremamente injusto sétimo lugar, foi só a partir deste desfile que Lage foi mais respeitado como um carnavalesco completo, e ele e o Salgueiro se acertaram para nunca mais descompassarem.

Depois, Lage foi aos poucos reintroduzindo alguns componentes high-tech em excelente mistura com os trabalhos clássicos, criando desfiles plasticamente inesquecíveis como o campeão Tambor (2009), Rio no Cinema (2011) e a Minas Gerais deste ano.

Quem sabe a tradição com a qual a Portela inundará Paulo Barros não seja o estalo que estivesse faltando para que Paulo se reinvente (convenhamos que pouca coisa mudou no jeito de ele fazer carnaval de 2003 para cá)? Quem sabe Paulo não trará de volta o toque de inovação dentro dos preceitos tradicionais que a Portela teve em seus tempos áureos?

Paulo se adaptará? Isso será rápido? Caso demore como Renato Lage, a escola lhe dará tempo para se adaptar? Essas são perguntas que não temos como responder hoje, só acompanhando os acontecimentos futuros.

Dois pensamentos totalmente diferentes estão se encontrando. A fórmula para o sucesso mais uma vez é a negociação. Os dois lados tem que entender que para relacionamentos serem exitosos, ambos têm de ceder um pouco em suas convicções. Então, por exemplo, temos que nos adaptar aos carros coreografados de Paulo Barros. Para que a Portela o contratou afinal de contas? Alias, isso não é muito difícil. No fundo, todos os carros do carnaval de qualquer escola de ponta atualmente tem muito ensaio e alguma coreografia. Por outro lado, podemos solicitar que ele se controle nas coreografias das alas e permita aos componentes evoluírem de forma mais livre e tranquila. Não podemos deixar Paulo tirar a águia do abre-alas (e acho que nem ele quer isso), mas temos que aceitar algumas idéias novas dele para fazer a águia e assim por diante.

Também cabe à coordenação de carnaval – e especialmente à diretoria da escola – a adequada supervisão e imposição de limites ao trabalho do carnavalesco. Paulo é genial, mas como todo gênio, pode se perder no excesso de genialidade e, nesse ponto, um olhar externo de avaliação é fundamental. Como prova, vejam o desfile da Mocidade neste ano em um enredo que era um sonho antigo de Paulo Barros. Talvez tenha sido exatamente por isso que Horta não o deixava fazer tal enredo de jeito nenhum.

Nesse ponto, a escolha de um bom enredo, que permita aliar a tradição da Portela com a inovação de Paulo Barros, é ponto central. A diretoria sabe disso e deve estar dando bastante atenção a esse ponto. Uma ideia de enredo que surgiu em uma brincadeira do também colunista portelense Alex Cardoso (Fora do Ar), mas que achei que pode realmente ser interessante, é uma releitura do desfile de 1993, Cerimônia de Casamento.

Também seria algo a se pensar uma “solução de compromisso” entre a escola e Paulo Barros acerca das famosas imposições do carnavalesco nas letras dos sambas concorrentes para que finalmente Paulo Barros possa ter um samba a altura de sua genialidade plástica. Confio na direção da escola que é a única atualmente presidida por um músico e compositor de ofício, Serginho Procópio.

Por fim, a você portelense, certa ou errada, a decisão está tomada pela diretoria e até pela realidade do mercado não dá mais para voltar atrás.

Nós nascemos e morremos, mas a Portela fica. Ela já tem quase um centenário de vida, idade que 95% de nós nunca irá chegar. Sempre tenham em mente que a Portela é muito maior que você, eu, o Falcon, o Serginho, o Paulo Barros ou qualquer outro dirigente ou carnavalesco que a escola teve, tenha ou terá.

Então não adianta se afastar da escola. Pelo contrário, se queremos o bem da escola, precisamos mais do que nunca frequentá-la neste momento. Como Paulo saberá o que pensa e sente um portelense se não nos aproximarmos dele e explicá-lo? Como podemos reclamar de um rumo tomado no desenvolvimento do enredo se não estamos lá para vociferar nosso pensamento? Como podemos influir na mudança sem nos expressar? E como iremos nos expressar de modo que nos ouçam que não seja dentro da própria Portela?

Mais do que nunca a Portela precisa do apoio dos portelenses. Não a abandonamos em crises muito mais profundas, não será agora quando o sonho do título está tão próximo como nunca esteve desde o desfile de 1995. A Majestade continuará gigante sem a nossa presença, mas será ainda mais gigante se nós estivermos prontos e dispostos a defender seu pavilhão rumo ao vigésimo segundo título.

“Avante Portelenses para a Vitória”

¹ a figura de linguagem não é minha, mas do Luis Carlos Magalhães, diretor cultural da Portela.

