Durante sete anos, ouvimos falar dele e passamos a detestar o tal “padrão FIFA”. Quem são esses caras para acharem que podem mandar no nosso país e nos ditar suas regras? Fizemos campanhas contra eles e dissemos até que não ia ter Copa. Sempre criticando esses loucos que queriam tudo organizado com atecedência, que no caso atual é o COI, o Comitê Olímpico Internacional. Devido ao roubo de verbas e outros escândalos característicos do país, os estádios se tornaram os grandes vilões. A neurose foi tanta, que até hoje tem uma galera que reclama por exemplo, da extinção da antiga, e nada saudosa, geral.
Antes de mais nada, setor e preços populares não tem necessariamente que significar localização ruim e desconforto. Para mim, que frequentei muito, 99% dos que dizem sentir falta da geral do Maracanã não ia ao estádio, sentava em outro setor ou não gosta muito de assistir a um jogo de futebol. Demos perigoso espaço assim, para pérolas como: “Eles não conhecem o Brasil, no fim tudo ficará pronto”. Para piorar, ficou mesmo. Feito de qualquer jeito e colocando muito dinheiro público no bolso de muita gente, mas ficou.
E o que isso tem a ver com Carnaval? É inconcebível que uma festa dessa grandeza, e que somente acontece uma vez por ano, não proporcione aos poucos que lá estão, uma experiência inesquecível em todos os sentidos. Você leitor, já esteve na Marquês de Sapucaí em noite de desfiles oficiais? É bem possível que não afinal, nem todos moram no Rio de Janeiro ou podem pagar por isso. E quem pode, senta no cimento. E desde muito cedo, já que não existe numeração nas arquibancadas. Para que numeração se não existem cadeiras, né?
E você, leitor que nunca esteve por lá, pode estar pensando: Mas claro, esse é o setor popular, rico compra frisa. Vocês acham 220 reais por noite de Grupo Especial popular no Brasil? Pois é esse o valor da arquibancada. E isso ainda é menos que os 500 reais que o gringo paga no chamado “setor turístico”, como é conhecida a arquibancada do setor 9. Essas também não possuem cadeiras, mas são numeradas. Mas podemos falar das frisas também, que custam em torno de 1.000 reais a noite. Na sexta-feira, durante a primeira noite de desfiles da Série A, o banheiro do setor 3 estava interditado. O cronômetro deste setor, apresentou o mesmo erro repetidamente em todas as noites, dando a falsa idéia de estouro de tempo por diversas escolas.
Nós nos acomodamos. A organização da festa é fantástica e o espetáculo único, isso nos tornou conformistas. Há 35 anos não tínhamos um Sambódromo como conhecemos, há cinco, não havia essa quantidade de arquibancadas do lado par. Por que não podemos continuar a evolução?
Muito se fala do sistema de som da Sapucaí. Nos ensaios técnicos ele faz falta, já que fica reduzido a um carro de som, claramente insuficiente. Nas noites de desfiles, ele falha muito mais do que deveria, gerando a reclamação de todos. Sempre que se cogitou a montagem do sistema nos ensaios, os valores envolvidos para deixar tudo montado desde o início do ano, foram colocados como o principal adversário. Esse é o caso mais difícil de se resolver, mas está longe de ser impossível.
Outra coisa á se observar, é que em relação ao tempo total de desfiles em uma noite, é importante a maneira como a transição de som entre uma escola e outra é feito.
Os primeiros setores da Avenida vão recebendo o áudio da Escola seguinte enquanto lá na Apoteose, somente se ouve aquela que ainda está desfilando. Mas já pararam para pensar que na maioria das vezes, quase todas no Grupo Especial, somente o setor 1 consegue acompanhar um dos mometos mais queridos pelos sambistas? O esquenta. Quando o áudio chega ao setor 3, este já está no fim ou já acabou. Isso deveria ser urgentemente revisto.
A iluminação não é feita para um espetáculo de cores. A propósito, quem precisa de iluminação é desfilante e artista, o público não precisa de tanta luz em cima dele.
No início do século, se cogitou que cada Escola ficaria encarregada pelo sistema de luz durante seu desfile. Não sei aonde foi parar essa ideia. Imaginem que bacana um carnavalesco tendo a chance de pensar na paleta de cores de seu desfile, tendo a iluminação do Sambódromo como aliada. A televisão também agradeceria.
