Escrevo estas linhas depois que Fernando Alonso completou sua terceira corrida consecutiva na Fórmula 1 fora da zona de pontuação. É apenas a segunda vez que o espanhol começa o campeonato passando em branco nas três primeiras provas. E, convenhamos, a primeira não conta, pois ele estava na fraquíssima Minardi.
Você pode estar se perguntando se queri dizer com isso que Alonso é um piloto em decadência. Claro que não! Este ano ele deve sofrer um tanto mais, já que a nova McLaren-Honda ainda está em desenvolvimento. Mas Alonso não está em decadência.
O espanhol é um piloto extraordinário, de talento absolutamente indiscutível. Depois do auge de Michael Schumacher, a meu ver é o mais completo piloto de Fórmula 1 que surgiu. Rápido, implacável na pista, inteligente e estrategista.
Pode não ser tão rápido como Sebastian Vettel ou exuberante como Lewis Hamilton. Mas é o mais completo, sim. Talvez o último que consegue tirar uma reserva do bolso quando o carro não é dos melhores. E é sobre isso que vamos falar mais tarde…
Só que, ao mesmo tempo em que dentro da pista Alonso é um piloto brilhante, fora dela suas atitudes são extremamente discutíveis, e escrevo sem medo de errar que isso foi decisivo para que ele esteja completando dez anos sem títulos – é claro que o deste ano, pelos problemas da McLaren, não será do espanhol.
Depois de dois títulos incontestáveis pela Renault, Alonso se transferiu para a McLaren em busca de um tricampeonato consecutivo que só Schumacher e Juan Manuel Fangio tinham até então – depois Vettel ganhou quatro. Aí que Alonso começou a se dar mal.
O espanhol teve pela frente o novato Lewis Hamilton e, quando começou a se sentir incomodado, apelou para a politicagem. Pior, ainda chantageou a McLaren no caso do escândalo de espionagem. O que deveria ser um time a favor dele, virou um “todos contra ele”. Deu no que deu: nem Alonso, nem Hamilton foram campeões.
Se tivesse levado a situação, mesmo perdendo o campeonato para Hamilton em 2007, Alonso tinha tudo para ser campeão em 2008. Com a boa forma da McLaren, e um ano a mais de adaptação ao time, o espanhol, pela consistência e experiência que tinha, fatalmente bateria Hamilton. Como Piquet fez com Mansell na Williams.
Mas Alonso criou um clima tão beligerante na McLaren, que teve de voltar para a Renault com o rabo entre as pernas. Como a equipe não tinha evoluído com Giancarlo Fisichella e Heikki Kovalainen, Alonso pegou a Renault um degrau abaixo do que na época em que havia saído.
Levou meia temporada para acertar o carro e só no fim do campeonato começou a andar, tanto que ganhou duas provas – uma delas mandrake, em Cingapura, como sabemos. A Renault perdeu a mão em 2009 e Alonso foi junto.
Daí veio a jogada de mestre: ida para a Ferrari com um contrato milionário bancado em parte pelo banco Santander. Era só questão de tempo para Alonso fazer que nem Schumacher e quebrasse todos os recordes da Fórmula 1.
Mas aí a veia, digamos, política de Alonso voltou à tona. Tomou de assalto a Ferrari, forçando a barra para que fosse dado a ele um GP da Alemanha que era dominado desde o começo por Felipe Massa – poucos sabem ou se lembram que a equipe reduziu os giros do motor do brasileiro para criar a falsa sensação de que Alonso era mais rápido; este tinha o motor funcionando a pleno.
Depois, perdeu o campeonato de 2010 num erro tático da Ferrari, o de 2011 porque o carro era ruim mesmo, o de 2012 porque foi envolvido em dois acidentes (um deles por sua culpa), o de 2013 porque a Red Bull era muito superior e o de 2014 porque a Ferrari era inferior demais aos outros carros.
Nesse interím, reclamava abertamente do desempenho do carro, das estratégias e, com um companheiro de equipe com a autoconfiança limitada já que era impedido de andar na frente dele, tinha menos um apoio para evoluir o carro, o que ele também contribuiu menos do que deveria.
Dentro da pista, sejamos justos, até que Alonso fez grandes exibições, “andando muito mais do que o carro” como se diz no automobilismo. Mas, nas internas, a paciência dele acabou e a paciência da Ferrari com ele também.
Daí ele andou atrás da Red Bull: sem vaga. Andou atrás da Mercedes: sem vaga. Conseguiu, ironicamente, uma vaga na McLaren, creio eu porque a Honda queria alguém experiente e de tarimba no time – Jenson Button, apesar de ótimo piloto e campeão do mundo, não é um extraclasse, e Kevin Magnussen é muito novo.
O que acontece? O motor Honda tem um desenvolvimento ainda mais complicado do que se esperava – vale lembrar que o fabricante japonês não tem experiência com motores híbridos de competição e esta nova unidade motriz da Fórmula 1 é difícil de se desenvolver, o que Alonso poderia ter previsto – e a Ferrari dá um salto enorme de qualidade depois que o desenvolvimento dos propulsores é descongelado.
Aí, Vettel, que herda a vaga de Alonso, volta a vencer corridas, e Alonso amarga um início terrível de campeonato. Se Alonso não tivesse sido mais paciente, será que não seria ele o principal adversário das Mercedes esse ano, com interessantes possibilidades? Schumacher ganhou seu primeiro título na Ferrari no quinto ano, Alonso estava indo para o sexto.
Cada vez chego mais à conclusão de que Alonso é o piloto certo, mas das horas e atitudes erradas.
Seria o Alonso o Chris Amon do séc. XXI?? =D