6 Replies to “Pensamentos atuais de um portelense”

    1. Prezado Joca,

      Tanto concordo contigo que escrevi releitura, não reedição. Releitura é um novo enredo com novo samba-enredo (até porque o samba de 1993 nem é tão bom assim para ser reeditado) apenas aproveitando o tema.

  1. Essa é a desculpa que todos os portelenses (principalmente os ditos “ilustres”) estão usando para justificar o injustificável. Papo furado, essa é a verdade. A Beija Flor já deu exemplo de que é possível seguir adiante sem a figura central de um carnavalesco. Montou uma equipe com jovens talentos e o resultado todos sabem qual é. Ninguém ali tinha o tal know hall para aquela quase hercúlea empreitada já que estamos falando de uma supercampeã do carnaval que teria que manter seus status kuo. Mesmo assim a agremiação não apelou e teve peito de tomar e por em prática uma ação dessa natureza. O que estão fazendo com a Portela é um abuso. Em nome de um desesperado desejo de ver a escola campeã a qualquer custo, mesmo que assassinando, pisoteando toda a sua história, suas vertentes, engendra-se uma ação desrespeitosa dessas. Todo o resto que se diga é blá, blá, blá pra tentar tapar o sol com peneira.

    1. Prezado Guimas,

      Também prezo a tradição. Mas não podemos parar no tempo. Sou contra a nova forma de se fazer comissão de frente, por exemplo. Por mim, faria a comissão da forma que a Portela a criou: com baluartes de cartola apresentando a escola.

      Mas o que ocorreria com a escola se ela fizesse isso? Muito provavelmente tomaria pancada forte dos coreógrafos que hoje são julgadores do quesito.

      Queremos uma Portela parada no tempo, tradicional e deslocada dos critérios de julgamento para ficar em posições ruins? Ou queremos uma Portela competitiva?

      Eu a quero competitiva. Dentro das tradições o máximo possível, mas disputando o título.

      Temos que lutar contra as premissas que consideramos erradas da LIESA? Temos! Alias, virá uma série nesta coluna muito forte nesse aspecto nos próximos dias. Mas enquanto não se muda, nós temos que nos adaptar.

  2. Esse é o problema, meu caro, Rafal Rafic.
    Esse discurso de que é necessário mudar, “modernizar”, e não sei mais quantos ar é o mais triste. Desfile de escola de samba é um fenômeno cultural que deve (ou, deveria) manter suas tradições. É possível modernizar sem se aniquilar as características e vertentes, como já ocorreu por diversas vezes. Agora, não da pra aceitar que em nome de uma dita modernização (na verdade o que ocorre é uma gradual extinção) se aniquile toda a essência dessa manifestação, substituindo o bailado espontâneo de um componente por uma tosca coreografia engessada, absolutamente distante da ginga natural que um desfile de escola de samba necessita. Então, quer dizer que o frevo deve mudar radicalmente seus movimentos, suas músicas, seus figurinos por que há uma suposta necessidade de modernizar? O Bumba meu Boi do Maranhão deve abandonar suas matracas, trocando-as por instrumentos modernos para atender às urgentes e imperiosas reivindicações de modernidade que urgem por todos os lados? Os blocos de sujos devem tornar-se blocos dos limpos, onde não se poderá mais pintar-se, sujar-se, tão pouco, travestir-se, pois isso já está ultrapassado, arcaico? É isso? Ninguém me convencerá jamais que o teatrinho de retardados que o Paulo Barros coloca em atuação venha a ser qualquer coisa próxima a carnaval. É triste ver como as pessoas aceitam facilmente esse assassinato em nome de uma tal modernidade patética. Dane-se a genuína dança, canto, ginga brasileira. A “modernidade” exige movimentos rijos, metódicos, articulados pra que se tenha novamente a emoção (????) nos desfiles. Abaixo os tamborins lançados ao alto. O barato agora são as rampas, as portinhas que abrem e fecham e os componentes robóticos a atravessar a avenida feito zumbis dopados. Enquanto esse cara estava na Tijuca, na Mocidade, vá lá. Mas, Portela!!! Ah, fala sério. É muito desespero, só isso explica essa contratação estapafúrdia.

  3. Graças aos deuses que a Portela fica e essas pessoas passam. Natal, Dodô, Maracanã e Falcon. Uns deixam saudade, aos outros, o esquecimento. Graças aos deuses do terreiro, de onde vem nossa força, graças a cor de nossa pele, de onde vem nossa raça, nossa força, nosso valor. Essa aventura inconsequente vai passar, e vamos celebrar nossos valores. Deixemos esses dois brincarem com nosso pavilhão, pisar um chão que não conhecem e receberem o prêmio de uma “ousadia” deslumbrada. Aí os nossos Portelenses voltarão. E seremos fortes novamente.

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