Das categorias esportivas que detém alguma importância no cenário mundial, a NFL talvez seja aquela que tenha sua “offseason” mais longa: a temporada termina sempre no primeiro domingo de fevereiro e só recomeça com os jogos preparatórios em agosto.

Ainda assim, durante este período há alguns eventos que chamam a atenção da categoria, como a temporada de “free agent”, o draft (alvo de post anterior), e o chamado “training camp”. Além da tradicional contagem dos jogadores que fazem uma visita à penitenciária neste período…

Entretanto, nesta offseason o mundo da NFL foi sacudido ontem com a notícia da punição ao New England Patriots (atual campeão) e a seu quarterback Tom Brady: o time foi multado em 1 milhão de dólares e perdeu a primeira escolha do draft do ano que vem e a quarta de 2017. Brady foi suspenso por quatro jogos da próxima temporada. Todas as punições passíveis de apelação.

Além das sanções elencadas no parágrafo anterior, os dois funcionários envolvidos no caso foram afastados, respectivamente o atendente de vestiário Jim McNally e o assistente de equipamentos John Jastremski.

Este veredito é resultado do que a imprensa americana chamou de “Deflategate”. Explico.

iNa partida do Patriots contra o Indianapolis Colts pela final da Conferência Americana – uma espécie de “semifinal” do campeonato, para os leigos – se comprovou que 11 das 12 bolas à disposição do ataque da equipe de Boston estavam mais murchas que o padrão, o que dá uma vantagem à equipe. Com bolas mais vazias o quarterback tem mais “pegada” na bola e os riscos de fumble – o recebedor soltar a bola e deixá-la escapulir – diminuem.

A NFL comandou uma investigação, que chegou à conclusão que a alteração nas bolas – feita após a verificação feita pela entidade e antes do início da partida – foi feita por dois funcionários da equipe, possivelmente a pedido do quarterback Tom Brady. Concluiu que “é mais provável que não” que ele soubesse disso e mesmo que tenha dado ordem para tal.

Contra Brady reside o fato de ter se negado a entregar seu telefone e seus emails para a investigação, o que soou como uma confissão de culpa. Há registros de 21 ligações entre o quarterback e os dois funcionários em janeiro, na semana anterior à partida.

A punição, portanto, se deveu ao fato do Patriots ter alterado a “integridade do jogo” se utilizando de expedientes ilícitos para levar vantagem em uma partida. Partida que provavelmente ganharia mesmo sem se utilizar deste estratagema, o que na visão dos investigadores da NFL funciona como um fator agravante.

Fatos relatados, alguns comentários.

O primeiro é que Brady foi punido por uma espécie de “domínio do fato”, como dizem os colunistas advogados desta revista eletrônica. Ele deveria saber do fato pois era o maior beneficiado e as bolas estavam exatamente do jeito que ele prefere. A questão é que provavelmente a ordem partiu dele, mas a investigação não encontrou provas materiais de tal fato.

Por outro lado, a não cooperação do quarterback funcionou como uma confissão de culpa, por um lado, e como agravante na determinação da punição segundo a investigação. Se Brady não estava envolvido e não tinha nada a temer, porque não entregou seus registros de emails e mensagens de texto conforme solicitado?

IMG_20150512_092725Vale fazer a ressalva de que a dosimetria das punições da NFL é meio incoerente às vezes: a punição que Brady levou foi a mesma de jogadores envolvidos em casos de violência doméstica ou que falharam em testes antidoping para drogas recreativas. Sob este aspecto achei a punição a Brady exagerada, em que pese a gravidade de se tentar “levar vantagem” esportivamente – o que é sério. Entretanto dois jogos, a meu ver, estariam de bom tamanho justamente por não se ter obtido provas cabais.

Quanto à equipe, penso que a situação é diferente. O Patriots é reincidente em condutas semelhantes e antidesportivas – ver uma lista aqui – a ponto de ter ganho o apelido nos Estados Unidos de “Cheatriots” (um trocadilho envolvendo o nome do time e “cheat”, trapaça em inglês). A punição pode ser considerada rigorosa (embora 1 milhão de dólares seja um trocado para seu dono), mas achei justa.

Segundo a imprensa americana também pesou na dosimetria as amistosas – segundo alguns jornalistas, até demais – relações entre o dono dos Patriots, Robert Kraft, e o comissário (espécie de CEO) da NFL Roger Goddell. Como quem o coloca lá são os donos dos times e dado o histórico anterior, uma não punição poderia azedar de vez as relações entre Goddell e as demais 31 equipes da liga.

012312-sports-super-bowl-showdown-eli-peyton-manning-tom-bradyOu seja: o recado dado pela NFL foi claro no sentido de não tentar alterar de forma ilícita aspectos do jogo. Não me alinho àqueles que dizem que o título dos Patriots acabou manchado pelo fato, mas parece claro que o escândalo influencia as reputações não somente do Patriots como do próprio Tom Brady – e as diversas comparações com os Irmãos Manning (Peyton e Eli) feitas em diversos veículos yankees ontem deixam claro que a imagem do quarterback sai arranhada do episódio.

Ressalto que em minha opinião e na de quase todos os analistas Brady é um dos grandes na história – ninguém ganha 4 SuperBowls se não for um dos grandes. Mas levará este “asterisco” em seu perfil.

Para finalizar, um comentário: obviamente, o caso foi parar naquele que é considerado o principal noticiário da televisão brasileira. Curioso é que nem o resultado do SuperBowl (o principal evento esportivo mundial, diga-se) a emissora noticia no vespertino em questão, mas notícias negativas sempre ganham bastante destaque. Se o grupo em questão detivesse os direitos de transmissão da categoria no Brasil o tratamento seria o mesmo?

Um segundo comentário, aí de forma em geral sobre a imprensa brasileira: Tom Brady tem nome, não é o “marido da Gisele Bundchen”. Um pouco menos de provincianismo, às vezes, faz bem.

O leitor discorda, concorda? Utilize a área de comentários.

Imagens: Espn, Daily News e NY Post

4 Replies to “Bola Murcha na NFL”

  1. Ficou barato a punição ao jogador.
    O fato de não entregar os emails e dados telefônicos soou como uma confissão de culpa.

    1. Eu pensei nisso quando escrevi o texto, embora ache que contra Brady as evidências são bem mais fortes

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