Passei toda a temporada de ensaios técnicos reclamando do 3G, e depois do 4G, da Avenida. Riotur, LIESA e operadoras poderiam dar uma solução pro problema. Impossivel trabalhar assim. Alias, hoje em dia, impossível se divertir 100% também, afinal, quem não quer estar por lá e enviar uma foto pelas redes sociais? Além da divulgação gratuita, em tempo real e pro mundo inteiro, do espetáculo e das marcas ali espalhadas. Ou então, disponibilizem wi-fi nas noites de desfiles.
Deixei por último pois acho algo assombroso: O famoso viaduto. Para quem não sabe, e se não sabe vai ficar chocado, as Escolas preferem concentrar do lado dos Correios não é por superstição, não é porque tem um barracão mais perto, não é pela posição de desfile, é por causa de um viaduto! Um viaduto que decide Carnaval! Um viaduto que torna uma alegoria mais cara! Um viaduto que já estava lá quando conceberam o Sambódromo! Mas vocês imaginem o cara lá em Dallas, construindo a via que leva ao estádio dos Cowboys, às vésperas do Superbowl, topa com um viaduto e pensa: “Hum, vou colocar aqui uma placa limitando a altura dos veículos”. Desde 1984 somos incapazes de acharmos uma solução para isso.
Quero deixar claro que entendo as consequências de tirar dali um viaduto. Mas sequer estou afirmando ser essa a solução, apenas dizendo que nenhuma outra foi dada em 31 anos.
Pagaria mais que o dobro do que já paguei para assistir uma noite de desfiles do Carnaval do Rio de Janeiro. Nada pode tirar a satisfação que isso representa. E é essa satisfação, que nos faz esquecer na quarta-feira de cinzas que nada é tão bom que não possa melhorar, e que pagando caro ou não, os sambistas merecem também um padrão FIFA.
Aquele abraço!
Boa tarde!
Prezado Alex Cardoso:
Estas reclamações já criaram barba, e não foram resolvidas. O tempo passou, as tecnologias mudaram, as Escolas evoluíram, e nada foi feito.
Vou falar em tópicos sobre alguns assuntos abordados.
– Que haja a luz!
A iluminação cênica foi testada de maneira rudimentar nos primeiros carnavais do novo milênio, e havia muita gente (Público mesmo) reclamando da escuridão na pista.
Alguns carnavalescos alegam que haveria dificuldade em iluminar adequadamente um cortejo, pois os efeitos de luz seriam itinerantes.
Particularmente acredito que tanto alegorias quanto fantasias podem tirar proveito de uma boa luz branca, desde que ela seja efetivamente e uniformemente branca por todo o trajeto. O maior problema da luz é o fato de ela cegar o próprio público!
A despeito de uma boa luz branca, o Anhembi é um bom exemplo, e sem dores nos olhos. Infelizmente é claro demais, problema parcialmente contornado com a nova-velha pintura cinza de toda a estrutura (Antes era tudo branco, até o piso da arquibancada).
Como se não bastasse já existir um problema, criam um novo! A boate que Rede Globo monta nos recuos de Bateria prejudica a visão do espectador que está perto dela. Funciona diante das câmeras, mas é bem ruim para quem vê ao vivo.
– No início era o verbo…
O som é simplesmente tenebroso! Além de completamente disforme ao longo da pista (O que falha num setor pode não atingir outro), sua captação e mixagem são péssimas!
Já tive o prazer de freqüentar alguns grandes shows internacionais, e me pergunto por que não é possível ter a mesma qualidade na pista.
Para dizer que não estou exagerando na busca de qualidade sonora, em 1998 foi lançado um álbum com gravações ao vivo na Marquês de Sapucaí. Só vou ficar satisfeito quando ouvir na pista algo parecido com o que ouvimos neste álbum. E quando falo parecido, é porque o próprio material ainda peca em alguns aspectos.
– Conclusão
Qualquer cobrança de qualidade pode gerar respostas com argumentos que sempre prezam pela “especificidade do espetáculo”. Bem, este tipo de argumento nunca foi usado quando o assunto são as inovações que funcionaram. O fato é que antes delas, tudo era muito complicado e numa situação diferente, até que alguém fez.
Como você bem disse, precisamos cobrar, e nunca nos acomodar (A não ser que seja numa confortável cadeira de uma arquibancada adequada, e não o cimento duro de sempre).
Atenciosamente
Fellipe Barroso
Concordo com td, não há muito o que adicionar, mas só pra registrar: Nos últimos anos, estive no Setor 10 sempre pq é meu preferido e gosto mto dos esquentas, mas nesse tempo todo, apenas no desfile da Imperatriz de 2013 eu ouvi o esquenta, que foi o “Liberdade, Liberdade”… Isso é broxante pra mim…
Perfeito, Alex!!